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Confira o discurso de Barack Obama ao receber o Nobel da Paz

Suas majestades, suas altezas, distintos membros do comitê norueguês do Nobel, cidadãos dos Estados Unidos e cidadãos do mundo:

Novem de tags destaca as palavras mais usadas por Obama no discurso de entrega do Nobel da Paz, em 10 de dezembro
Novem de tags destaca as palavras mais usadas por Obama no discurso de entrega do Nobel da Paz, em 10 de dezembro
Foto: Wordle.net / Reprodução

Recebo esta honraria com profunda gratidão e grande humildade. Trata-se de um prêmio que fala às nossas mais elevadas aspirações e dispõe que, apesar de todas as crueldades e dificuldades de nosso mundo, não somos simples prisioneiros do destino. Nossas ações fazem diferença, e podem fazer com que a História se incline na direção da justiça.

E no entanto seria leviano de minha parte se eu não reconhecesse a considerável controvérsia gerada por sua generosa decisão. Em parte isso aconteceu porque estou no começo, e não no final, de meus esforços no cenário mundial. Comparadas às de alguns dos gigantes históricos que receberam o prêmio - Schweitzer e King, Marshall e Mandela -, minhas realizações são modestas. E há também os homens e mulheres de todo o mundo que foram encarcerados e agredidos em sua busca pela justiça; aqueles que batalham em organizações humanitárias para minorar os sofrimentos; os milhões de pessoas que passam despercebidas mas cujos atos silenciosos de coragem e compaixão inspiram até mesmo os mais cínicos. Não posso discutir com aqueles que consideram que esses homens e mulheres - alguns conhecidos e outros obscuros para todos a não ser aqueles a quem ajudam - mereçam muito mais que eu a honraria que ora recebo.

Mas talvez a mais profunda questão quanto à minha escolha para este prêmio seja minha posição como comandante-em-chefe de um país que está envolvido em duas guerras. Uma dessas guerras está se encerrando. A outra é um conflito que os Estados Unidos não procuraram, e no qual contamos com a participação de 40 outros países - entre os quais a Noruega - em um esforço por defender a nós, e todas as nações, contra novos ataques.

Ainda assim, estamos em guerra, e sou responsável pelo envio de milhares de jovens norte-americanos ao combate em terras distantes. Alguns deles matarão. Outros serão mortos. E por isso venho a vocês conhecendo o custo de um conflito armado, e repleto de questões difíceis sobre o relacionamento entre guerra e paz e nosso esforço por substituir a primeira pela segunda.

Não são questões novas. A guerra, em uma ou outra forma, surgiu junto com os primeiros seres humanos. Na alvorada da História, sua moralidade não era questionada; tratava-se de um simples fato, como as secas ou doenças - a forma pela qual primeiro tribos e depois civilizações buscavam o poder e resolviam suas diferenças.

Com o passar do tempo, e o surgimento de códigos legais que buscavam controlar a violência no seio dos grupos, filósofos, líderes religiosos e estadistas começaram a tentar regulamentar o poder destrutivo da guerra. Emergiu o conceito de "guerra justa", que sugeria que a guerra só era justificada caso atendesse a determinadas precondições: que fosse empreendida apenas como último recurso; que a força usada fosse proporcional e que sempre que possível os civis fossem poupados da violência.

Pela maior parte da História, esse conceito de guerra foi raramente respeitado. A capacidade dos seres humanos para conceber maneiras novas de matarem uns aos outros se provou inexaurível, bem como nossa capacidade de excluir de nossa clemência aqueles que têm aparência diferença da nossa ou oram a um Deus diferente. Guerras entre exércitos deram lugar a guerras entre nações - guerras totais nas quais a distinção entre civis e combatentes se perdeu. Em um período de 30 anos, conflitos como esses assolaram a Europa por duas vezes. E embora seja difícil conceber uma causa mais justa que a derrota do Terceiro Reich e das potências do Eixo, a Segunda Guerra Mundial foi um conflito no qual o número total de civis mortos excedeu o de soldados caídos no campo de batalha.

Depois de tamanha destruição, e com o advento da guerra nuclear, tornou-se claro a vitoriosos e derrotados igualmente que o mundo precisava de instituições capazes de prevenir uma nova guerra mundial. E assim, um quarto de século depois que os Estados Unidos rejeitaram a Liga das Nações - a ideia pela qual Woodrow Wilson recebeu este prêmio -, foram eles que lideraram o mundo na construção de uma estrutura de preservação da paz: o Plano Marshall e as Nações Unidas, mecanismos para orientar as práticas de guerra, tratados de proteção aos direitos humanos, prevenção de genocídios e restrição às armas mais perigosas.

