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Após 18 anos, Sérvia pede perdão por massacre de bósnios

Cerca de 8 mil homens foram encontrados mortos em Srebrenica em 1995

25 abr 2013
06h58
atualizado às 14h20
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O presidente sérvio, Tomislav Nikolic, pediu perdão pelo massacre de Srebrenica (leste da Bósnia), cometido pelas forças sérvias em julho de 1995 e considerado um genocídio pela justiça internacional, segundo trechos de uma entrevista que será exibida em 7 de maio pela televisão pública bósnia (BHT).

"Ajoelho-me e peço que a Sérvia seja perdoada pelo crime cometido em Srebrenica", declarou Nikolic, que havia negado em junho passado o genocídio. "Apresento minhas desculpas pelos crimes que foram cometidos em nome de nosso Estado e de nosso povo por qualquer indivíduo pertencente ao nosso povo", prosseguiu.

Nikolic é um nacionalista populista, aliado do falecido presidente sérvio Slobodan Milosevic na época da guerra travada após o desmantelamento da ex-Iugoslávia, que que adotou recentemente um discurso mais pró-europeu. Ele chegou a provocar comoção em junho de 2012 ao declarar um dia após sua posse que "não houve genocídio em Srebrenica".

Na entrevista à BHT, o líder sérvio não pronunciou o termo "genocídio", e se limitou a falar de "crime". Os trechos desta entrevista foram divulgados nesta quinta no YouTube e suas declarações foram confirmadas à AFP por uma fonte da presidência sérvia.

Na semana passada foi concluído um acordo "histórico" de normalização das relações entre a Sérvia e Kosovo, que abriu o caminho de aproximação entre Belgrado e a União Europeia.

Belgrado espera que os chefes de Estado e de Governo europeus decidam durante a cúpula de junho uma data para a abertura das negociação de adesão do país à UE. A Sérvia deseja com essas declarações "descartar um obstáculo para obter uma data para as negociações de adesão", considera o analista político Djordje Vukadinovic.

Por sua vez, o ministro kosovar das Relações Exteriores, Enver Hoxhaj, elogiou as declarações de Nikolic. "O pedido de desculpas do presidente sérvio à Bósnia é importante. Ele também precisa se desculpar pelos crimes de guerra cometidos (...) no Kosovo", durante o conflito (1998-99), escreveu em sua conta no Twitter.

Em julho de 1995, no final do conflito interétnico da Bósnia (1992-95), as forças sérvio-bósnias massacraram cerca de 8 mil homens e adolescentes muçulmanos em Srebrenica, no pior massacre cometido na Europa desde a Segunda Guerra mundial.

A presidente da Associação das Mães de Srebrenica, Munira Subasic, declarou à AFP que não está convencida da sinceridade de Nikolic. "Não precisamos que alguém se ajoelhe para pedir perdão. Gostaríamos de ouvir o presidente sérvio e a Sérvia pronunciarem a palavra genocídio. Só assim acreditaremos na sinceridade do gesto", acrescentou Subasic.

Aproximadamente 5.650 vítimas desse massacre foram exumadas de fossas comuns, identificadas e enterradas em um centro memorial perto de Srebrenica.

Terça-feira, durante visita oficial a Belgrado, o membro muçulmano da Presidência colegial da Bósnia, Bakir Izetbegovic, pediu a seu colega sérvio que "respeite as decisões" da justiça internacional, referindo-se ao massacre como genocídio.

As declarações de Nikolic após sua posse em 2012 fragilizaram ainda mais as relações entre as duas ex-repúblicas iugoslavas. Izetbegovic chegou a rejeitar um encontro com o chefe de Estado sérvio. Boris Tadic, antecessor de Nikolic, pediu desculpas às famílias das vítimas de Srebrenica em 2005 durante cerimônia, mas também evitou a palavra de genocídio.

No final de 2010, o Parlamento sérvio adotou uma resolução condenando o massacre de Srebrenica. Foi a primeira condenação oficial do Parlamento sérvio, 15 anos após o acontecido.

AFP Todos os direitos de reprodução e representação reservados. 
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