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Esquerda nunca esteve tão forte na França desde a Revolução

6 mai 2012
16h12
atualizado às 18h41
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Lúcia Müzell
Direto de Paris

A vitória do socialista François Hollande nas eleições presidenciais francesas marca um momento histórico: desde a Revolução Francesa, a esquerda nunca esteve tão forte no país. O Partido Socialista já liderava as presidências de regiões equivalentes aos governos dos Estados brasileiros e caminha para recuperar a maioria parlamentar na Assembleia Nacional, nas eleições legislativas de junho.

Com sinalizadores, franceses comemoram a eleição do socialista François Hollande em uma praça de Lille
Com sinalizadores, franceses comemoram a eleição do socialista François Hollande em uma praça de Lille
Foto: AFP

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O resultado de hoje, entretanto, será apenas a primeira etapa de um governo difícil, iniciado em plena crise econômica e com as urnas tendo exprimido um desejo de mais rigor em áreas como a segurança e a imigração. Desafio nada fácil, portanto, para a esquerda, que volta à presidência depois de 17 anos ausente do Palácio do Eliseu.

O cientista político Eddy Fougier, especialista na esquerda e em política europeia, considera que para encarar o novo posto, Hollande será obrigado a adotar uma política de "sarkozysmo humano" - terá ter pulso forte na economia e alguns temas importantes para a direita, ao mesmo tempo em que terá uma preocupação social superior a do atual presidente, Nicolas Sarkozy. Confira na entrevista abaixo quais devem ser os primeiros passos do governo socialista.

O que se pode esperar de um governo socialista neste momento de crise na França e na Europa?
Não há muita coisa de diferente a esperar. Houve muitas promessas, mas imediatamente após a eleição, Hollande terá uma série de problemas econômicos a serem resolvidos. A partir já da segunda-feira feira, haverá uma grande expectativa sobre a reação dos mercados a essa eleição. A política do governo nomeado por François Hollande terá uma margem de manobra muito mais reduzida do que os socialistas imaginam.

O senhor acha que não está claro para a equipe socialista que o momento econômico não vai permitir levar um governo tipicamente de esquerda, pelo menos neste primeiro momento?
Sim, eles sabem disso. Mas há sempre uma tentação pelo voluntarismo, uma ideia segundo a qual a vontade política consegue reverter a situação, convencer os mercados e incitar os outros países europeus a nos acompanhar no projeto de favorecer o crescimento. Eu acho que eles vão ter que considerar profundamente as demonstrações dos mercados, da Alemanha e dos outros países antes de começar a colocar em prática uma política verdadeiramente socialista. Isso não vai nada fácil.

Você acha que François Hollande prometeu demais durante a campanha?
Ele vai ter que considerar a realidade. É verdade que durante uma campanha eleitoral, os políticos têm tendência a se afastar da realidade e sonhar, mas a realidade vai aparecer imediatamente na segunda-feira, depois na cúpula europeia, nas reuniões do G8 e da Otan. Isso sem excluir a possibilidade de conflitos internacionais, como é o caso da ameaça no Irã. Ou seja, a situação internacional e econômica vão rapidamente trazer os socialistas à realidade. Não é por isso que ele não vai aplicar a sua política, mas sabemos que as barreiras de orçamento e pressão internacional serão muito fortes.

Promessas como o aumento da alíquota de imposto dos milionários para 75% e a contratação de 60 mil novos funcionários públicos lhe parecem demagógicas?
Não acho que ele tenha sido cínico. Acho que ele não anunciou nada que não pretende cumprir. Ele vai tentar fazê-lo, mas vai ser preciso um certo jogo de cintura caso não seja possível cumprir. Se sabe que uma parte dos milionários planeja deixar a França para não ter de pagar tanto imposto, o que pode levar o governo socialista a estabelecer regras bem específicas para que essa promessa seja aplicada. Ou seja, não vai significar que ele não fez, mas sim que não será exatamente o que os militantes imaginavam. Ele não pode não cumprir uma promessa tão simbólica quanto foi essa, mas vai ter de adaptá-la de forma a não prejudicar a economia. O mesmo vale para a contratação de mais funcionários públicos, afinal é só olhar ao redor e ver que os outros países da zona do euro não estão conseguindo fazer milagres.

