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Crise na Espanha faz renascer clamor separatista na Catalunha

30 set 2012
09h46
atualizado às 09h48
Érica Chaves
Direto de Madri

"Antes se discutia se a Catalunha poderia ser independente e hoje falamos sobre como seria nossa separação". É com esta frase que Ignasi Termes, secretário nacional do movimento independentista Assemblea Nacional Catalana (ANC), define o momento atual que vive a região espanhola. E não é para menos. A euforia e o medo de uma possível divisão tomaram Espanha desde o dia 11 de setembro, quando uma manifestação levou milhares de pessoas às ruas de Barcelona para pedir a criação de um novo país. "Foi uma surpresa que tanta gente nos acompanhasse, mas nosso objetivo era que ele tivesse as consequências políticas que estamos vendo. Nossa função é fazer com que o governo escute o povo", completa Ignasi, um dos organizadores da grande passeata.

Clamor separatista: milhares foram às ruas de Barcelona no último dia 11 protestar contra o governo central
Clamor separatista: milhares foram às ruas de Barcelona no último dia 11 protestar contra o governo central
Foto: AFP

E, de fato, a ação dos que têm o poder veio em pouco tempo. Artur Mas, presidente da Catalunha, pediu ao presidente espanhol, Mariano Rajoy, uma nova política fiscal. Como representante da comunidade autônoma, Mas também fez diversos discursos nos últimos dias para anunciar mudanças. Suas últimas ações foram antecipar as eleições regionais para dia 25 de novembro e afirmar que fará um plebiscito para demonstrar a vontade independentista do povo catalão, mesmo sem um consentimento do governo nacional, provocando, assim, um maior furor entre a população.

Àngel Díez é um destes catalães empolgados com o rumo dos últimos acontecimentos e conta por que quer a independência. "Quero me sentir querido na minha terra, porque quero sentir que decido sobre os impostos que pago e poder sentir orgulho do meu país".

O sentimento independentista
Não é de hoje que os catalães querem a separação. Elisenda Paluzie Hernandez, pesquisadora do Centro de Análise Econômica e Políticas Sociais da Universidade de Barcelona, explica que o processo de independência é complexo e remonta à derrota da Catalunha na Guerra de Sucessão de 1714, quando foi anulada a Constituição da região autonôma e declarada a dissolução das cortes. "Movimentos sempre existiram, mas as organizações foram criadas há pouco mais de 20 anos e ganharam impulso nos últimos sete".

Os partidos, e principalmente as organizações, se multiplicaram e despertam paixões expressas em palavras como "a crise, as deslealdades grosseiras do governo espanhol foram só o estopim para o que está acontecendo hoje" de Elisenda Paluzie, "por que os espanhóis não se dão conta que a independência não é uma ameaça? Nós a queremos, somos maioria e vamos conseguir, eles gostem ou não", de Àngel Díez ou "sou catalão, nunca me senti espanhol e acredito nesta luta, que é pela dignidade de um povo", de Pere Icart.

Consequências de uma futura separação
Todo o discurso político e popular, no entanto, não será fácil de ser posto em prática. Para que a independência seja válida em um plebiscito, seria necessário que toda a Espanha votasse, e não somente a Catalunha. "Se participasse só um dos lados interessados, como propõe Artur Mas, seria muito fácil conseguir o que se quer, mas para uma divisão precisa um consenso, o que seria difícil de acontecer", explica Juan Manuel Bautista Jiménez, professor de direito internacional pública da Universidade de Salamanca.

Caso a região autonôma decidisse declarar independência unilateralmente, enfrentaria outros grandes problemas. "Eles já não fariam parte da União Europeia (UE) e, para sua entrada, teriam que conseguir o voto favorável de todos os países, incluindo a Espanha", completa Bautista Jimenez.

Do ponto de vista econômico tampouco seria fácil, já que seria necessário criar toda uma estrutura de Estado e, sem o apoio da UE, precisariam policiar as fronteiras e renegociar contratos de exportação. Segundo Mikel Buesa, professor de economia aplicada da Universidade Complutense de Madri, o impacto seria muito mais prejudicial para a Catalunha do que para a Espanha, já que dos 150 bilhões de euros exportados pela região, 120 se destinam à Espanha e UE. "Só por essas novas negociações o PIB catalão poderia cair até 25%, igualando aos dados de Grécia, Macedônia e Chipre", afirma o economista.

"Todos os países que se separaram desde os anos 1990, como Tchecoslováquia, Iugoslávia e aqueles que saíram da União Soviética demonstraram um empobrecimento da população", completa. Por outro lado, Elisenda Paluzie afirma que, com a separação, a autonomia catalã daria maior liberdade para crescer: "como um Estado do tamanho da Áustria e o PIB per capita da Dinamarca, seremos mais abertos".

Para a Espanha, a perda seria menos importante: "o Estado já não teria que arcar com a dívida da Catalunha e o comércio iria se deslocando naturalmente para outras regiões. A princípio poderia haver uma queda de 2% do PIB espanhol, o que se notaria muito em tempos de crise, mas a perda se dissolveria a médio prazo", comenta Buesa.

Diante das dificuldades e incertezas que preocupam os empresários, Elisenda aposta na estabilidade e amizade pós divisão entre as duas partes. "A tensão atual não favorece a Espanha e nem a Catalunha. Depois de superados os custos da transição, os dois lados estarão melhor como vizinhos, como aconteceu com a antiga Tchecoslováquia".

Fonte: Especial para Terra

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