De muitas maneiras, esses esforços encontraram sucesso. Mas ainda assim guerras terríveis foram travadas, e atrocidades cometidas. Mas não surgiu uma Terceira Guerra Mundial. A guerra fria terminou com multidões entusiásticas derrubando um muro. O comércio aproximou boa parte do mundo.

Bilhões de pessoas conseguiram escapar à pobreza. Os ideais de liberdade, autodeterminação, igualdade e do Estado de Direito conquistaram avanços, ainda que hesitantes. Somos os herdeiros da firmeza e da visão de gerações passadas, e esse é um legado do qual meu país merecidamente se orgulha.

Agora, passada uma década do novo século, a velha estrutura está vacilando devido ao peso de novas ameaças. O mundo talvez não viva mais o medo de um conflito entre duas superpotências nucleares, mas a proliferação pode tornar mais sério o risco de uma catástrofe. O terrorismo é uma tática usada há muito; no entanto, a tecnologia moderna permite que um punhado de homens pequenos, mas dotados de raiva descomunal, assassinem inocentes em escala horripilante.

Além disso, as guerras entre países cada vez mais deram lugar a guerras entre nações. A ressurgência de conflitos étnicos ou sectários; o crescimento de movimento secessionistas, insurgências e Estados em colapso causaram caos infindo nas vidas dos civis. Nas guerras de hoje, morrem muito mais civis que soldados; as sementes de futuros conflitos são plantadas; economias são arruinadas; sociedades civis dilaceradas; refugiados criados em profusão; e as crianças portam as marcas.

Não trago hoje comigo uma solução definitiva para os problemas da guerra. O que sei é que enfrentar esses desafios requererá a mesma visão, trabalho árduo e persistência exibidos pelos homens e mulheres que agiram com tamanha audácia décadas atrás. E requererá que pensemos de novas maneiras sobre o conceito de guerra justa e sobre o imperativo de uma paz justa.

Devemos principiar reconhecendo a dura verdade de que não será possível erradicar os conflitos violentos em curto prazo. Haverá momentos em que nações - agindo individualmente ou em alianças - considerarão o uso da força não apenas necessário como moralmente justificado.

Faço essa afirmação tendo em mente aquilo que Martin Luther King declarou nesta mesma cerimônia, anos atrás: "A violência jamais traz paz permanente; não resolve problemas sociais, e apenas cria problemas novos e ainda mais complicados". Como alguém que só pode ocupar sua atual posição em consequência direta do trabalho empreendido por King, sou prova viva da força moral da não violência. Sei que não há nada de fraco - nada de passivo - nada de ingênuo - no credo e nas vidas de Gandhi e King.

Mas como chefe de Estado cujo dever jurado é proteger e defender minha nação, não posso me deixar orientar apenas por esses exemplos. Encaro o mundo tal qual é, e não poderia me manter ocioso diante de ameaças ao povo norte-americano. Porque eis uma verdade: o mal persiste no mundo. Um movimento não violento não teria sido capaz de deter os exércitos de Hitler. Negociações não são capazes de convencer os líderes da Al Qaeda a baixar as armas. Dizer que a força é ocasionalmente necessária não representa um apelo ao cinismo, mas um reconhecimento da História, das imperfeições do homem e dos limites da razão.

Menciono esse ponto porque em muitos países existe uma profunda ambivalência quanto às ações militares hoje em curso, não importa qual seja a causa. Há momentos em que essa ambivalência vem acompanhada por suspeitas instintivas quanto aos Estados Unidos, a única superpotência militar do planeta.

No entanto, o mundo precisa lembrar que não foram apenas as instituições internacionais - e não só os tratados e declarações - que geraram a estabilidade existente no mundo pós-Segunda Guerra Mundial: os Estados Unidos ajudaram a sustentar a segurança mundial por mais de seis décadas, com a força de nossas armas e o sangue de nossos cidadãos. O serviço e sacrifício de nossos militares, homens e mulheres, ajudou a promover a paz e a prosperidade da Alemanha à Coreia, e permitiu que a democracia fincasse raízes em lugares como os Bálcãs. Nós arcamos com esse fardo não porque desejemos impor nossa vontade; o fizemos em nome de um autointeresse esclarecido, porque desejamos um futuro melhor para nossos filhos e netos, e acreditamos que suas vidas serão melhores caso os filhos e netos de outros povos possam viver em liberdade e prosperidade.