O senhor acha que a Frente de Esquerda, do candidato da extrema esquerda Jean-Luc Mélenchon, terá algum peso em um governo Hollande?
O que me parece é que o governo que será nomeado por François Hollande terá de enfrentar uma quádrupla oposição potencial. Isso vai ser muito complicado. Haverá a oposição clássica da direita, a da extrema direita, mas também uma oposição de esquerda, de Jean-Luc Mélenchon, que anunciou que se Hollande não cumprir suas promessas, haverá um "terceiro turno" nas ruas. Eu acho que, neste caso, poderemos ter na França movimentos semelhantes aos que aconteceram na Espanha, de indignados. Também o centro vai estar desconfiado, porque apesar de o líder François Bayrou anunciar que escolheu Hollande, ele se manteve muito cauteloso, sobretudo sobre as questões de orçamento Ele foi bem claro: se Hollande for pouco rígido nas questões de orçamento, o centro vai se colocar como oposição. Não vai ser nada fácil convencer Jean-Luc Mélenchon e François Bayrou ao mesmo tempo.

Mas com que força a esquerda vai enfrentar essa pressão toda?
Depois da alegria da vitória, haverá uma pressão política nacional extremamente forte, mesmo se a esquerda passar a ser maioria no Parlamento nas eleições legislativas de junho e se a esquerda já ocupa a maioria das presidências de regiões semelhante ao posto de governador de Estado, no Brasil. Jamais na história francesa pós-Revolução a esquerda esteve com tanto poder no país. Mas ao mesmo tempo, jamais a oposição foi tão forte. Outro desafio importante é que se a esquerda decepcionar, poderá favorecer a candidatura de Marine Le Pen, da extrema direita, nas próximas eleições presidenciais, em 2017.

Faz 17 anos que a esquerda está de fora da presidência na França. Que evoluções o Partido Socialista apresenta desde que François Mitterrand deixou o poder, em 1995?
É paradoxal, mas eu diria que a esquerda francesa não evoluiu muito. É espantoso, porque a esquerda socialista francesa continua com uma relação dúbia com a economia de mercado. A esquerda da época de François Mitterrand queria romper com o capitalismo, quando ele foi eleito, mas depois ela se adaptou à economia de mercado e adotou uma linha bem mais social-democrata. Entretanto, ela não dizia isso de uma forma explícita, como fizeram o Partido Trabalhista, no Reino Unido, ou o Partido Social-Democrata alemão, por exemplo. Desde então, a esquerda francesa se manteve nessa ambiguidade, como mostra a promessa de Hollande de taxar em 75% da renda dos ricos. Na França, existe uma desconfiança sobre o capitalismo - Hollande disse com todas as letras que não gosta dos ricos. E isso não se deve unicamente ao fato de que esquerda francesa foi muito influenciada pelo marxismo, mas há também uma influência cristã segundo a qual não se deve gostar nem de dinheiro, nem dos ricos - como aconteceu no Brasil, aliás. Nesta questão, a esquerda não evoluiu muito.

Mas existe um forte polo ao centro no partido, que tinha na figura de Dominique Strauss-Kahn o seu nome mais forte - e era justamente ele quem deveria ter sido o candidato socialista nestas eleições.
Sim, certamente. Eles têm um polo mais liberal, pessoas que hoje têm um papel importante na campanha de Hollande, como Manuel Valls, que é o responsável pela comunicação do candidato, e também Pierre Moscovici, o coordenador da campanha. Mas o verdadeiro sinal que vai indicar que tipo de governo ele vai querer será a nomeação do governo e, principalmente, do primeiro-ministro. Se for Manuel Valls, ele terá optado pela esquerda que eu chamaria de "realista". Mas se for Martine Aubry secretária-geral do Partido Socialista, será um outro tipo de esquerda, mais tipicamente francesa. É preciso lembrar, contudo, que Manuel Valls não teve bons resultados nas prévias socialistas que definiram quem seria o candidato, no ano passado. Por outro lado, Arnaud Montebourg, um dos nomes mais à esquerda no PS, bastante crítico à globalização e ao capitalismo, alcançou uma boa votação. Na França, um candidato socialista sempre deve reafirmar os valores da esquerda clássica, de independência em relação aos mercados financeiros, para conseguir um resultado importante.

