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País Basco: violência coloca independência em segundo plano

Partidos de esquerda mudam discurso e pregam a conquista da paz antes da independência da Comunidade Autônoma da Espanha

30 jun 2013
15h16
atualizado às 15h16
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Se num passado não tão distante os ataques com bombas eram a principal forma da esquerda independentista da região Euskal Herria (que compreende o País Basco, na Espanha, e parte do território francês) de mostrar que quer ser livre, hoje as coisas mudaram. Acabar com a recente onda de violência que a polícia atribui a grupos da esquerda radical passou a ser a prioridade dos movimentos políticos e sociais antes de lutar pela independência do território. A estratégia fica clara nas palavras da jovem deputada feminista Diana Urrea, que esteve em Porto Alegre recentemente para participar do Fórum Pela Paz na Colômbia e conversou com o Terra sobre a situação de seu país. “Devemos seguir buscando a paz que a população basca tanto deseja pela via do diálogo democrático como única saída”, diz.

Diana Urrea nasceu na Colômbia, mas começou a fazer política no País Basco
Diana Urrea nasceu na Colômbia, mas começou a fazer política no País Basco
Foto: Divulgação

Urrea é do partido Alternatiba, que faz parte da coalização de esquerda Euskal Herria Bildu, atualmente a segunda força no Parlamento local, atrás do tradicional Partido Nacionalista, que defende a permanência do País Basco e de Navarra como territórios espanhóis. Nascida na Colômbia, Diana vê semelhanças entre as situações dos dois lados do Atlântico, mas critica a postura dos governos espanhol e francês, que se negam a negociar com os independentistas. Apesar disso, em conversa com o Terra, a parlamentar reafirma seu otimismo. “Sinceramente, acredito que chegaremos a essa independência que desejamos”, afirma.

Em uma mudança de estratégia similar à que as guerrilhas Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e ELN (Exército de Libertação Nacional) tentam atualmente sentando para conversar com o governo de Juan Manuel Santos antes de brigar pelo almejado socialismo, os partidos de esquerda das comunidades autônomas do norte da Espanha querem um ambiente pacífico que possibilidade um debate rumo à independência do território. Nesse sentido, a organização ETA encerrou suas atividades armadas recentemente e a esquerda se uniu em uma coalização que se tornou a segunda força do Parlamento Basco. Buscam convencer seus companheiros mais radicais que a via pacífica é a melhor solução.

Por outro lado, críticos nacionalistas dizem que a mudança de estratégia se dá pela falta de apoio popular, principalmente depois que uma pesquisa revelou, em outubro de 2012, um empate técnico sobre a questão: 42,6% dos bascos se disseram contra a independência e 41,5%, a favor.

Diana Urrea foi eleita para o Parlamento em 2012. Sua vitória foi facilitada depois que uma lei local estabeleceu que metade das candidaturas fosse formadas por mulheres. A legislação também implantou mecanismos para que os candidatos tivessem as mesmas oportunidades para serem eleitos, no entanto, o resultado é que dos 75 membros do Parlamento Basco, 37 são mulheres e 38, homens. O Partido Nacionalista tem a maior bancada, com 27 deputados, seguido pela coalização a qual Diana pertence. Ainda assim, a esquerda independentista é maioria, com 38 nomes, um a mais que os nacionalistas.

Confira os principais trechos da entrevista exclusiva com Diana Urrea:

<p>Urrea é do partido Alternatiba, que faz parte da coalização de esquerda Euskal Herria Bildu, atualmente a segunda força no Parlamento local</p>
Urrea é do partido Alternatiba, que faz parte da coalização de esquerda Euskal Herria Bildu, atualmente a segunda força no Parlamento local
Foto: Divulgação
Terra - Por que você decidiu vir participar do Fórum pela Paz na Colômbia?
Diana Urrea – Vim em nome da organização política na qual milito no País Basco – a Alternatiba – e vim, principalmente, porque é fundamental que a comunidade internacional esteja presente e saiba a realidade da Colômbia. Saiba que há um conflito político de 50 anos, no qual os cidadãos perderam tudo. E é fundamental que essa realidade esteja visível, o que até agora não aconteceu, para que se note a pressão internacional, para que desde a comunidade internacional mostremos nossos laços de solidariedade com a população colombiana e lutemos por aquilo que queremos: que é uma paz justa e verdadeira para o povo do meu país.

