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Mundo

Britânicos se perguntam o que há por trás da onda de violência

10 ago 2011 - 16h23
(atualizado às 16h57)
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O Reino Unido se questiona o que há por trás da grave onda de violência urbana protagonizada majoritariamente por jovens e adolescentes que enfrentam a polícia e destroem e saqueiam o que veem pela frente. As autoridades insistiram em chamar de "criminalidade contagiosa" os distúrbios que se estendem desde sábado passado por vários bairros de Londres e de outras cidades da Inglaterra, como Manchester e Birmingham.

Enquanto as imagens mostram jovens de aproximadamente 20 anos e até crianças de 12 anos quebrando vitrines e roubando tênis esportivos, roupas de marca e eletrodomésticos, britânicos confusos e comovidos se perguntam quem são esses jovens e o que os leva a participar, sem motivação aparente, de um fenômeno sem precedentes de vandalismo generalizado.

"Apesar do que possa parecer em princípio, a variedade das pessoas envolvidas nesses distúrbios é enorme", explicou à Agência Efe o professor de Sociologia da Universidade de Leeds (norte da Inglaterra) Paul Bagguley. "Há pessoas muito jovens, homens e mulheres de todas as etnias, a maioria desempregados, mas um dos detidos é um professor de 32 anos acusado de participar de um saque", lembrou.

As imagens mostram uma atitude desafiante dos envolvidos em seus confrontos com a polícia pelas ruas. Embora muitos ajam mascarados, outros ficam com o rosto descoberto e parecem não se importar com imagens divulgadas na imprensa e com as câmeras de segurança espalhadas por Londres, cujas imagens estão servindo à Polícia para sua prisão.

"Continuarei até que me peguem. Quando voltar para casa, nada vai me acontecer", declarou, confiante, um dos arruaceiros de Manchester a um repórter da emissora pública BBC. Segundo o jurista John Pitts, "o vandalismo faz os mais desfavorecidos se sentirem poderosos de repente", e isso é algo "muito contagioso".

Para o psicólogo Lance Workman, os humanos são os melhores imitadores do mundo, e quase sempre "imitamos aquilo que é proveitoso". "Se você vê pessoas saindo das lojas com um televisor de tela plana na mão, há um tipo de gente que pode pensar: por que eu também não faço isso?", relatou o psicólogo à BBC. Nunca antes se viveu uma onda de saques tão prolongada por diversas regiões de um país, indicam os analistas.

Quando no sábado começaram os distúrbios no bairro londrino de Tottenham, eles surgiram motivados pela morte de um jovem negro de 29 anos, baleado pela polícia, em uma região onde as tensões entre a comunidade negra e as forças de segurança vêm de longe. Mas, se tudo começou com protestos pacíficos contra a morte de um jovem, as cenas de violência e vandalismo posteriores - que até agora já provocaram quatro mortes e mais de mil prisões - não possuem uma clara explicação.

Os analistas insistem que os distúrbios não são comparáveis aos ocorridos nos bairros conflituosas de Paris em 2005 ou aos ocorridos no Reino Unido no anos 1980, quando os motivos de protesto eram mais claros. "É evidente que agora não se reivindica nada, mas tudo está relacionado à sociedade extremamente consumista em que vivemos, onde as pessoas são bombardeadas por anúncios de produtos desnecessários que acabam se transformando em necessidades", destacou à Agência Efe o sociólogo Paul Bagguley.

A crise econômica complica as coisas, segundo este especialista. "O povo não tem dinheiro e não pode se dar ao luxo de ter artigos que deseja. Além disso, por culpa das altas taxas de desemprego, vemos muitos jovens sem nada a fazer, mas se envolvendo cada vez mais facilmente neste tipo de atividade".

O governo britânico segue defendendo a atuação policial para fazer frente à incontrolada onda de violência urbana, mas o primeiro-ministro David Cameron admitiu nesta quarta-feira que "há coisas que realmente não funcionam em nossa sociedade" e disse que a crise é consequência de falta de responsabilidade. A polícia pediu aos pais que controlem seus filhos e tirem-nos das ruas, apelo que até agora não teve muito sucesso.

"Esses distúrbios terão graves e duradouras consequências àqueles que os presenciaram. As pessoas que testemunham custam a entender o sentido do que está acontecendo e o porquê", advertiu à Efe Malcolm Cross, professor de Psicologia da City University de Londres.

EFE   
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