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Presidente eleito, Hollande afirma que franceses decidiram mudar

6 mai 2012
16h29
atualizado às 18h37
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O virtual presidente eleito da França, François Hollande, abriu o seu primeiro discurso após as eleições presidenciais deste domingo dizendo que os franceses "optaram pela mudança" ao escolhê-lo. O socialista declarou oficialmente sua vitória diante de multidão localizada em uma praça na cidade de Tulle, seu reduto eleitoral, no centro do país.

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Hollande afirmou que estava ciente das responsabilidades que o seu governo terá por representar a mudança. "A mudança que eu proponho deve estar à altura da França. Ela começa agora", disse, acrescentando que estava "profundamente agradecido" a todos que votaram nele.

Logo depois, vaias foram ouvidas quando ele estendeu seus cumprimentos ao atual presidente e candidato derrotado, Nicolas Sarkozy. As pesquisas de opinião apontam que Hollande venceu as eleições com 52% dos votos, contra 48% de Sarkozy.

Se dirigindo aos eleitores que não votaram nele, Hollande disse que vai respeitar os seus sentimentos e que será o presidente de todos os franceses. "Nenhum dos filhos da República será deixado de lado. Todos na França serão tratados com igualdade", afirmou.

Ele acrescentou que "a redução do déficit, a preservação de nosso modelo social para garantir a todos o mesmo acesso aos serviços públicos e a igualdade entre territórios" serão outras prioridades de seu mandato, além da educação, do meio ambiente e das políticas específicas para a juventude. "Cada decisão será tomada sobre estes dois critérios: É justo? É para a juventude?", afirmou Hollande.

Hollande salientou o fato de que toda a Europa estava de olho nas eleições francesas e afirmou que o resultado na França trouxe alívio para diversas regiões do continente. "Na hora em que o resultado foi anunciado, tive a certeza que em diversos países europeus houve um sentimento de alívio e de esperança, de que, por fim, a austeridade não deve ser mais uma fatalidade", se referindo a política de resposta à crise europeia e da qual é opositor. Entre suas prioridades disse que estará a de impulsionar uma "reorientação da Europa rumo ao emprego, o futuro e o crescimento".

Hollande ressaltou ainda que transmitirá "o mais rápido possível" a seus parceiros europeus, e em primeiro lugar à Alemanha, "em nome da amizade que nos une", sua política de aposta em medidas que impulsionem o crescimento. "Não somos um país qualquer do planeta, somos a França", destacou perante o apoio de seus seguidores.

A vitória de Hollande marca o retorno da esquerda à presidência da França, 17 anos após o fim do segundo mandato do ex-presidente socialista François Mitterrand, em 1995. Mitterrand - a principal inspiração do agora presidente eleito - foi sucedido pelo conservador Jacques Chirac (1995-2007), e depois por Nicolas Sarkozy (2007-2012), ambos do partido de direita União por um Movimento Democrático.

Hollande recebeu a notícia em seu comitê de campanha em Tulles, em Corrèze, reduto político do presidente eleito. Depois de votar, pela manhã, ele permaneceu no escritório durante o restante do dia, acompanhado apenas da mulher, Valérie Trierweiler, e de um conselheiro que o ajuda a preparar o seu discurso. Na capital, ele é aguardado na imensa festa popular que acontece na sede do Partido Socialista, na Rue Solférino, e depois na Praça da Bastilha, palco da Revolução Francesa, em 1789.

Mudança e reconciliação
O socialista informou à imprensa que passou uma noite "tensa" e estava ansioso durante o dia inteiro. Esta foi a primeira vez que ele concorreu ao Palácio do Eliseu e a sua vitória é o resultado de um esforço pessoal fora do comum: nas eleições anteriores, em 2007, ele era secretário-geral do partido e visto como um político sem liderança e pouco expressivo. Mas desde que deixou as rédeas do PS, em 2008, Hollande passou por uma verdadeira metamorfose: perdeu 10 kg, rejuvenesceu o visual, passou a moderar nas piadas irônicas pelas quais era conhecido e, principalmente, se colocou como a voz moderada e sensível do partido.

De encontro a um presidente que colecionava gafes contra as classes populares, em tempos de crise a França precisava de um homem que trouxesse de volta a conciliação. Com essa determinação, Hollande decidiu que a sua hora de concorrer ao cargo máximo da República tinha chegado. Coincidência ou não, a candidatura do favorito para disputar o Palácio do Eliseu pelo Partido Socialista, Dominique Strauss-Kahn, acabou ficando pelo caminho. A cinco meses das prévias que escolheriam o candidato, no ano passado, um escândalo sexual em Nova York pôs fim aos planos do ex-diretor do FMI, visto como o único capaz de vencer Sarkozy nas urnas. O desânimo tomou conta dos socialistas, que começaram a duvidar, mais uma vez, da capacidade de voltar ao poder.

Campanha sem falhas
Porém, uma vez escolhido pelos militantes, Hollande deu início a uma campanha sem falhas: bom de discurso, percorre a França inteira pedindo a mudança e tentando transmitir a confiança que faltava aos franceses. Alguns o chamam de "frouxo", outros, de "bonzinho demais". O próprio Sarkozy diz que Hollande é sem dúvida um homem inteligente, mas "que não sabe dizer não".

No entanto, o primeiro grande comício de campanha do socialista, em Bourget, na periferia de Paris, mostra que as mudanças não foram somente no visual. Diante da multidão, aparece um candidato firme, decidido e transbordando vontade política de reunir os franceses em torno dos valores republicanos, a liberdade, a igualdade, a fraternidade. Essa determinação o acompanha durante toda a campanha, inclusive no esperado - e, sem dúvida, temido - debate cara a cara contra Sarkozy, visto pelo presidente como a oportunidade de ouro para reverter o quadro e, quem sabe, vencer as eleições.

No primeiro turno, as urnas confirmam a primeira façanha: jamais na história da 5ª República Francesa um presidente em exercício tinha ficado em segundo lugar no primeiro turno. Agora, os franceses confirmaram que querem sim a mudança tanto pedida por Hollande. Resta ao novo presidente provar que será capaz de, diante tantas adversidades, trazer de volta a França que tanto desperta admiração.

Com informações de Lúcia Müzell, direto de Paris

Fonte: Terra
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