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Analistas: sem Hamas e com Israel cético, diálogo deve fracassar

2 set 2010
12h19
atualizado às 12h20
Gabriel Toueg
Direto de Jerusalém

A rodada de negociações pela paz no Oriente Médio comandada por Barack Obama nesta semana, em Washington, deve fracassar. De acordo com a opinião de especialistas ouvidos pelo Terra, o fato de o Hamas não ter sido convidado para o diálogo e o ceticismo de Israel em relação à iniciativa aumentam a probabilidade do resultado final das conversas ser inócuo, apesar da demonstração de boa vontade do líder americano.

Mahmoud Abbas, Benjamin Netanyahu, Abdullah II e Hosni Mubarak assistem ao discurso de Obama
Mahmoud Abbas, Benjamin Netanyahu, Abdullah II e Hosni Mubarak assistem ao discurso de Obama
Foto: Reuters

Desde ontem, Obama e a secretária de Estado, Hillary Clinton, estão em reuniões com o premiê de Israel, Benjamin Netanyahu, com o presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, com o rei Abdullah II da Jordânia e com o líder do Egito, Hosni Mubarak. O evento em Washington quase foi ofuscado por dois ataques ocorridos na Cisjordânia na terça e na quarta, que deixaram quatro israelenses mortos e dois feridos.

Os líderes de ambos os lados condenaram os ataques, que foram atribuídos ao Hamas. Nesta quinta, tanto a ANP quanto o exército israelense lançaram ofensivas contra o grupo radical que controla a Faixa de Gaza e que não participa das negociações promovidas pela Casa Branca. Por sua vez, colonos judeus reagiram com a retomada da construção em assentamentos, apesar do congelamento ainda em vigor.

Para Michael Schulz, especialista em resolução de conflitos e docente da Universidade de Gothenburg, na Suécia, o Hamas deveria ter sido convidado para participar do encontro. "Vai ser muito difícil para o presidente Obama alcançar um acordo sem a participação do Hamas", argumentou. Para ele, embora o Hamas não reconheça Israel, há conversações secretas entre Jerusalém e o grupo palestino.

"Mesmo que o presidente Abbas se comprometa com questões centrais nos diálogos, ele está politicamente fraco e poderá não ter apoio", diz. O especialista ainda afirma que nem palestinos nem israelenses estão verdadeiramente prontos para se comprometer com um acordo.

O palestino Hanna Siniora, que já integrou delegações de diálogo com Israel no passado, acha que, mesmo se tivesse sido convidado, o Hamas não aceitaria participar. Em entrevista concedida ao Terra em Jerusalém oriental, onde vive, Siniora demonstrou pessimismo com relação às negociações em Washington.

"Se (o ex-premiê Ehud) Olmert não estava disposto a ceder o mínimo, como Netanyahu cederá?", pergunta. A teoria de Siniora, atual presidente da Câmara de Comércio União Europeia-Palestina, é a de que o governo de Netanyahu, formado por partidos de direita, estaria bem menos disposto do que o de Olmert, cujo partido, o Kadima, se posiciona na centro-esquerda.

Mas ele diz que apoia as negociações patrocinadas por Obama. "O encontro vai servir para mostrar ao mundo que não os palestinos, mas os israelenses, não querem a paz", afirma. Para ele, esta é a chance de que os palestinos consigam um Estado. "Se falharmos, a solução de dois Estados será inviável", diz. A alternativa seria um estado binacional, opina.

Assentamentos
Nesta quinta-feira, o analista Akiva Eldar escreveu no jornal israelense Haaretz que acha difícil que o premiê israelense prometa ao presidente Obama renovar o congelamento da construção nos assentamentos. O tema é visto nas ruas palestinas como um dos maiores obstáculos para a criação de confiança e avanço de paz, bem além do status de Jerusalém, das fronteiras e dos refugiados.

Para Hanna Siniora, a questão territorial poderia ser resolvida com uma troca, proposta anunciada anteriormente no governo do ex-premiê Ehud Barak. "Os colonos poderiam receber até 2,5% do território da Cisjordânia, em troca do mesmo montante no que hoje é Israel", diz. Com relação aos refugiados, ele sustenta a teoria de pagamento de compensação e de que 15 mil pessoas deveriam receber o direito de voltar à região. "Na prática, eles voltariam para o (futuro) Estado palestino, ao longo de dez anos".

Oportunidade para Netanyahu
O encontro entre Netanyahu e Abbas em Washington, o primeiro entre autoridades dos dois lados em vinte meses, apesar de ocorrer à sombra dos ataques, é visto no país entre analistas como uma oportunidade. Os israelenses, contudo, ainda veem os diálogos com muito ceticismo. Na quarta-feira à noite, Raviv Drucker, analista político do Canal 10 da TV israelense, disse que "há pretextos de monte, mas oportunidades ocorrem apenas uma vez. Esta é a oportunidade de Netanyahu".

Pelo discurso feito na quarta-feira à noite no jantar que inaugurou o encontro, o premiê israelense parece não querer perder a oportunidade. "Vim a Washington para alcançar um compromisso histórico com os palestinos", disse. A frase foi manchete dos principais jornais no país nesta quinta-feira. "Não vou deixar que o terrorismo seja um obstáculo para a paz", disse,em referência aos ataques do Hamas.

Em encontro fechado com o presidente Obama, o primeiro-ministro teria afirmado, segundo a imprensa local, que "a paz não combina com a ideia de que você dirige em uma estrada e atiradores te matam". Ainda na conversa, Netanyahu teria dito que "se dependesse apenas de nós dois, haveria um acordo". Para ele, é possível chegar a um acordo dentro de um ano, "se houver desejo político do outro lado".

Mas, de acordo com Drucker, um acordo não depende apenas dos palestinos. Na realidade, o analista político disse, em entrevista ao Terra, que "tudo depende de Bibi", em referência ao premiê israelense. "Não acho que Obama ou Abbas sejam irrelevantes, mas a posição palestina e americana não mudou muito nos últimos anos". Para Drucker, está nas mãos de Netanyahu a possibilidade de conseguir um acordo com os palestinos. "Afinal, ele quer ou não percorrer esse caminho?", pergunta.

Com relação ao presidente palestino, Drucker afirma que ele tem a legitimidade para firmar um acordo, "mas não tenho certeza de que ele conseguiria implementá-lo". Na opinião do analista, a fórmula de um acordo precisará passar pela solução de dois Estados, com o futuro Estado palestino nas fronteiras de 1967, uma possível troca de território, a divisão de Jerusalém (com a capital palestina na parte oriental da cidade) e, se não a volta dos refugiados palestinos, pelo menos o pagamento de uma compensação para as famílias.

Apesar de declamar a fórmula de um acordo, Drucker não acredita que Netanyahu concordará em todos os pontos. "Acho que Bibi pode aceitar alguns dos temas, mas deixará as questões de Jerusalém e dos refugiados para mais tarde", diz. E é enfático ao afirmar que a participação do Hamas nas negociações está fora de questão. "Não há razão sequer para discutir esse tema, já que tanto Israel como o presidente Abbas recusam a participação do Hamas". O analista acha que Abbas pode voltar fortalecido do encontro, enfraquecendo o grupo que domina a Faixa de Gaza.

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Fonte: Especial para Terra
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