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11 de maio de 2009 • 10h29 • atualizado às 10h58

Vídeo sobre os perigos do consumismo faz sucesso em escolas

Imagem do documentário "A História das Coisas", que trata dos efeitos do consumo humano
Foto: The New York Times
 

Leslie Kaufman

Do New York Times


Os desenhos de traços espessos que mostram a Terra, uma fábrica e uma casa, com o objetivo de descrever o ciclo do consumo humano, são simples e têm algo de infantil. O mesmo se aplica às baforadas de fumaça negra de chaminé e ao desenho de um crânio sobre ossos cruzados, para representar poluentes flutuando no ar.

E isso é um dos motivos para que The Story of Stuff a história das coisas, um vídeo de 21 minutos sobre os efeitos do consumo humano, se tenha tornado um inesperado sucesso nas salas de aula dos Estados Unidos. Uma avaliação em tom alegre mas ainda assim brutal do desperdício que os norte-americanos praticam, o vídeo vem sendo adotado por professores ávidos por formas de suplementar os livros didáticos, cujo conteúdo está muito desatualizado com relação às mais recentes constatações científicas sobre a mudança climática e a poluição. E muitas crianças que assistem a ele levem o alerta a sério. Em uma viagem de carro com seus pais certo dia, em Tacoma, Washington, Rafael de la Torre Batker, 9 anos, estava discutindo se ganhar uma nova caixa de Legos poderia fazer mal ao planeta.

"Quando passávamos de carro por grandes lojas, era possível perceber que ele enfrentava um dilema sobre isso", diz David Batker, o pai de Rafael. O menino terminou por concluir que "ganhar Legos não têm problema, porque vou conservá-los por muito tempo", conta David.

O vídeo foi criado por Annie Leopard, ex-funcionária da Greenpeace e palestrante independente que tenta demonstrar de que maneira os hábitos norte-americanos resultaram na derrubada de florestas, destruição de montanhas, poluição da água e contaminação de pessoas e animais. Leonard, que se descreve como "ativista declarada", também critica as grandes empresas e o governo federal, que segundo ela gasta dinheiro demais com as forças armadas.

Leonard começou a distribuir o vídeo via Internet em dezembro de 2007. Os professores do país logo o descobriram, recomendando-o uns aos outros como maneira curta e instigante de gerar debate entre os alunos sobre a possibilidade de que a compra de um novo celular ou jeans estivesse contribuindo para a devastação ambiental.

Até o momento, seis milhões de pessoas assistiram ao vídeo em seu site oficial, storyofstuff.com, e milhões de outras no YouTube. Mais de sete mil escolas, igrejas e outras organizações encomendaram a versão em DVD, e centenas de professoras escreveram a Leonard para informar que assistir ao vídeo dela havia sido prescrito como tarefa aos seus alunos.

O trabalho também conquistou o apoio de grupos independentes que assessoram professores quanto a escolhas curriculares. A Facing the Future, uma organização que desenvolve currículos para escolas dos 50 Estados norte-americanos, está criando planos de aula que tomam o vídeo como base. E Leonard assinou contrato com a editora Simon & Schuster para escrever um livro baseado no vídeo, com lançamento previsto para o ano que vem.

Mas o entusiasmo não é universal. Em janeiro, um conselho escolar no condado de Missola, Montana, decidiu que exibir o vídeo era uma violação das liberdades acadêmicas, depois que um pai se queixou da mensagem anticapitalista. No entanto, muitos educadores dizem que o vídeo ajuda os professores que enfrentam dificuldade para preencher a lacuna deixada entre o conteúdo dos livros didáticos sobre o meio ambiente e aquilo que a ciência revelou a respeito nos últimos anos.

"Francamente, muitos dos livros didáticos são horrorosos quanto ao meio ambiente", disse Bill Bigelow, editor de currículo da Rethinking Schools, revista trimestral que está promovendo o vídeo junto a seus assinantes e em seu site, visitado por mais de 600 mil educadores ao mês. "O material em uso aqui no Oregon para estudos planetários - um assunto de ensino obrigatório- só dedica três parágrafos ao aquecimento global. Por isso, sim, os professores estão em busca de recursos alternativos".

