Europa

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09 de novembro de 2009 • 14h33

Depois de 20 anos, legado de queda do muro segue em debate

Um grande dominó marca o aniversário de 20 anos da queda do Muro de Berlim
Foto: The New York Times
 
Steven Erlanger
Do New York Times

O legado histórico de 1989, quando caiu o Muro de Berlim e a guerra fria entrou em degelo, é tão político quanto os distúrbios acontecidos naquele ano decisivo.

Os eventos de 1989 deflagraram uma notável transformação na Europa, que agora está unida e livre, e reunificaram a Alemanha, marcos que estão sendo observados e celebrados em todo o continente, por exemplo em uma extravagante festa franco-alemã marcada para a noite de hoje na Place de la Concorde, em paris.

Mas 1989 também gerou novas divisões e um feroz nacionalismo que continuam a afetar a União Europeia ainda hoje, entre oeste e leste, França e Alemanha, Europa e Rússia.

Parte da intensidade dessas divisões fica evidente no cabo-de-guerra em curso, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, sobre as realizações de 1989, para determinar se elas devem mais ao resoluto anticomunismo do presidente Ronald Reagan ou à delicada diplomacia com que a Europa Ocidental acolheu o leste.

E embora muita gente no Ocidente considere que o desfecho era inevitável, causando a ascensão da democracia e banindo os sérios rivais ao poderio norte-americano, a China conseguiu impedir a revolução que parecia estar nascendo em 1989, e se arremessou a uma posição proeminente por meio de um capitalismo autoritário hoje em estudo pelos líderes da Rússia.

"Os chineses terminaram operando um capitalismo leninista, coisa que nenhum de nós imaginava em 1989, e agora são os maiores concorrentes da democracia liberal do Ocidente", disse Timothy Garton Ash, que relatou os acontecimentos de 1989 em seu livro The Magic Lantern.

O fato de que o seu significa continue a ser contestado, como o da Revolução Francesa 200 anos antes, é um sinal do poder dos acontecimentos de 1989. Grupos diferentes, em diferentes países, veem de maneira diferente o aniversário, em geral com base em seus pontos de vista ideológicos.

Em termos gerais, disse James Goldgeier, historiador da Universidade George Washington que estuda o período, "a maior questão dos últimos 20 anos vem sendo decidir quem leva o crédito".

Para muita gente nos Estados Unidos, ele afirma, a maior parte do crédito cabe a Reagan e aos seus gastos militares agressivos e antagonismo com relação aos comunistas. Essa posição em larga medida eclipsou outra perspectiva norte-americana, a de que a globalização e democratização eram forças tão poderosas que seria inevitável que surgisse um Mikhail Gorbachev e que a guerra fria fosse encerrada por meio do "poder suave" ¿propaganda, diplomacia e os acordos de Helsinki.

"À medida que a divisão entre os partidos sobre Reagan se dissipava, creio que com o tempo a maioria dos norte-americanos veio a pensar ¿se é que eles ainda refletem sobre essa questão- que o Muro caiu porque Reagan apelou por que fosse derrubado", disse Goldgeier.

Robert Kagan, historiador do Carnegie Endownment, em Washington, e editor da revista Weekly Standard, diz que os conservadores venceram o debate. "A narrativa padrão atribui a vitória a Reagan", afirma.

Não é esse o caso na Europa, ele acrescenta. "Se 90% dos norte-americanos acreditam que a vitória veio de sua firmeza, 99% dos europeus acreditam que a vitória veio da diplomacia praticada por eles - que o Muro caiu como fruto da Ostpolitik e da TV da Alemanha Ocidental".

Para muitos norte-americanos, de ambos os partidos, 1989 parece um exemplo maravilhoso da adoção de valores universais que, coincidentemente, eram os de seu país, e alguns acreditavam que fosse apenas questão de tempo para a queda de todas as ditaduras diante das mesmas forças de poderio militar, abertura, liberalismo econômico e poder popular.

Os democratas argumentam que o presidente George W. Bush aprendeu a lição errada em 1989, sobre a utilidade da força, e os republicanos argumentam que os presidentes Bill Clinton e Barack Obama aprenderam a lição errada - a de que o "envolvimento" diplomático com o poder totalitário, seja na China ou no Irã, servirá para enfraquecê-lo e derrubá-lo.

Apesar de todos os desacordos, no entanto, disse Ronald Asmus, secretário assistente de Estado para a Europa durante o governo Clinton diretor do German Marshall Fund em Bruxelas, o que aconteceu foi simplesmente maravilhoso.

"Se alguém tivesse me perguntado em 1989 se teríamos todos esses países na Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan) e na União Europeia, minha reação seria de incredulidade", afirmou. "Perdemos de vista uma notável realização histórica - o coração da Europa central e oriental está em paz. Nem todos os problemas foram resolvidos, mas foram atenuados, controlados e contidos, e temos uma melhor chance de resolvê-los".

