1 evento ao vivo

Grécia é acusada de abandonar refugiados em alto-mar

2 mai 2013
10h13
atualizado às 10h27
  • separator
  • comentários

A Grécia está desviando ilegalmente barcos para fora de suas águas territoriais, uma prática contrária ao direito internacional e que coloca em risco a vida de refugiados e imigrantes, de acordo com denúncias de refugiados sírios, ONGs e ativistas de direitos humanos recebidas pela agência EFE.

Ahmet é um sobrevivente do massacre de Houla, ocorrido em maio de 2012 e no qual, segundo a ONU, forças leais ao presidente Bashar al Assad mataram 165 pessoas. Este refugiado sírio fugiu para Damasco, onde um bombardeio destruiu a casa na qual se escondia. Ele passou vários dias sob os escombros até que foi resgatado.

Após a tragédia, decidiu fugir para a Europa através da Turquia. Depois de pagar uma grande quantia a um traficante, na noite do dia 17 de março embarcou no litoral turco com destino à ilha grega de Lesbos. Eram 80 refugiados no total, principalmente da Síria e do Afeganistão, divididos em duas lanchas a motor.

Por volta das 5 horas da manhã, quando as barcas estavam a cerca de 150 metros do litoral de Lesbos, uma embarcação da Guarda Litorânea os abordou. "Acenderam as luzes, de seguida o barco investiu contra nós três vezes. Pedimos ajuda, por que não nos ajudaram?", questionou Mohammed em entrevista à Efe.

"Nossa lancha começou encher de água. Gritamos para que nos ajudassem porque havia cinco crianças de 1 a 5 anos em nossa lancha, mas não nos ajudaram. Os homens tiveram que se jogar na água e empurrar a barca até a margem", explicou Massoud.

Este incidente não é um fato isolado, segundo ativistas locais que coletaram testemunhos de outros refugiados que disseram ter sido forçados pela Guarda Litorânea grega a ir para a Turquia, apesar de terem sido encontrados em águas territoriais gregas.

Um grupo inclusive denunciou que a guarda-costeira estragou o motor de sua embarcação, deixando os imigrantes em alto-mar, e que ele e outras pessoas a bordo tiveram de remar com as mãos para chegar à costa turca.

Desde que no ano passado a Grécia reforçou sua segurança na fronteira terrestre com a Turquia, com cerca de 2 mil policiais e a construção de uma cerca de 10 quilômetros de comprimento, a principal rota migratória de entrada na União Europeia mudou, e agora a maioria dos emigrantes entra em território europeu através das ilhas gregas, uma viagem muito mais perigosa.

Os números oficiais mostram que durante o primeiro trimestre deste ano, 1.623 pessoas foram detidas quando tentavam chegar às ilhas de Lesbos, Samos, Quíos e ao arquipélago do Dodecaneso, frente às 118 pessoas do mesmo período em 2012.

Com o aumento do fluxo de refugiados - especialmente devido à situação na Síria - também aumentaram as denúncias do que popularmente se conhece como "push-back" ou "empurrão", um tipo de deportação forçada que não é registrada.

Yorgos Kosmopulos, da Anistia Internacional, explicou à Efe que sua organização coletou testemunhos para um relatório e disse que "na Turquia há imigrantes que afirmam ter sido deslocados pela Guarda Litorânea grega em até cinco ou seis ocasiões".

"É uma prática muito perigosa, e fazê-lo num barco onde há famílias inteiras com crianças é ainda pior", acrescentou.

No ano passado, o Tribunal de Estrasburgo sentenciou que a Itália tinha violado a legislação internacional sobre direitos humanos por ter devolvido um barco de imigrantes à Líbia.

Em relação à Grécia, o chefe local do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) explica que sua agência também recebeu denúncias de "push-back" que estão sendo investigadas, já que o considera "uma questão muito séria".

Mesmo assim, ele reconhece que, nos lugares onde entram em jogo as fronteiras marítimas, é "muito difícil" delimitar se o que a guarda-costeira está fazendo é evitar que as embarcações entrem em águas gregas ou realmente as estão expulsando.

"Não acho que a guarda-costeira esteja empurrando os refugiados. Nos últimos anos salvaram muitas vidas", diz o general-de-divisão grego Emmanuel Katriadakis, representante de assuntos migratórios do Ministério de Ordem Pública.

"O que se faz é que, quando ainda estão em águas turcas, é avisado às autoridades turcas para que os detenham".

Segundo a ONG Human Rights Watch, em 2011 morreram 1.500 pessoas no Mar Mediterrâneo tentando chegar ao litoral europeu, e em 2012 o número passou de 300. Nos últimos meses, pelo menos 37 morreram tentando chegar à ilha de Lesbos.

Ayad, um sírio que vive em Atenas há muitos anos, perdeu cinco parentes no início do mês de março: sua irmã, seu cunhado e três sobrinhos de 3, 6 e 7 anos. "Falamos com eles por telefone quando sairam da Turquia. Por volta da meia-noite voltamos a ligar e nos disseram que já viam a costa de Lesbos e que chegariam em 30 ou 45 minutos", contou.

Depois de meia hora, Ayad ligou de novo, mas o telefone de seus familiares estava desligado. Dez dias depois, começaram a surgir os os corpos dos refugiados sírios no mar. Ninguém sabe o que aconteceu com a balsa, porque, naquela noite, o mar estava calmo e não havia vento.

EFE   
  • separator
  • comentários
publicidade