Por isso, sim, os instrumentos da guerra têm um papel a desempenhar na preservação da paz. Mas essa verdade precisa coexistir com outra: a de que, não importa suas justificativas legítimas, guerras significam tragédia humana. A coragem e o sacrifício dos soldados são gloriosos, e expressam devoção ao país, à causa e aos companheiros de armas. Mas a guerra em si jamais é gloriosa, e não devemos alardear que seja.

Assim, parte de nosso desafio é reconciliar duas verdades aparentemente inconciliáveis - a de que a guerra é ocasionalmente necessária e a de que a guerra é em certo nível a expressão de sentimentos humanos. Em termos concretos, devemos dirigir nossos esforços à tarefa que o presidente Kennedy propôs, muito tempo atrás: "Que nos concentremos", ele disse, "em uma paz mais prática, mais atingível, baseada não em uma repentina mudança da natureza humana e sim na evolução gradual das instituições humanas".

Que forma essa evolução poderia assumir? Que passos práticos poderíamos dar?

Para começar, acredito que todas as nações - fortes e fracas igualmente - devem aderir a padrões que orientem o uso da força. Eu - como qualquer outro chefe de Estado - me reservo o direito de agir unilateralmente, se necessário, para defender minha nação. Mas mesmo assim estou convencido de que a adesão a padrões torna mais fortes aqueles que o fazem, e isola - e enfraquece - aqueles que não.

O mundo se uniu em apoio aos Estados Unidos depois dos ataques do 11 de setembro, e continua a apoiar os nossos esforços no Afeganistão, devido ao horror daqueles ataques insensatos e ao princípio de autodefesa que todos reconhecem. Da mesma forma, o mundo reconheceu a necessidade de enfrentar Saddam Hussein quando ele invadiu o Kuwait: um consenso que enviou a todos uma mensagem clara sobre os custos da agressão.

Além disso, os Estados Unidos não podem insistir que outros sigam as regras caso nós mesmos não as sigamos. Pois, quando não o fazemos, nossas ações podem parecer arbitrárias, e solapar a legitimidade de futuras intervenções - por mais justificadas que venham a ser.

Isso se torna especialmente importante quando o propósito das ações militares se estende para além da autodefesa ou da defesa de uma nação contra um agressor. Mais e mais, teremos de enfrentar questões difíceis sobre como impedir o massacre de civis por seu próprio governo, ou como deter uma guerra civil cuja violência e sofrimento se espalhem por toda uma região.

Acredito que o uso da força possa ser justificado para fins humanitários, como foi o caso nos Bálcãs ou em outros lugares marcados pela guerra. A inação perturba nossa consciência e pode resultar na necessidade de intervenções mais dispendiosas posteriormente. É por isso que todas as nações responsáveis precisam aceitar o papel que forças armadas dotadas de missões claras podem exercer para preservar a paz.

O compromisso dos Estados Unidos para com a segurança mundial jamais vacilará. Mas, em um mundo no qual as ameaças são mais difusas e as missões mais complexas, os norte-americanos não podem agir sozinhos. Isso é verdade quanto ao Afeganistão. Isso é verdade em Estados em colapso como a Somália, onde terrorismo e pirataria são acompanhados por fome e sofrimento humano. E, infelizmente, isso continuará a ser verdade nas regiões instáveis do planeta por ainda muitos anos.

Os líderes e os soldados dos países da Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan) - e de outros países amigos e aliados - demonstram essa verdade por meio da capacidade e coragem que exibem no Afeganistão.

Mas em muitos países, existe uma descontinuidade entre os esforços daqueles que servem e a ambivalência do público mais amplo. Compreendo os motivos para que a guerra não seja popular. Mas também sei o seguinte: a crença de que a paz é desejável raramente se prova suficiente para obtê-la. Paz requer responsabilidade. Paz requer sacrifício. É por isso que a Otan continua a ser indispensável. É por isso que precisamos reforçar as operações de paz da ONU e de organizações regionais, sem deixar a tarefa a apenas alguns países. É por isso que precisamos honrar os soldados que retornam para casa depois de suas missões de paz e treinamento no exterior - para Oslo e Roma; para Ottawa e Sydney; para Dhaka e Kigali -eles devem ser honrados não como homens de guerra, e sim como promotores da paz.