Terra - Você vê semelhança entre o que acontece na Colômbia com as Farc e o ENP e o que ocorreu no passado no País Basco com a ETA?
Diana Urrea – É fundamental ressaltar que assim como em Colômbia estão em uma mesa de diálogo em Havana, em nosso caso, tanto o governo francês quanto o governo espanhol não estão dispostos a conversar. A ETA, há um ano, anunciou o fim de duas ações armadas. Como todos e todas sabemos, é fundamental sentar em uma mesa de conversações para fechar, como deve ser, esse conflito para que não haja vencedores nem vencidos. Para que seja justo com todos. Em nosso caso, os governos francês e espanhol se negam a isso. E continuamos assistindo a vulnerações dos direitos humanos dos presos e presas políticos bascos e queremos que o povo basto tenha a paz que tanto quer, essa paz justa e verdadeira. E nesse sentido nos solidarizamos com todos os povos que buscam e que usam o diálogo como única via pacífica e democrática.

Terra - Qual a situação atual no País Basco?
Diana Urrea – Neste momento temos uma crise civilizatória com maior virulência. Estamos vendo um corte brutal de direitos trabalhistas, sociais, políticos. Brutais que na história da democracia aconteceram na história do País Basco. Temos muito trabalho pela frente porque vemos, diariamente, como estão privatizando os serviços públicos, a saúde, a educação, assim como estão desalojando as pessoas de suas casas somente por não ter dinheiro para enfrentar essa situação. Estão reduzindo o orçamento de cooperação dessa solidariedade internacionalista que caracteriza o País Basco desde sempre... Estamos assistindo um grave processo de retrocessos dentro do atual contexto político basco.

Terra - E para o futuro, a esquerda tem boas expectativas?
Diana Urrea – Temos expectativas, em primeiro lugar, de conquistar a paz como premissa, via diálogo. Além disso, porque partimos de um confronto de modelos. Nesse caso eu, no País Basco, faço parte de uma coalização soberanista, independentista e de esquerda, na qual está Alternatiba e temos um modelo próprio que se baseia na cidadania e na justiça social. E estamos dando passos nessa direção, não somente como palavras, mas que os fatos aconteçam e a população veja.

Terra - Por que o País Basco quer ser independente?
Diana Urrea – Porque por direito próprio temos esse direito. Historicamente, o País Basco tem identidade e tem uma cultura própria, tem um idioma próprio, que é tão maravilhoso que nem sabemos suas origens. Assim, temos razões mais que de sobra para dizer que temos direito de decidir o que queremos ser e não estarmos submetidos ás ordens nem do Estado espanhol, nem da União Europeia.

Terra - Atualmente, com o governo conservador de Mariana Rajoy na Espanha, você acredita que a situação está mais desfavorável?
Diana Urrea – Muito piores. E, de fato, há pouco falávamos dos exilados, dos refugiados. De fato, com o governo de Rajoy, com o governo do Estado espanhol, que é o que nos afeta no País Basco, estamos vendo não só como os direitos trabalhistas estão sofrendo uma agressão absoluta, mas como os direitos sexuais das pessoas, os direitos a decidir sobre seu próprio corpo, os direitos ao asilo, ao refúgio, estão sendo vulnerados. Por isso, inclusive, tentamos mudar a lei de estrangeiros para que os refugiados e asilados que têm permissão de residência por ela possam voltar ao seu país. E estamos falando de muitas pessoas que sofrem com vulnerações dos direitos humanos e essa é a causa pela qual estão em nosso país. Com isso, essas políticas neoliberais não nos beneficiam em nada, políticas essas que, ao fim e ao cabo, são dirigidas por (Angela) Merkel (chanceler alemã).