A educação ambiental ainda é um campo de trabalho jovem e variável, de acordo com Frank Niepold, coordenador de educação sobre o clima na Administração Nacional da Atmosfera e Oceano (NOAA) norte-americana. Existem poucas normas locais ou estaduais quanto a como lecionar sobre o assunto.

A agência está tentando mudar o fato, mas enquanto isso não acontece muitos professores estão desenvolvendo planos de estudo próprios sobre a mudança climática, aproveitando alguns elementos de fontes estabelecidas como a Federação Nacional da Fauna e Flora e outros de recursos menos convencionais como The Story of Stuff.

Leonard produziu o vídeo, com a Free Range Studios, porque as muitas viagens que vinha fazendo para apresentar suas opiniões em conferências filantrópicas e ambientais estavam começando a se tornar cansativas. Ela atribui a resposta positiva à simplicidade do trabalho.

"Muito do que o filme mostra já estava disponível", diz, "mas o estilo da animação o torna fácil de assistir. É uma maneira agradável de contrabalançar os fatos desanimadores que apresentamos".

Mark Lukach, que ensina estudos planetários na Woodside Priory, uma escola católica de segundo grau em Portolla Valley, Califórnia, disse que a duração de 21 minutos tem outra vantagem. "Comparado a Uma Verdade Inconveniente", ele disse, em referência ao documentário ambientalista de uma hora e meia estrelado pelo antigo vice-presidente, "é um filme muito mais curto e mais fácil de encaixar em uma aula sobre mudança climática. Pode-se assistir ao filme e promover um debate ainda dentro do período de aula".

Os alunos de Lukach produziram um vídeo como resposta e o postaram no YouTube, pedindo que Leonard os assustasse menos e oferecesse mais idéias sobre como melhorar as coisas. Isso, por sua vez, incentivou alunos de uma escola de segundo grau em Mendocino, Califórnia, a postar resposta própria ao vídeo de Woodside, sugerindo atividades.

Dawn Zweig, que leciona estudos ambientais na Putney School, uma escola particular em Vermont, disse que o motivo mesmo para que o vídeo atraísse os professores - o fato de que mostra aos alunos como o comportamento deles está vinculado ao que acontece no mundo - também poderia despertar questões complicadas. Ela diz que os alunos, especialmente os vindos de famílias mais prósperas, poderiam se sentir pessoalmente criticados. "Se você ofende um aluno, ele desiste de aprender, e isso não nos leva a lugar algum", disse Zweig.

Os professores ocasionalmente observam o efeito oposto - crianças que se tornam defensoras da causa ambientalista em suas casas, depois de assistirem ao vídeo. Depois que Jasmine Madavi, 18 anos, assistiu ao documentário em uma aula de Lukach na Woodside Priory, no ano passado, ela começou a reclamar dos pais por comprarem água mineral em garrafas. A mãe resistiu, dizendo que a água de torneira filtrada, a alternativa que Jasmine sugeria, não teria um sabor tão bom. Mas Jasmine comprou um filtro com o seu dinheiro, e convenceu a família a adotá-lo como fonte de água potável.

"É preciso mostrar persistência", disse Madavi, que agora é aluna de uma faculdade local. "Quando alguém usa água mineral, a garrafa não desaparece depois do consumo. É essa a mensagem que Annie tem para todos nós".

A maioria dos pais aceita esse tipo de crítica ou reclamação com bom humor. Mas Mark Zuber, pai de uma aluna da Big Sky High School, em Missoula, Montana, teve uma reação mais forte depois que um professor exibiu o vídeo para sua filha em aula, no ano passado. "A coisa toda não tinha referência positiva alguma ao capitalismo", ele afirma.

Zuber considera que o vídeo seja unilateral. "É muito bem produzido, e defende muito bem a causa que propõe, mas não passa disso", afirma.Ele se queixou ao conselho escolar do condado de Missoula sobre a maneira pela qual o vídeo era exibido aos estudantes locais, sem o contraponto de um ponto de vista alternativo, alegando que isso violava as normas de prevenção da parcialidade. O conselho concordou com sua posição por quatro votos a três.

Ainda assim, Leonard espera que seu vídeo ganhe alcance mundial mais amplo. "Recebi contatos de professores da Palestina e da Papua Nova Guiné", afirma. "Ele está se espalhando cada vez mais".

The New York Times