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Nobel da Paz de Obama tem precedentes ainda mais polêmicos

10 dez 2009
10h15
atualizado às 10h23

A inesperada concessão do Nobel da Paz a Barack Obama, que recebe o prêmio nesta quinta-feira, voltou a colocar na berlinda o comitê Nobel norueguês que escolhe essa distinção marcada por polêmicas, esquecimentos e discrepâncias.

Quando o nome do presidente americano foi divulgado em 9 de outubro passado, um burburinho de surpresa percorreu o Instituto Nobel de Oslo.

Apenas com nove meses de permanência na Casa Branca, o próprio premiado se mostrou surpreso e até mesmo constrangido com uma distinção que muitos comentaristas consideraram prematura.

Sua recente decisão de enviar 30.000 soldados extras ao Afeganistão, anunciada nove dias antes da entrega do Nobel da Paz, só serviu para alimentar a polêmica.

No entanto, não é a primeira vez que o Comitê Nobel, formado por cinco personalidades designadas pelo Parlamento norueguês, levanta controvérsias desde a criação do prêmio em 1901.

"A primeira surgiu em 1906 com Theodore Roosevelt", explica o especialista na história do Nobel, Asle Sveen, porque, apesar de sua mediação na guerra russo-japonesa, o presidente americano foi um adepto da política da força.

Em 1919, o Nobel foi atribuído a um de seus sucessores, Thomas Woodrow Wilson, apesar das ameaças de demissão de um dos membros do comitê, contrário a Tratado de Versalhes que favoreceu a Segunda Guerra Mundial e que teve participação do presidente americano em sua criação.

O prêmio de 1935 foi dado ao militante antinazista Carl von Ossietzky, prisioneiro em um campo de concentração de Hitler. Mas dois membros d comitê se retiraram antes da tomada da decisão final para não dar a impressão de que o governo norueguês compartilhava da mesma opinião.

"Hitler proibiu que todos os alemães aceitassem o Prêmio Nobel e, para não aborrecê-lo, o rei norueguês se absteve de participar na cerimônia oficial de entrega", recorda Sveen.

Por outro lado, o júri do Nobel ignorou Gandhi, "seu maior pecado, cometido por omissão", segundo Lundestad.

"Foi o maior homem da paz do século XX e é evidentemente triste que não tenha recebido um Nobel", admitiu o diretor.

O comitê se mostrou disposto a concedê-lo, em 1948, no ano de seu assassinato, mas desistiu da ideia para que o prêmio não fosse póstumo.

"O Prêmio Nobel da guerra", foi a manchete do jornal New York Times pelo Nobel da Paz de 1973, atribuído ao vietnamita Le Duc Tho e ao americano Henry Kissinger.

Le Duc Tho, que já planejava a grande ofensiva de 1975, foi o único a rejeitar o Prêmio Nobel da Paz. Kissinger propôs em vão devolvê-lo e dois membros do comitê se demitiram.

"Esperava-se incentivar um processo de paz, mas foi um fracasso total", afirmou Sveen.

Em 1974, as coisas não foram muito melhores. O primeiro-ministro japonês Eisaku Sato, viu recompensados seus supostos esforços contra a proliferação nuclear. Favorável ao escudo nuclear americano, na verdade considerava a oposição à arma atômica como algo sem sentido.

Em 1994, o prêmio compensou os acordos de paz israelense-palestinos concluídos no ano anterior.

E, de novo, um membro do comitê se demitiu porque junto aos israelenses Shimon Peres e Isaac Rabin, foi também premiado o palestino Yasser Arafat, considerado então por muitos um terrorista.

"Obama não é tão controvertido quanto todos esses precedentes, mas seu prêmio tem uma parte de polêmica que o futuro balanço de sua gestão poderá calar ou amplificar", prognostica Sveen.

Para Geir Lundestad, atual diretor do Instituto Nobel, no entanto, "o prêmio pode ser o mais controvertido, mas também é o mais famoso".

AFP Todos os direitos de reprodução e representação reservados. 
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