Permitam-me uma última consideração sobre o uso da força: enquanto tomamos decisões difíceis sobre ir ou não à guerra, devemos também pensar claramente sobre como a guerra deve ser travada. O Comitê do Nobel reconheceu essa verdade ao conceder seu primeiro prêmio da paz a Henri Dunant, fundador da Cruz Vermelha e um dos mais importantes proponentes das convenções de Genebra.

Nos casos em que a força seja necessária, temos interesse moral e estratégico em nos apegarmos a determinadas regras de conduta. E mesmo que confrontemos um adversário malévolo que não respeita quaisquer regras, acredito que os Estados Unidos da América devam manter sua posição como baluartes de uma conduta justa em situações de guerra. É isso que nos torna diferentes daqueles a quem combatemos. Essa é uma das fontes de nossa força. Por isso proibi a tortura. Por isso ordenei o fechamento da prisão na Baía de Guantánamo. E por isso reafirmei o compromisso dos Estados Unidos para com as convenções de Genebra. Nós nos perdemos ao comprometer os ideais que combatemos para defender. E honramos esses ideais ao mantê-los não apenas quando isso é fácil, mas também quando é difícil.

Falei sobre questões que devem ser ponderadas em nossas mentes e corações quando surge o momento de optar pela guerra. Mas permitam-me discorrer agora sobre nossos esforços para evitar essas trágicas escolhas, e falar sobre os três caminhos existentes para que construamos uma paz justa e duradoura.

Primeiro, ao lidar com os países que violam leis e regras, acredito que devamos desenvolver alternativas à violência que sejam duras o suficiente para promover uma mudança de comportamento - porque, se desejamos uma paz duradoura, a palavra da comunidade internacional precisa ter peso. Os regimes que violam regras devem ser responsabilizados por seus atos. As sanções precisam ter efeito real. A intransigência deve ser rebatida com pressão ainda mais forte - e essa pressão só pode existir caso o mundo todo se una.

Um exemplo urgente é o esforço para impedir a difusão de armas nucleares e para buscar um mundo no qual elas sejam banidas. Na metade do século passado, os países aceitaram os termos de um tratado que oferece uma clara barganha: todos teremos acesso à energia nuclear para fins pacíficos; os países que não dispõem de armas nucleares renunciarão a desenvolvê-las; e os países que as têm trabalharão para o desarmamento. Tenho um compromisso para com o cumprimento desse tratado. Ele ocupa posição central em minha política externa. E estou trabalhando com o presidente Medvedev para reduzir os arsenais nucleares dos Estados Unidos e da Rússia.

Mas também cabe a todos nós a responsabilidade de insistir em que países como o Irã e a Coreia do Norte não tentem manipular o sistema. Aqueles que alegam respeitar a lei internacional não podem desviar os olhos quando ela é desrespeitada. Aqueles que se preocupam com a segurança de seus países não podem ignorar o perigo de uma corrida armamentista no Oriente Médio ou na Ásia. Aqueles que procuram a paz não podem assistir ociosamente enquanto outras nações se armam para a guerra nuclear.

O mesmo princípio se aplica àqueles que violam as leis internacionais ao praticar brutalidades contra seus próprios povos. Quando existe genocídio em Darfur, estupro sistemático no Congo ou repressão na Birmânia, é preciso que haja consequências. E quanto mais unidos estivermos, menos teremos de enfrentar a escolha entre intervenção armada e cumplicidade para com a opressão.

Isso me conduz a um segundo ponto - a natureza da paz que buscamos. Pois a paz não é apenas a ausência de conflitos visíveis. Apenas uma paz justa, baseada nos direitos e dignidade inerentes de todo indivíduo, poderá ser verdadeiramente duradoura.

Foi essa percepção que animou os responsáveis pela redação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, depois da Segunda Guerra Mundial. Diante da devastação, eles reconheceram que, caso os direitos humanos não fossem protegidos, a paz seria uma promessa vazia.

E no entanto as palavras da declaração são frequentemente ignoradas. Em alguns países, o desrespeito aos direitos humanos é justificado com a falsa sugestão de que eles representam princípios ocidentais, externos à cultura local ou ao estágio de desenvolvimento da nação. E nos Estados Unidos, há muito existe tensão entre aqueles que se descrevem como realistas e aqueles que se descrevem como idealista - uma tensão que sugere que é necessário optar ou pela defesa estreita de nossos interesses ou por uma campanha incessante para impor nossos valores.

