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Jovens superam divisões e sequelas da Guerra da Bósnia

6 abr 2012
07h30

Três estudantes encontram-se em um café no centro de Sarajevo: Enida, Natalija e Igor. À primeira vista, não são muito diferentes. Vestem-se de forma parecida, escutam a mesma música, têm os mesmos medos do futuro e falam língua parentes. Os três nasceram em 1992, ano que eclodiu a guerra em seu país, a Bósnia e Herzegovina.

Vinte anos depois da guerra, jovens encontram maneira de superar as divisões do passado e buscar um futuro de paz
Vinte anos depois da guerra, jovens encontram maneira de superar as divisões do passado e buscar um futuro de paz
Foto: Deutsche Welle

No entanto, os três cresceram em mundos distintos. Foram a escolas onde aprenderam diferentes versões sobre a guerra. Bosníacos (bósnios muçulmanos), sérvios e croatas têm, cada um, uma visão diferente do passado. Nem mesmo concordam sobre como e quando o conflito começou. Três povos, três versões do passado.

Natalija é uma croata da Bósnia. Na escola, ensinaram-lhe que tudo começou em outubro de 1991 "com o ataque dos sérvios ao povo de Ravno, a oeste de Herzegovina". Ravno é um pequeno povoado croata na zona bósnia, não longe de Dubrovnik. O exército iugoslavo, dominado pelos sérvios, arrasou o povoado após atacar cidades croatas na costa.

Já segundo o sérvio-bósnio Igor, a guerra teve início meio ano depois, em 1º de março de 1992, na cidade de Sarajevo. "De acordo com o modo como me ensinaram na aula de História, a guerra começou com o assassinato de um convidado a um casamento sérvio". E Enida, bosníaca, é mais diplomática: "Só sei que tudo se deveu a desacordos entre os três povos".

De acordo com a versão oficial, a Guerra na Bósnia-Herzegovina começou em 6 de abril de 1992, o dia em que a Comunidade Europeia reconheceu sua independência como país e em que os francoatiradores sérvio-bósnios dispararam em Sarajevo contra manifestantes que militavam pela paz. Ali teve início o ataque à cidade que duraria quase quatro anos.

Naqueles dias, os pais de Igor abandonaram a cidade. Ele era apenas um bebê com menos de um mês de vida. Sua família não teve outra opção, pois "todos os amigos sérvios já haviam partido, a guerra já havia começado", diz. "Que outra alternativa havia? Esperar que viessem matar seu bebê?" O pai de Igor se alistou pouco tempo depois no exército sérvio-bósnio.

Quase ao mesmo tempo, outro jovem pai - este pertencente ao grupo dos bosníacos - se mudou para Zenica, uma pequena cidade a cerca de 50 km ao noroeste de Sarajevo. Enida tinha apenas um ano de idade quando ficou órfã. "Meu pai morreu em 1993 nas proximidades de Busovaca, lutando contra as tropas bósnio-croatas", conta.

A poucos quilômetros dali, lutava no lado dos bósnio-croatas o pai de Natalija, cujo exército tinha por objetivo a anexação das zonas da Croácia com maior número de assentamentos croatas. "Meu pai defendeu estas zonas dos muçulmanos", diz Natalija.

Até aquele momento, os pais destes três jovens haviam convivido pacificamente uns com os outros. A Bósnia, inclusive, havia sido exemplo, durante muito tempo, de convivência entre diferentes povos e religiões. Mas, durante a guerra, homens que até então haviam jogados futebol juntos passaram a lutar uns contra os outros.

Agora, vinte anos depois, ainda paira certa tensão no dia a dia de Igor. "Quando venho aqui, sinto um mal-estar por meu sobrenome sérvio. Se alguém me chama por ele, estremeço", diz o jovem. "Tenho medo". Mas hoje sentam-se os jovens de vinte anos juntos no centro de Sarajevo, bebem café bósnio e conversam. E se entendem bem: as diferenças étnicas não são obstáculo. Enida explica por quê. "Eu não tenho preconceito nem ódio contra ninguém", diz a jovem. "Não adianta voltar ao passado".

Enida, Natalija e Igor tratam de encontrar seu caminho na atual Bósnia-e-Herzegovina e ir além das limitações nacionalistas de seu entorno. Não querem rastros do passado no seu futuro.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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