Até mesmo a breve guerra acontecida no ano passado entre a Geórgia e a Rússia teria sido diferente sem a Otan. "Não se trata mais de questões existenciais", afirmou. "Não são mais problemas presidenciais, mas problemas que podem ser tratados por secretários de Estado assistentes".

A Rússia continua a ser um desafio tanto para os Estados Unidos quanto para a Europa, mas muito mais seguro, argumenta Sergei Karaganov, que comanda o Conselho de Política Externa e de Defesa, em Moscou, e foi assessor dos presidentes russos Bóris Iéltsin e Vladimir Putin.

Na Rússia, Gorbachev, o último presidente soviético, é altamente desprezado por sua indecisão e por permitir o colapso do império, evento que Putin define como a maior catástrofe geoestratégica do século passado.

Nem todos os russos concordam, mas muitos deles argumentam que o final do Pacto de Varsóvia deveria ter resultado no final da Otan, ou ao menos em uma decisão de não expandir a aliança para Estados que um dia integraram a União Soviética.

"Os Estados Unidos se consideram como vencedores da guerra fria, mas a Rússia não se considera derrotada", disse Karaganov. "No mínimo, esperávamos uma paz honrosa. Como o Reino Unido, jamais fomos derrotados, e continuamos prontos a combater".

"O retrospecto é uma posição sedutora, mas em 1989 havia diversas possibilidades em aberto quanto ao futuro", disse Mary Elise Sarotte, que publicou um livro sobre o tema. "O Ocidente optou por um futuro que perpetuou a divisão da Europa e deixou a Rússia na periferia".

Um dos resultados de 1989 foi o final do mundo bipolar, mas depois de um breve reino de apenas 20 anos, o período de domínio norte-americano único também está se esgotando, na opinião de muitos europeus.

Para Hubert Vedrine, ex-ministro do Exterior da França no governo do presidente François Mitterrand, 1989 gerou uma arrogância ocidental que está se atenuando apenas lentamente, com as guerras no Iraque e Afeganistão e no confronto com o radicalismo islâmico.

"As pessoas misturaram a queda do Muro com a queda das muralhas de Jericó, na Bíblia, e saíram declarando que nós vencemos, e a História acabou", ele afirma. "Mas para mim estávamos apenas no começo, no prólogo de uma ópera, e o címbalo acabava de soar como prólogo a 15 ou 20 anos de arrogância ocidental".

Uma corrida por poder e influência entre diversas nações e blocos de nações - Europa, China, Rússia, Índia, Brasil e os Estados Unidos - continua provável. Dominique Moiesi, do Instituto Francês de Relações Internacionais, declarou que "os Estados Unidos estão em relativo declínio, mas ainda não aceitaram as mudanças; falam em multilateralismo, mas não aceitam as consequências". Na fase mundial de transição, afirma, "nada pode ser feito sem os Estados Unidos, mas nada pode ser feito apenas pelos Estados Unidos".

Mas é improvável que os norte-americanos concordem com essa interpretação. Robert Blackwill, veterano diplomata que assessorou os presidentes George Bush pai e George Bush filho, argumenta em defesa da necessidade de liderança norte-americana. "Não vejo provas de que os Estados Unidos estejam em declínio", ele disse.

Na Europa Central mesma, existem sérias divisões com relação a 1989, simbolizadas pela longa e amarga rivalidade entre Vaclav Havel e Vaclav Klaus na República Checa, opondo uma política mais suave e coletiva, ancorada pela Europa, e um liberalismo individualista mais ferrenho, relutante em ceder à União Europeia a soberania tão recentemente reconquistada depois do colapso soviético.

Aos olhos de muitos observadores ocidentais, os acontecimentos de 1989 tanto ampliaram quanto diluíram a União Europeia. A união vem enfrentando problemas desde então para descobrir como aprofundar e solidificar a aliança. "Existe uma espécie de melancolia com relação à Europa, da parte dos franceses, porque, em nosso todo, tudo precisa ser negociado com todos", disse Vedrine.

Para Garton Ash, a divisão entre a Europa ocidental e oriental continua a existir. "Esperávamos, como europeus, que 1989 representasse um novo momento fundador para o projeto europeu, e que os acontecimentos daquele ano se tornassem uma lembrança pan-europeia e uma causa compartilhada de celebração", disse. "Mas isso não aconteceu. A Europa Oriental continua a existir na memória coletiva, e ainda não foi expurgada".

Muita gente no leste, é claro, sofreu com os acontecimentos de 1989 e a adoção súbita, e até mesmo brutal, do capitalismo. "Eles sentem que a transição foi difícil para eles, e se sentem enganados, até mesmo atraiçoados, e por isso aceitam teorias da conspiração sobre negociatas escusos entre os negociadores", disse Garton Ash.

"Não é a maneira pela qual relembramos, no Reino Unido, a rendição da Alemanha nazista", ele afirma. "Existem sérias divisões".

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times