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Acordo de Everglades adia sonho de parque nacional na Flórida

9 mar 2010
12h44
atualizado às 12h47
Don Van Natta Jr.
Damien Cave
The New York Times

Quando o governador Charlie Crist anunciou o plano da Flórida de US$ 1,75 bilhão para salvar a região pantanosa de Everglades, por meio da compra de terras de uma grande proprietária, a U.S. Sugar, ele declarou que o acordo seria lembrado como uma aquisição pública "tão monumental quanto a criação do primeiro parque nacional dos EUA, Yellowstone".

Vista aérea das terras que pertencem a empresa U.S. Sugar, na Flórida; acordo adiou sonho de parque nacional
Vista aérea das terras que pertencem a empresa U.S. Sugar, na Flórida; acordo adiou sonho de parque nacional
Foto: The New York Times

Parado em meio ao pântano do Refúgio Nacional da Vida Selvagem Loxahatchee em junho de 2008, Crist disse, "não consigo ver presente melhor para Everglades, o povo da Flórida e o povo da América ¿ além do planeta ¿ do que tornar espaço público o elo perdido que representa a chave para uma verdadeira recuperação ambiental."

Quase dois anos depois, o plano ambicioso do governador de reaver o rio de grama, como a região pantanosa é conhecida, caminha para resgatar a fortuna da U.S. Sugar.

A proposta foi reduzida apenas cinco meses depois de seu anúncio. Em abril de 2009, em meio ao aprofundamento da recessão, o Estado da Flórida disse que poderia comprar apenas 72,8 mil acres (cerca de 29 mil hectares) das terras da U.S. Sugar, por US$ 536 milhões. A companhia continuaria funcionando e o Estado teria a opção de comprar os 107 mil acres restantes no futuro.

A U.S. Sugar ditou muitos dos termos do acordo, com autoridades estaduais repetidamente tomando decisões contra as necessidades imediatas de Everglades e os interesses dos contribuintes, segundo uma análise de milhares de mensagens de e-mail e registros do Estado e mais de 60 entrevistas.

Esforços para recuperar Everglades ganharam urgência na última década: o vasto pantanal subtropical, um ecossistema único, está morrendo por falta de água limpa. Muitos ambientalistas continuam convencidos de que o acordo de Crist com a U.S. Sugar, mesmo em sua forma reduzida, oferece a melhor esperança para Everglades.

Mas documentos e entrevistas sugerem que o preço e os termos do acordo poderiam atrasar a recuperação de Everglades em anos, ou até mesmo décadas.

As negociações vêm favorecendo a U.S. Sugar desde o começo, quando o Estado da Flórida aceitou a avaliação das terras da companhia feita por duas firmas externas, que usaram números da alta do mercado imobiliário, segundo documentos.

Quando o Estado encomendou um parecer para analisar se a avaliação havia sido justa, foi constatado que o valor das terras havia sido superestimado em US$ 400 milhões. Em resposta, autoridades da Flórida orquestraram uma campanha de relações públicas questionando a descoberta, segundo e-mails internos.

Avaliadores de propriedade do Departamento de Proteção Ambiental da Flórida, que deveria aprovar o acordo, também foram deixados de fora do processo quando levantaram preocupações, segundo mensagens de e-mail.

Quando chegou o momento de decidir quais terras comprar, as autoridades estaduais reconheceram que a U.S. Sugar ficou "praticamente no comando", como uma autoridade expressou em entrevista. O distrito de gestão de águas que supervisiona a recuperação da área vai acabar com seis lotes separados sob o acordo atual, incluindo os pomares de frutas cítricas da U.S. Sugar.

Autoridades estaduais reconheceram que parte da terra, que foi devastada por antracnose, uma doença botânica, não pode ser recuperada.

As autoridades defenderam as negociações, afirmando que elas foram apropriadas, já que a U.S. Sugar precisava de algumas extensões de terra cultivável para continuar suas operações.

Crist disse em entrevista que as autoridades haviam "tentado negociar o melhor acordo possível". Ele acrescentou, "temos o dever e a responsabilidade como bons gestores de entender que talvez nunca mais tenhamos essa oportunidade de novo, nunca mais".

Defensores do plano disseram que as terras possibilitariam que os governos estadual e federal construíssem reservatórios e sistemas de tratamento de água.

Mas para realizar isso seriam necessárias grandes reservas financeiras do Distrito de Gestão de Águas do Sul da Flórida, que supervisiona a recuperação e é financiado por contribuintes de 16 condados.

Documentos internos do distrito estipulam que o custo da recuperação possa chegar a US$ 12 bilhões e preveem que o distrito não terá qualquer quantia que chegue perto disso.

Enquanto isso, mais de uma dúzia de projetos em andamento como parte de um esforço de 10 anos de recuperação distrital e federal foram suspensos ou cancelados, devido à previsão do custo do acordo com a U.S. Sugar.

Entre eles, está um grande reservatório a oeste do condado de Palm Beach, que foi considerado um importante passo em direção à recuperação de Everglades. No total, US$ 1,3 bilhão já foi gasto nos projetos, segundo um documento interno do distrito de águas.

O ex-governador Jeb Bush, que iniciou a maior parte dos esforços, disse em entrevista que estava "profundamente decepcionado" com a decisão de Crist, seu sucessor e também republicano, dizendo que a decisão de interromper os projetos representava um atraso à recuperação.

"Substituir projetos que estavam em andamento por uma possibilidade de projeto que aconteceria daqui a décadas não é uma boa troca", Bush disse. "No fim das contas, parece que uma política ambiental baseada na ciência foi substituída por uma política ambiental de fachada."

