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Preconceito contra ciganos é generalizado na Europa

28 ago 2010
14h24
Lúcia Müzell
Direto de Paris

O presidente francês, Nicolas Sarkozy, vem sendo alvo de duras críticas desde que iniciou uma cruzada contra os ciganos que vivem na França, também conhecidos como "roms" ou "viajantes". Mas o preconceito contra este povo está longe de ser é uma exclusividade do governo francês: a desconfiança e o desprezo marcam a trajetória desta minoria desde o século XV, quando os europeus passaram a rejeitar a presença de comunidades nômades e sem ocupação fixa.

Mapa mostra o tamanho da população cigana na Europa; desconfiança e desprezo marcam trajetória da minoria
Mapa mostra o tamanho da população cigana na Europa; desconfiança e desprezo marcam trajetória da minoria
Foto: Arte / Terra

"Mais do que os judeus ou muçulmanos, os ciganos são o povo mais discriminado da Europa. É uma unanimidade", afirma a pesquisadora Nonna Mayer, coautora do Relatório Anual contra o Racismo, Antissemitismo e a Xenofobia da Comissão Nacional Consultativa dos Direitos Humanos da França. "A prova disso é que, junto com os judeus e os homossexuais, os ciganos eram considerados uma raça inferior por Adolf Hitler, que desejava o extermínio completo deste povo."

Sarkozy também não foi o primeiro francês a se voltar contra os ciganos. No século XVII, o célebre rei Luis XIV ¿ a quem, curiosamente, o atual presidente é com frequência comparado por suas decisões arbitrárias ¿ decretou que todos os ciganos homens deveriam ser presos e enclausurados em calabouços, onde permaneceriam pelo resto da vida sem processo ou julgamento. Suas mulheres e filhos eram enviados para hospícios.

Mas o auge da perseguição aconteceu mesmo durante a Segunda Guerra Mundial, quando 220 mil ciganos foram exterminados pelo regime nazista ao ar livre ou nos campos de concentração. Apesar das lições da guerra e da formação da União Europeia, a impressão sobre os ciganos não parece ter evoluído ao longo das últimas décadas. Até hoje, para muitos eles ainda são associados causadores de medo, insegurança, roubos e trapaças.

"O preconceito contra eles sempre existiu na Europa ocidental, sobretudo porque eles levam um modo de vida diferenciado, não tolerado pelo europeu", explica Jean-Yves Camus, especialista em extrema-direita do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (IRIS) em Paris. "É uma cultura que o europeu não consegue apreender, porque baseada no oposto do que estamos acostumados, ou seja, em um máximo de estabilidade possível."

A União Europeia não estabeleceu uma política comum face aos ciganos, deixando o caminho livre para os 27 Estados-membros integrá-los ¿ ou não ¿ como melhor lhes convier. A maior parte dos ciganos migra da Romênia e da Bulgária para os países mais desenvolvidos, onde procuram novas chances de emprego.

"Não podemos esquecer que onde eles mais sofrem preconceitos é justamente de onde eles vêm, dos países do Leste. Na sua região de origem, eles são detestados, hostilizados o tempo inteiro e vivem uma vida miserável", lembra Mayer.

Atualmente, quem mais faz companhia a Sarkozy nas medidas contra os ciganos é o governo italiano, depois que a rejeição contra o povo chegou à provocação de um incêndio criminoso de um acampamento de ciganos nas proximidades de Nápoles. O governo passou a registrá-los, recolhendo impressões digitais, e a propor indenizações para a saída voluntária dos ciganos em situação ilegal do país. O "incentivo" compreendia 400 euros e uma passagem de avião para o país de origem.

Agora, estimulado por Sarkozy, o ministro italiano do Interior, Roberto Maroni ¿ membro da Liga do Norte, o principal partido de extrema-direita ¿ quer poder expulsar qualquer cigano que não tenha domicílio fixo e que "seja um fardo para o sistema social" do país onde se encontra.

A Alemanha age em via semelhante, incentivando a partida voluntária e promovendo expulsões regulares de ciganos ilegais. No entanto, os alemães se vêem face a um empecilho cada vez mais comum: de acordo com a Unicef, 38% dos ciganos que vivem na Alemanha são apátridas, logo protegidos de expulsão compulsória por convenções internacionais. A maioria deles é de refugiados do Kosovo.

Outro que não parece estar satisfeito com a presença dos ciganos é o Reino Unido. O tema é recorrente na política britânica. Nas últimas eleições para primeiro-ministro, uma das promessas de campanha do candidato conservador, David Cameron ¿ vencedor do pleito ¿ foi a de reforçar a legislação contra a ocupação ilegal de terrenos vazios, visando, nas entrelinhas, à comunidade cigana. O projeto prevê a criação de um novo delito através do qual os policiais serão autorizados a prender pessoas que se recusam a deixar um terreno ocupado ilegalmente.

Na República Checa, as violências com ciganos fazem parte do cotidiano, inclusive por parte do governo. O problema chegou extremo quando a Côrte Europeia dos Direitos Humanos condenou o Estado checo por ter obrigado crianças ciganas a frequentar centros para doentes mentais.

Já a Espanha, depois de ter colaborado com o regime nazista e desejado a eliminação dos ciganos, hoje age na mão oposta. Abrigo da maior comunidade cigana da Europa ocidental, o país acaba de adotar um plano de ação para promover a integração da população de cerca de 800 mil ciganos. O orçamento do projeto é de 107 milhões de euros e visa a aprimorar a educação, o alojamento e a saúde dos estrangeiros.

Fonte: Especial para Terra

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