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Nova Orleans recupera-se do Katrina em ritmo de jazz

26 ago 2010 14h44
| atualizado às 15h49
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O histórico bairro francês de Nova Orleans encheu-se de música procedente de dezenas de bares no fim da tarde, cinco anos depois de o furacão Katrina ter devastado a cidade americana.

Banda toca jazz em homenagem às vítimas do furacão Katrina, que atingiu a região há cinco anos
Banda toca jazz em homenagem às vítimas do furacão Katrina, que atingiu a região há cinco anos
Foto: AFP

As notas que eram ouvidas na rua Frenchmen demonstravam que existe uma robusta cena musical que volta a atrair à cidade hordas de músicos e turistas, apesar dos horrores do passado e da difícil situação econômica atual.

Algumas quadras mais longe, jardins e ruas laterais estavam cheias de pessoas que comemoravam o aniversário do gigante do jazz Louis Armstrong.

O trompetista Leroy Jones, uma velha figura da comunidade do jazz de Nova Orleans, tocava velhos "standards" mesclados com suas novas composições.

"A energia retornou. A criatividade é provavelmente mais prolífica agora", disse Jones enquanto secava o suor da testa.

"Dizemos que uma pessoa não toca blues até que o tenha vivido. A maioria das pessoas aqui, inclusive eu, experimentamos o blues", completa.

Jones e sua mulher, uma trompetista, saíram da cidade dois dias antes de o Katrina atingir o solo, em 29 de agosto de 2005.

Retornou seis semanas depois, e seu primeiro trabalho foi uma procissão fúnebre "de jazz" para enterrar de forma simbólica a temporada de furacões de 2005.

Ele relatou que logo depois do desastre a cena musical desapareceu, e que para muitos, a recuperação ocorreu recentemente.

"Tivemos um grande ano, mas nos custou muito até agora", disse Kathy Edegran, gerente do exclusivo clube de jazz Palm Court.

O Palm foi um dos primeiros clubes a retomar suas atividades depois da passagem do Katrina, menos de dois meses depois.

Edegran disse que a solidariedade e a dedicação em Nova Orleans pôde ser percebida desde o início, quando um pequeno grupo de músicos do clube tocou gratuitamente para um salão vazio durante meses.

"Precisavam tocar para afastar o Katrina, e tudo o que ocorria, de seus pensamentos", disse à AFP.

Com a cidade outra vez no ritmo, o baterista Lawrence Batiste disse que o que mais faz falta são os diversos músicos que nunca retornaram, já que vários deles morreram em seu exílio imposto pelo Katrina.

"Sofreram pela cidade", disse Batiste, parado fora do Palm Court, enquanto um grupo de seus colegas subia no palco para a última noite antes de sair de férias.

"Estou certo de que morreram com seus corações partidos, porque não podiam retornar a Nova Orleans. Nova Orleans é um lugar muito sedutor. É como estar apaixonado por uma mulher que te abandona, seu coração quebra".

Em uma cidade com a música no centro de sua identidade, as autoridades aprovaram medidas especiais para ajudar os músicos em seu retorno.

E a organização de moradias sem fins lucrativos, a Habitat para a Humanidade, construiu 72 casas em uma região de músicos no Lower Ninth Ward.

A região era o lar de diversos artistas antes de o Katrina chegar, e apenas recuperou um quarto de sua população, de acordo com dados oficiais.

De todas as formas, não cabe dúvida de que a capacidade da cidade para atrair músicos continua intacta.

"É emocionante, porque muita gente como eu vem aqui porque deseja fazer parte de algo", disse Ben Polcer, músico de jazz que atua no "The Spotted Cat", um pequeno clube na rua Frenchmen.

Polcer, que chegou em 2008 de Nova York, disse que a quantidade de músicos em Nova Orleans torna a cidade um local especial, independentemente do clima.

"Esta sempre foi e provavelmente sempre será a capital musical do país", disse, antes de retornar a seu piano.

AFP Todos os direitos de reprodução e representação reservados. 
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