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Europa debate, mas não vê alternativas à energia nuclear

21 mar 2011
11h49
Lúcia Müzell
Direto de Paris

Embora o acidente nas centrais nucleares de Fukushima, no Japão, tenha relançado o debate sobre a segurança das instalações nucleares civis na Europa, os países que dependem desta forma de energia não parecem dispostos a questionar o futuro do setor. Entre as principais potências nucleares, o debate só ganhou mais profundidade na Alemanha, onde a pressão antinuclear vem aumentando e levou a chanceler Angela Merkel a congelar os projetos de prolongação de sete de seus 17 reatores nucleares, por pelo menos três meses.

A chanceler alemã, Angela Merkel, fechou usinas e defendeu a redução do uso de energia nuclear
A chanceler alemã, Angela Merkel, fechou usinas e defendeu a redução do uso de energia nuclear
Foto: AFP

Mas gigantes como França - segunda maior exploradora mundial do setor, atrás dos Estados Unidos, e onde pelo menos 75% do consumo energético repousa no nuclear -, rejeitou qualquer comparação entre a situação japonesa e a europeia. O principal argumento, afirmam as autoridades francesas, diz respeito à situação geográfica instável do Japão, que não encontraria paralelo em solo francês. O país possui 19 centrais nucleares e 58 reatores.

Hoje, a dependência desta energia é tanta que a possibilidade de os países europeus voltarem atrás na escolha pela energia nuclear é nula, afirmam especialistas: por mais que os riscos existam e a opinião pública seja desfavorável a este tipo de instalações, nenhuma outra energia seria capaz de suprir a demanda do continente. "Estamos face a uma equação delicada, da qual ainda não há uma solução: entre uma forma eficaz e viável economicamente de produção de energia, riscos mínimos e poluição reduzida do meio ambiente reduzida, a energia nuclear, hoje, ainda é a melhor", afirma Maïté Jaureguy-Naudin, coordenadora do programa de Energia do Instituto Francês de Relações Internacionais, de Paris.

Para ela, seria hipocrisia se os líderes europeus afirmassem que estão repensando a opção pela exploração nuclear. "É claro que o que aconteceu no Japão aumentou o medo das consequências da energia nuclear, e vai demorar até que se reconquiste a confiança da população, não apenas lá no Japão, como no mundo inteiro", diz. "Mas a Merkel anunciar que vai bloquear os projetos de prolongamento da vida das centrais alemãs foi uma decisão puramente eleitoreira. A prova é que, por consequência desta medida, ela vai ser obrigada a importar energia nuclear da França." Cerca de 30% da energia consumida na Alemanha é nuclear.

Na Europa ocidental, apenas a Itália e a Finlândia trabalham na construção de centrais nucleares neste momento. Os demais vêm modernizando suas instalações, trocando os reatores por modelos de terceira geração ou até já prevendo a quarta geração, como a França, que corre para apresentar um protótipo até 2020. A pressa faz todo o sentido em um setor onde a vida de uma central nuclear é estimada em no máximo 60 anos - ou seja, mais cedo ou mais tarde, o futuro das atuais instalações vai ser posto em questão.

Por enquanto, na última terça-feira, a Comissão Europeia determinou que, em vista da tragédia no Japão, os países que adotam energia nuclear deverão revisar as condições de segurança de suas instalações e realizar modernizações, se necessário. Existem 143 reatores no continente.

Com a repercussão negativa do acidente na Ásia, o Reino Unido, que planejava renovar suas 10 centrais (18 reatores) até 2018, decidiu paralisar temporariamente as operações. Decisão semelhante tomou a Suíça, dona de 10 reatores.

"Um acidente nuclear é extremamente raro, e mesmo assim, pouco se sabe, de concreto, sobre as consequências da radiação no corpo humano. Seria prematuro decretar que a energia nuclear precisa acabar, até porque não existe alternativa para ela", disse Christian de Vaissière diretor de pesquisas do Centro Nacional de Pesquisas Científicas (CNRS) e membro do Instituto de Física Nuclear de Orsay, na França. Ele lembra que as políticas de segurança nas centrais são "extremamente controladas" e cercadas por infinitas regras, seguidas, segundo ele, à risca. "Você pode ter certeza de que o tsunami vai ser a causa da morte de 99% das vítimas da tragédia no Japão, e não o acidente nas centrais nucleares."

Alguns países europeus, no entanto, tentam andar na contramão dos dependentes do nuclear. A Alemanha vem se esforçando, desde 2002, para reduzir a exploração nuclear, porém ainda não conseguiu encontrar uma energia capaz de alimentar o consumo necessário em usinas ou trens, obrigando o governo do país recuar na decisão de abandonar definitivamente as centrais nucleares até 2020. O problema é que as energias renováveis, como a eólica ou a solar, não seriam poderosas o suficiente para alimentar grandes estruturas, embora consigam suprir a demanda residências ou até de pequenas cidades, por exemplo.

Caminho semelhante cursou a Espanha, que, sob o comando do socialista José Luiz Zapatero, havia um plano de abolir a exploração do urânio. Mas, como os alemães, os espanhois também se viram sem alternativas e voltaram a investir nos reatores nucleares. Zapatero prometeu promover um estudo sobre os riscos sísmicos e de inundações nas seis centrais do país.

Já a Áustria se destaca como o país que, por referendo popular, recusou esta opção energética. Os austríacos, aliás, são antigos defensores da abolição da exploração nuclear: desde 1979, o país não apenas renunciou abrigar centrais como trava uma briga eterna com seus vizinhos do leste europeu para que suas instalações não se aproximem do exíguo território austríaco. A última polêmica refere-se à expansão da central eslovena de Mochovce, a 160 km de Viena. Em 1999, uma lei proibindo a utilização de energia nuclear na Áustria foi adicionada à Constituição.

"Esta catástrofe deve despertar uma ampla discussão sobre a utilização da energia nuclear, não somente na Europa como no mundo inteiro", defendeu o chanceler austríaco, Werner Faymann.

Fonte: Especial para Terra

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