Rejeito essa escolha. Acredito que a paz é instável em países nos quais cidadãos não desfrutam do direito de falar livremente ou seguir a religião de sua escolha. As queixas acumuladas terminam por se inflamar, e a supressão de identidades tribais e religiosas pode gerar violência.

Sabemos igualmente que o oposto é verdade. Apenas quando a Europa se tornou livre ela encontrou a verdadeira paz. Os Estados Unidos jamais travaram uma guerra contra uma democracia, e nossos aliados mais estreitos são governos que protegem os direitos de seus cidadãos. Por mais cinismo que se empregue em sua definição, os interesses dos Estados Unidos - e os do mundo- não serão servidos pela negação das aspirações humanas.

Assim, ainda que respeitamos as culturas e tradições únicas dos diferentes países, os Estados Unidos sempre serão uma voz de defesa de aspirações que podem ser consideradas universais. Testemunhamos a silenciosa dignidade de reformistas como Aung Sang Suu Kyi; a bravura dos zimbabuenses que foram às urnas apesar dos espancamentos contra os eleitores; as marchas silenciosas de centenas de milhares de pessoas pelas ruas do Irã. É um fato revelador que os líderes desses governos temam as aspirações de seus povos mais do que temem o poderio de qualquer outro país. E é responsabilidade de todos os povos e nações livres deixar claro a esses movimentos que a esperança e a história estão de seu lado.

Permitam-me afirmar o seguinte: a promoção dos direitos humanos não pode ser realizada apenas por exortação. Haverá momentos em que ela terá de ser acompanhada por trabalho diplomático cuidadoso. Sei que o contato com regimes repressivos nos priva da satisfatória pureza que a indignação confere. Mas também sei que sanções desacompanhadas de esforços de aproximação - e que condenação sem debate - podem perpetuar uma situação paralisante. Nenhum regime repressivo poderá seguir um novo caminho a não ser que haja uma porta aberta para que a escolha.

Diante dos horrores da Revolução Cultural chinesa, o encontro entre Nixon e Mao parecia indesculpável - e no entanto ele certamente ajudou a colocar a China em um caminho que tirou milhões de seus cidadãos da pobreza e os conectou a sociedades abertas. Os contatos do Papa João Paulo 2° com a Polônia criaram espaço não só para a Igreja Católica como para líderes trabalhistas, a exemplo de Lech Walesa. Os esforços de Ronald Reagan pelo controle de armas e seu apoio à perestroika não só melhoraram as relações com a União Soviética mas beneficiaram dissidentes de toda a Europa Oriental. Não existem fórmulas simples, aqui. Mas devemos tentar o nosso melhor para equilibrar isolamento e contato; pressão e incentivos -de modo a que os direitos humanos e a dignidade possam avançar, com o passar do tempo.

Terceiro, uma paz justa inclui não apenas direitos civis e políticos, mas precisa igualmente abarcar segurança e oportunidades econômicas. Pois a verdadeira paz não significa apenas estar livre do medo, mas livre das dificuldades materiais.

É uma verdade indiscutível que o desenvolvimento raramente finca raízes sem segurança; é igualmente verdade que a segurança não pode existir em lugares nos quais os seres humanos não tenham acesso a comida suficiente, ou a água potável, ou aos remédios de que precisam para sobreviver. Ela não existe onde as crianças não podem aspirar a uma educação decente ou a empregos que permitam que suas famílias se sustentem. A faltam de esperança pode fazer com que uma sociedade apodreça de dentro para fora.

E é por isso que ajudar os agricultores a alimentar os povos de seus países, ou nações a educarem suas crianças e cuidarem de seus doentes, não significam simples caridade. E é também por isso que o mundo precisa se unir para enfrentar a mudança climática. Não há muita contestação científica ao fato de que, caso nada façamos, enfrentaremos ainda mais secas, fomes e deslocamentos populacionais, que alimentarão conflitos por décadas. Por esse motivo, não são apenas os cientistas e ativistas que apelam por ação rápida e vigorosa ¿os apelos vêm igualmente dos líderes militares de meu país e outros, que compreendam que a segurança comum do planeta está em jogo.

Acordos entre nações. Instituições fortes. Apoio aos direitos humanos. Investimentos no desenvolvimento. Todos esses são ingredientes vitais para produzir aquela evolução da qual falou o presidente Kennedy. E no entanto não acredito que tenhamos a força de vontade, ou a persistência, para concluir esse trabalho sem algo mais - e esse ingrediente é a expansão continuada de nossa imaginação moral; uma insistência em que existe algo de irredutível compartilhado por todos nós.