Terra - Quem são os principais inimigos da independência do País Basco hoje?
Diana Urrea – Bom, falamos de um modelo de Estado absolutamente diferente, de pessoas que falam que querem a paz, mas não querem a paz. É apenas um argumento obsoleto para manter o poder do Estado e para mudar a perspectiva do povo basco que está reclamando o que por direito próprio lhe corresponde. Desviam a atenção, falando de um conflito. No Parlamento basco foi aprovada uma moção que nos proíbe falar de presos políticos, quando as pessoas sabem que há gente na cadeia que não tem nem um processo contra si e que possivelmente, se for julgada, saia livre. Estão lá somente por atuar por vias única e exclusivamente pacíficas, mas há muitos interesses envolvidos.

Terra - Como você acredita que estará a luta pela independência do País Basco em 10 anos?
Diana Urrea – Sempre temos que ver com otimismo e seguir lutando por aquilo que acreditamos. Em primeiro lugar, devemos seguir buscando a paz que a população basca tanto deseja pela via do diálogo democrático como única saída. Espero que as vulnerações de direitos humanos que os presos e as presas políticas estão sofrendo acabe. A partir daí, partindo dessa base – de um processo de pacificação e normalização – temos que colocar em cima da mesa que, como povo basco, necessitamos e queremos a garantia do nosso futuro como povo próprio, como entidade diferenciada. Nesse sentido, grande parte da população nos apoia e temos grandes esperanças.

Terra - Isso é o que você acredita que ocorrerá. Mas, como cidadã, qual é o seu sonho?
Diana Urrea - Sinceramente, acredito que chegaremos a essa independência que desejamos.

Terra - Falamos sobre o futuro. Agora gostaria de avaliar o passado: você acredita que a ETA cometeu erros ao tentar buscar a independência com processos violentos?
Diana Urrea – Claro. Antes de entrar na coalização (Euskal Herria Bildu, que reúne 4 partidos e é a segunda força do Parlamento Basco), como Alternatiba, sempre apostamos unicamente pelas vias pacíficas e democráticas. Somos contra qualquer tipo de violência, seja a violência da ETA, seja a violência machista ou qualquer outro tipo. Violência sempre gera mais violência e, por isso, sempre apostamos pela paz. Mas também exigimos o reconhecimento dos direitos humanos que estão sendo desrespeitados no caso das presas e presos políticos bascos. Queremos que haja justiça para todos e que possamos viver em paz. Nesse sentido, não concordamos com todas as tentativas de luta com uso da violência.

Terra - Qual é o foco do seu trabalho como deputada?
Diana Urrea – Tenho a responsabilidade de gênero, de igualdade e de cooperação para o desenvolvimento, além de atuar em outras áreas, como nas questões que envolvem a juventude, migração, relações exteriores.

Terra - No tema das questões de gêneros, por exemplo, qual é o tamanho da competência que o Parlamento Basco tem para legislar?
Diana Urrea – Temos competências para melhorar em muitos âmbitos. O problema da violência machista, por exemplo, que é o nosso maior mal social há muito tempo e que vivemos com maior intensidade agora. Temos competência para criar leis para proteger as mulheres e perseguir os agressores. Claro que não temos ferramentas para legislar sobre nosso direito de decidir sobre nosso próprio corpo, isso compete ao Estado espanhol, que quer, por exemplo, reformar a lei do aborto, o que significaria uma perda muito grande de anos de luta feminista. Há vários fatores que nos limitam, mas, ainda assim, conseguimos fazer muitas coisas por essa igualdade.

Terra - Como uma jovem estrangeira como você conseguiu chegar ao Parlamento?
Diana Urrea – Eu militava em Alternatiba, mais precisamente na nossa mesa de elaboração coletiva de feminismo e internacionalismo, quando senti que era o momento de mostras às pessoas que há outras formas de fazer polícia, sempre baixo nossa convicção esquerdista, e que se tem convicção e se acredita no que faz é possível mudar muito as coisas.

Fonte: Terra

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