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Inspirados em espanhóis, ativistas acampam em praça de Lisboa

31 mai 2011
09h50
Marcelo Valadares
Direto de Lisboa

Ao nascer do Sol, a portuguesa Marta Luís, 23 anos, sai de sua barraca instalada na praça do Rossio, no centro de Lisboa, para começar mais um dia de ativismo. Há 11 dias, ela e um grupo de pessoas se reúnem no local para discutir sobre os atuais sistemas políticos a exemplo do que vêm fazendo os espanhóis. O lema é o mesmo: a busca por uma democracia que seja mais participativa, colocando os cidadãos no centro das decisões.

Jovem discursa durante assembleia dos manifestantes acampados na praça do Rossio
Jovem discursa durante assembleia dos manifestantes acampados na praça do Rossio
Foto: Marcelo Valadares / Especial para Terra

Desde meados de maio, diversos acampamentos estão aparecendo pela Europa para reivindicações. O primeiro deles, chamado "Democracia Real Já", surgiu na praça do Sol, no centro de Madri. Na capital espanhola, e em outras cidades do país, são milhares de pessoas acampadas.

Marta justifica o ato pela necessidade de fazer com que as pessoas reflitam sobre o tema. "Sinto que é preciso mudar o mundo, a maneira de pensar politicamente das pessoas, não só dos políticos, mas de todas os indivíduos. Acho que quem não participa contribui para a atual situação política e social que enfrentamos", afirma.

Em Portugal, as manifestações começaram da mesma forma que nos outros países: a partir de uma convocação pelo Facebook. Da capital, espalhou-se para as outras cidades, como Coimbra e Porto, que também estão com as suas praças centrais ocupadas por manifestantes. Em Lisboa, onde a manifestação é mais expressiva, a mobilização reúne diariamente cerca de 600 pessoas. Elas participam diariamente da assembleia realizada sempre às 19h (horário local).

Na praça, ocorrem diversos eventos como grupos de discussão, exposições de arte, exibição de filmes e assembleias, todos com objetivo principal de debater a democracia e os problemas sociais contemporâneos. Há ainda os debates específicos da realidade política portuguesa, como a entrada do Fundo Monetário Internacional (FMI), além das eleições legislativas que acontecem no próximo domingo, 5 de Junho.

Para atender à demanda e às futuras adesões, e criar um espaço onde as pessoas podem manter a sua rotina de trabalho, foi montado uma estrutura com logística que mantenha a praça em ordem. "Temos uma cozinha, espaço para crianças, sala de estudos e a zona onde as pesssoas dormem" explica Zahra Horna, 20 anos. A estudante juntou-se ao grupo por estar insatisfeita com o plano de austeridade aplicado há pouco tempo em Portugal e que, em breve, será ampliado pelo FMI.

Zahra acha que a manifestação tem sido extremamente útil para o debate de ideias e para trazer reivindicações de pessoas que já estão descrentes do sistema político atual. "O governo não está a favor do povo e podemos identificar isto em diferentes setores da sociedade. Aqui, todos podem falar e apresentar proposta para efetivar uma mudança", declarou.

A aposentada Maria do Carmo Pereira dos Santos, 84 anos, está acampada desde o primeiro dia da mobilização, apesar da idade ser diferente da maioria dos manifestantes, ela assume uma função relevante para a manutenção do acampamento, presta apoio na logística da cozinha e na fiscalização do estoque de comida que chega, principalmente, através de doações.

Com uma pensão mensal de pouco mais de 300 euros (cerca de RS$ 700), a aposentada diz que o principal motivo para estar com o grupo é a necessidade de mudança. "Acredito na força dos jovens que aqui estão. Minha aposentadoria é pequena e tudo que recebo vai para pagar o aluguel, conta de luz e água", conta.

No meio da diversidade que há no acampamento, na última sexta feira, 27 de maio, o sociólogo Boaventura de Sousa Santos esteve presente em uma das assembleias e destacou que o movimento representa um importante exercício democrático. "Isto é a democracia ao vivo", afirmou. Durante o debate, o sociólogo ressaltou a importância de haver uma mobilização internacional em defesa de outros tipos de democracia e que este movimento tem que vir acompanhado de uma mudança constitucional em nível internacional. "É necessário permitir que os cidadãos possam interferir na vida política. Se os tratados europeus tivessem ido a referendo, provavelmente, não seriam aprovados", destacou Boaventura.

Para os acampados da praça do Rossio esta manifestação não tem data para terminar. António Gomes, afirma que só vai sair do Rossio quando houver uma mudança efetiva na política do país. Zahra Horna pensa que os encontros proporcionados pela manifestação ainda vão render frutos. "Só a união que temos aqui, e a conexão com as outras cidades, é sinal de que isso vai continuar, pode até ser que não seja nas praças, mas já há uma rede que vai continuar a debater e a pensar formas de mudanças na sociedade", declarou a estudante.

Fonte: Especial para Terra

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