À medida que o mundo diminui, seria de esperar que os seres humanos ganhem mais facilidade em reconhecer o quanto somos semelhantes, e em compreender que basicamente desejamos as mesmas coisas - que todos nós esperamos uma chance de viver nossas vidas com alguma felicidade e realização, para nós mesmos e nossas famílias.

E no entanto, dados o ritmo vertiginoso da globalização e a redução das diferenças culturais que a modernidade propicia, não deveria surpreender que as pessoas temam perder aquilo que apreciam quanto às suas identidades específicas - sua raça, sua tribo e, talvez especialmente, sua religião. Em alguns lugares, esse temor resultou em conflito. Há momentos em que até parece que estamos caminhando para trás. Nós o percebemos no Oriente Médio, onde o conflito entre árabes e judeus parece ter se intensificado.

Nós o vemos em países que se dividem em linhas tribais. O mais perigoso é que o vejamos na forma pela qual a religião é usada para justificar o assassinato de inocentes, por aqueles que distorceram e macularam a grande religião do Islã e, do Afeganistão, montaram um ataque contra o meu país. Não se trata dos primeiros extremistas a matar em nome de Deus; as crueldades das Cruzadas são amplamente conhecidas. Mas isso serve para nos recordar que nenhuma guerra santa pode ser uma guerra justa. Porque se alguém realmente acredita estar executando a vontade divina, não existe motivo para contenção ¿não há razão para poupar a mãe grávida, o paramédico, ou até uma pessoa da mesma religião. Uma visão assim distorcida sobre a religião é incompatível não apenas com o conceito de paz mas com o propósito da fé - pois a regra básica que existe no cerne de todas as grandes religião é que não façamos aos outros o que não desejamos que façam a nós.

A adesão a essa lei do amor sempre foi o conflito básico na natureza humana. Somos falíveis. Cometemos erros, e caímos vítimas da tentação do orgulho, do poder e ocasionalmente do mal. Mesmo os mais bem intencionados entre nós ocasionalmente fracassam em corrigir os erros que todos contemplamos.

Mas não precisamos acreditar que a natureza humana é perfeita para que ainda acreditemos que a condição humana pode ser aperfeiçoada. Não precisamos viver em um mundo idealizado a fim de podermos continuar lutando por aqueles ideais que farão dele um lugar melhor. A não violência praticada por homens como Gandhi e King pode não ter sido prática ou possível em todas as circunstâncias, mas o amor que pregaram - sua fé no progresso humano- devem sempre nortear nossa jornada.

Porque, se perdermos essa fé, se a descartamos como tola ou ingênua, e se separarmos dela as decisões que tomamos sobre questões de paz e guerra, teremos perdido o que a humanidade tem de melhor. Perderemos nossa sensibilidade. Perderemos a nossa bússola moral.

Como as gerações que nos precederam, devemos rejeitar esse futuro. A exemplo do que King declarou em seu discurso ao receber este prêmio, tantos anos atrás, "me recuso a aceitar o desespero como resposta final às ambiguidades da História. Recuso-me a aceitar a ideia de que a suposta imutabilidade da natureza humana atual nos torne moralmente incapazes de atingir o patamar de moralidade mais elevado que sempre nos confronta".

Assim, que procuremos criar o mundo como ele deveria ser - que procuremos aquela fagulha do divino que ainda brilha em nossas almas. Em algum lugar, hoje, no aqui e agora, um soldado percebe que o inimigo é mais forte, mas ainda assim continua firme no combate, em defesa da paz.

Em algum lugar hoje, neste nosso mundo, uma jovem manifestante sabe que seu governo reagirá com brutalidade mas tem a coragem de marchar ainda assim. Em algum lugar hoje, uma mãe que enfrenta a pobreza ainda assim encontra tempo para ensinar a seu filho a acreditar que um mundo cruel ainda assim pode ter espaço para os seus sonhos.

Que vivamos de acordo com esses exemplos. Podemos reconhecer que a opressão sempre existirá, mas ainda assim lutar pela justiça. Podemos admitir que a depravação é intratável, e ainda assim lutar pela dignidade. Podemos compreender que haverá guerras, mas ainda assim lutar pela paz. Podemos fazê-lo ¿porque essa é a história do progresso humano; essa é a esperança do mundo; e, em um momento de desafio como o que vivemos, deve ser esse o nosso trabalho na Terra.

Tradução: Paulo Migliacci ME

Fonte: Redação Terra

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