Não houve uma mobilização forte dos militantes em torno da candidatura de François Hollande ao longo de toda a campanha - muitos afirmam que o fator mais forte da sua vitória terá sido a grande rejeição a Sarkozy. Como essa pouca mobilização poderá influenciar um governo que retorna ao poder depois de tanto tempo?
A rejeição é muito forte, certamente. Mas diante de uma vitória confortável, temos que nos perguntar sobre se não há, de fato, uma vontade de rever a esquerda no poder. Terá sido mais uma vontade de mudança ou a vontade de votar neste candidato específico? A avaliar. E a resposta terá de ser considerada na hora da escolha do primeiro-ministro. As eleições legislativas de junho também serão determinantes para essa resposta. A possibilidade é alta de que, com a vitória de Hollande, o Partido Socialista consiga a maioria absoluta na Assembleia Nacional. A força , ou não, dessa segunda vitória vai acabar com as últimas dúvidas sobre o apoio, ou não, da população à esquerda neste momento. Ou seja, nas eleições legislativas, não haverá mais esta dúvida sobre se o eleitorado está votando contra Sarkozy - mas sim se quer, de fato, o Partido Socialista.

O senhor vê esta eleição presidencial como uma etapa de um governo que vai se desenhar ao longo de algumas semanas, então?
Sim, ele vai ser obrigado a orientar a política dele de acordo com estes próximos acontecimentos. François Hollande poderá - ou será obrigado, talvez - a fazer uma política de "sarkozismo humano", ou seja, ser obrigado a promover uma política rigorosa sob o ponto de vista econômico, firme nas questões de segurança, mas com mais justiça social e menos divisão da população. Ou seja, algo semelhante a Tony Blair, no Reino Unido, que teve de fazer um "tatcherismo humano". No entanto, repito, para François Hollande vai ser ainda mais difícil porque a sua margem de manobra é realmente muito fraca.

O senhor acha que o retorno da esquerda ao poder na França, a segunda maior economia da zona do euro, poderá desencadear uma onda de governos de esquerda nos próximos anos nos outros países europeus, em oposição à onda de direita que dominou o continente nos últimos anos?
A possibilidade de uma onda sempre precisa ser considerada com muita prudência. Na eleição francesa, constato que estamos na tendência europeia que é a de punir os governos que chegam ao fim de mandatos: eles estão todos perdendo. Foi o que aconteceu na Grã-Bretanha, com Gordon Brown, depois na Espanha, com José Luis Rodrigues Zapatero, com a Grécia, com Portugal, e tantos outros - seja lá qual for o partido. Na Espanha isso foi interessante, porque havia um sentimento de "qualquer um, menos Zapatero", e Mariano Rajoy conseguiu se eleger sem qualquer esforço ou promessa, mais ou menos como Hollande. Os atuais governantes são acusados de estarem na origem ou de terem agravado a crise. Outra tendência europeia neste momento é a subida do populismo, tanto de direita quanto de esquerda. Talvez a esquerda seja uma nova esperança neste momento, mas ainda não dá para dizer isso. A tendência maior ainda é por governos de direita, pelo menos por enquanto. Lembro que ainda não houve qualquer consequência política do movimento dos indignados, que foi, entretanto, muito forte em alguns países da Europa. É claro que as forças de esquerda europeias estarão acompanhando de perto o que acontece na França, mas para que uma onda vá adiante, vai ser necessário ver o que vai acontecer nas eleições alemãs. Se Angela Merkel perder o poder para o Partido Social Democrata, poderemos dizer que começa a acontecer uma onda.

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Fonte: Especial para Terra
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