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Preso em Guantánamo diz que foi abandonado por Obama e pelo mundo

Al Madhwani está em seu 11º ano de prisão em Guantánamo

14 mai 2013
14h04
atualizado às 14h11
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Um iemenita detido na Baía de Guantánamo diz que se sente abandonado pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e pelo mundo após mais de 10 anos na prisão americana em Cuba. 

Imagem mostra veículo passando ao lado da prisão de Guantánamo em 30 de março de 2010
Imagem mostra veículo passando ao lado da prisão de Guantánamo em 30 de março de 2010
Foto: AP

"Eu acredito que o presidente Obama não deve estar ciente das condições inacreditavelmente desumanas na prisão da Baía de Guantánamo, do contrário ele certamente faria algo para interromper estar tortura", disse o prisioneiro iemenita Musa'ab Omar Al Madhwani em um carta destinada para um tribunal federal americano neste ano.

Um mês depois, Obama renovou sua promessa de fechar a penitenciária americana em Cuba, mas reconheceu um obstáculo importante: "É difícil defender o caso porque acredito que para muitos americanos a noção é de 'fora de vista, fora da mente'".

Al Madhwani é um exemplo das dificuldades políticas que Obama precisa enfrentar para cumprir sua promessa.  Ele está impedido de ser transferido de volta para seu país desde que, em janeiro de 2010, a administração federal americana proibiu a extradição de presos iemenitas após um terrorista receber ordens da Al-Qaeda no Iêmen para explodir um avião com destino para os Estados Unidos.

Outro ponto é que Al Madhwani já perdeu uma apelação judicial à sua detenção apesar de o juiz ter concluído que ele não era uma ameaça à segurança dos EUA. Além disso, dos 26 documentos utilizados pelo governo que continham depoimentos de Al Madhwani em Guantánamo, 23 foram eliminados pelo juiz federal Thomas Hogan após este concluir que foram conseguidos por interrogação coerciva antes da chegada do detento a Cuba. Em decorrência disso, seria difícil condenar Al Madhwani em um corte civil, ou até mesmo em um tribunal militar, o que aumenta as chances de que ele será mantido no limbo da detenção indefinida.

Muitos outros estão na mesma situação
Até hoje, apenas dois prisioneiros foram condenados em julgamentos por tribunais militares de Guantánamo, e as duas condenações foram revertidas por uma corte de apelação em Washington (apesar de uma ainda estar em revisão). As outras cinco condenações de prisioneiros de Guantánamo vieram através de acordos.

Em sua primeira semana como presidente, Obama assinou uma ordem executiva para fechar Guantánamo, mas o Congresso americano bloqueou a transferência de prisioneiros para os Estados Unidos. No sábado, o procurador-geral Eric Holder criticou o que chamou de "restrições insensatas e injustificadas do Congresso sobre onde certos detentos podem ser abrigados, acusados e processados".

"Ao longo da história, os nossos tribunais federais se mostraram um instrumento sem paralelo para levar terroristas à Justiça", disse Holder. "Eles nos permitiram condenar centenas de pessoas por crimes ligados ao terrorismo desde 11 de setembro".

Como a maioria dos 166 presos remanescentes em Guantánamo, Al Madhwani está participando da greve de fome para protestar contra sua detenção e as condições da prisão. "Detenções indefinidas é a pior forma de tortura", escreveu Al Madhwani, que está em seu 11º ano de detenção sem que jamais tenha sido acusado de qualquer crime.

O juiz disse que considerou crível o testemunho de Al Madhwani sobre o tratamento que recebeu das forças americanas em prisões no Afeganistão. "Antes de Guantánamo, ele passou por 40 dias de confinamento solitário, graves abusos físicos e mentais, desnutrição, privação de sentidos, insônia e ansiedade", disse Hogan. No entanto, ele considerou que os depoimentos que Al Madhwani fez durante duas audiência administrativas em Guantánamo são confiáveis e suficientes para justificar mantê-lo preso, uma vez que o iemenita teria assumido fazer parte da Al-Qaeda.

Ainda assim, ele pareceu relutante em sua decisão. "Como um jovem, desempregado e pouco educado iemenita, o requerente (Al Madhwani) era particularmente vulnerável à demagogia do fanatismo religioso", Hogan escreveu em sua decisão de janeiro de 2010, acrescentando que Al Madhwani era no máximo uma figura de baixo escalão da Al-Qaeda.

No mês passado, uma força de trabalho sobre o tratamento a detentos do centro de estudos apartidário Constitution Project, com sede em Washington, concluiu que os Estados Unidos recorreram à tortura ao tratarem com supostos terroristas. O estudo listou o caso de Al Madhwani como um exemplo de descobertas de evidências de tortura e abuso.

Dos detentos remanescentes em Guantánamo, 86 foram classificados como prontos para serem transferidos a outros países, mas Al Madhwani não é um deles. "Isso realmente faz com que nós cocemos nossas cabeças, porque nós acreditamos que, de todas as pessoas que conhecemos, ele é tão inofensivo quanto qualquer um", disse Darold Killmer, advogado de Al Madhwani e que representa outros detentos liberados para transferência.

Este ano, Al Madhwani ajuizou uma ação em um tribunal federal do Distrito de Columbia por ajuda humanitária, alegando que autoridades de Guantánamo demonstraram "deliberada indiferença" às suas necessidades médicas. Hogan negou a ação, afirmando que a lei federal o impede de revisar reinvindicações sobre as condições de confinamento de um combatente inimigo.

Em apoio à sua fracassa ação Al Madhwani escreveu: "Ambos meus pais morreram durante o tempo em que estou preso na Baía de Guantánamo. Eles esperavam que eu voltasse para casa e agora se foram. Temo que toda minha família estará morta antes de eu ser solto desta prisão...Eu não tenho razão para acreditar que jamais deixarei esta prisão. Parece-me que a morte seria um destino melhor que viver nestas condições".

Todd Breasseale, um porta-voz do Departamento de Defesa do país, disse que os Estados Unidos permanecem em um conflito armado com a Al-Qaeda e que a Autorização para o Uso de Força Militar, aprovada pelo Congresso americano após os ataques de 11 de setembro de 2001, permitem a detenção de forças inimigas.

Al Madhwani insiste que nunca fez nada contra os Estados Unidos e nunca fará. "Mas se alguém acredita que eu fiz algo errado, eu imploro que me acusem de um crime, me julguem e me sentenciem. Caso contrário, me soltem".

Há duas semanas, Obama expressou um sentimento parecido. "A ideia de que manteremos para sempre um grupo de indivíduos que não foram julgados é contrário ao que somos, é contrário aos nossos interesses e precisa acabar". 

Fonte: AP AP - The Associated Press. Todos os direitos reservados. Este material não pode ser copiado, transmitido, reformado o redistribuido.
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