A única coisa clara no acordo em sua forma atual é que os beneficiários imediatos seriam a U.S. Sugar, uma companhia privada com sede em Clewiston, Flórida, e seu escritório de advocacia, Gunster, que deverá ganhar dezenas de milhões de dólares em honorários por seu trabalho nos trâmites da venda, segundo executivos antigos e atuais da U.S. Sugar.

A venda, que deverá ser firmada em 31 de março, é uma tábua de salvação para a companhia, que começou as negociações num momento de profunda fraqueza; ela enfrentava um processo oneroso de um acionista, margens de lucro em declínio e um aumento da concorrência estrangeira. O acordo daria à companhia a chance de pagar quase todas as suas dívidas.

A U.S. Sugar tem uma defensora atipicamente poderosa, a firma de advocacia Gunster, de West Palm Beach, que representa a companhia desde 1990. O presidente da Gunster, George LeMieux, era chefe de gabinete de Crist quando o acordo foi concebido. LeMieux, que começou a trabalhar na firma de advocacia em 1994, voltou para a Gunster em janeiro de 2008, quando o acordo estava sendo renegociado.

Ele e Crist são amigos próximos, e o governador se referiu a LeMieux como o "maestro" de sua vitória nas eleições de 2006. Quando um assento no Senado americano ficou vago em 2009, Crist designou LeMieux para ocupá-lo. O governador está agora em campanha para o mesmo posto e em muitas ocasiões descreveu a compra da U.S. Sugar como a conquista que coroou sua administração.

LeMieux disse em entrevista que havia se recusado a participar das negociações com a U.S. Sugar enquanto era chefe de gabinete, para evitar conflitos de interesse. Ele disse que nunca havia discutido o acordo com Crist, algo "muito constrangedor" considerando a proximidade dos dois.

De volta à firma de advocacia, LeMieux enviou uma mensagem de e-mail em 18 de dezembro de 2008 para seu comitê de remuneração, dizendo que "não deveria receber" pela representação da U.S. Sugar realizada pela firma, segundo uma cópia da mensagem. H. William Perry, sócio-administrador da Gunster, disse que a firma concordou com o pedido. LeMieux disse que como presidente da firma, havia tido apenas "discussões administrativas" sobre o caso.

Rick J. Burgess, sócio da Gunster, disse ter conversado sobre o acordo com LeMieux na ocasião, para ouvir sua opinião.

LeMieux desempenhou um papel similar em relação a Kirk Fordham, que controla a poderosa Fundação Everglades. Fordham disse ter conversado duas ou três vezes com LeMieux quando o mesmo estava na firma de advocacia para obter atualizações sobre as negociações.

Para a U.S. Sugar, "é um acordo fantástico", disse um ex-executivo sênior da companhia, que descreveu seus colegas como "eufóricos".

"Não vou mentir para você - é um baita preço por aquelas terras", disse o executivo, que falou em condição de anonimato por ter assinado um acordo de confidencialidade. "Mas não é um negócio tão bom para Everglades. Se o distrito não tiver dinheiro depois da compra, então eles não vão conseguir realizar nenhum projeto de recuperação. Pode ser um desastre em formação."

Uma oferta do governador
Na Rota 27 em direção a Palm Beach, montes de rochas se estendem por mais de 1 km no local que se tornaria o maior reservatório criado pelo homem no planeta. Ocupando mais de 16 mil acres, ela armazenará água suficiente para encher 100 mil piscinas olímpicas.

O reservatório foi uma peça vital do projeto de recuperação de US$ 7,8 bilhões, elaborado pelo presidente Bill Clinton em 2000. Segundo o plano, reservatórios, pântanos e centenas de poços coletariam, limpariam e distribuiriam água pluvial a Everglades, onde diversas plantas e animais estão ameaçados de extinção.

Ambientalistas há muito tempo tentam recuperar o curso d¿água histórico, ou hidrovia, do sul do Lago Okeechobee, que atravessa a floresta e deságua na Baía da Flórida, um sonho que foi atrasado por mais de um século devido a sistemas de tubulação, dragagem e construções. A recuperação do curso d¿água dependia da aquisição das terras da U.S. Sugar e de sua principal concorrente, Florida Crystals, que se recusaram a vendê-las por anos.

O sistema de poços e reservatórios era uma maneira de contornar essa necessidade. Como muitos esforços de recuperação anteriores, no entanto, o plano Clinton encontrou obstáculos, entrando em conflito com interesses locais e não obtendo financiamento suficiente do governo federal.

Mesmo assim, em 2004, Bush conseguiu acelerar oito projetos; cerca de US$ 282 milhões foram gastos no reservatório gigante.

Mas em 2007, com um setor açucareiro em declínio tentando equilibrar suas contas e um novo governador desejando polir suas credenciais ambientais e nacionais, o destino de Everglades estava prestes a tomar outro rumo abrupto.

A dívida da U.S. Sugar naquele ano estava em mais de US$ 500 milhões, segundo antigos executivos, com o aumento de problemas operacionais e pressões da concorrência. A companhia estava em seu segundo ano de seca e foi ainda mais prejudicada por uma recente restrição do distrito de águas, que limitou um método de irrigação com o qual os produtores de açúcar contavam nas temporadas de seca.

Em 15 de novembro de 2007, dois lobistas da U.S. Sugar se encontraram no gabinete do governador com Crist e Eric Eikenberg, o vice-chefe de gabinete de LeMieux.

Os lobistas, J.M. Stipanovich e Brian Ballard, haviam apoiado a campanha de Crist para governador, e Ballard foi um de seus principais arrecadadores de fundos. A U.S. Sugar ainda sofria com a decisão do governo de limitar a irrigação.

"Foi uma visita para abrir os olhos e ouvidos deles à ideia de que muitas dessas decisões estavam afetando a sua subsistência", Malcolm S. Wade Jr., vice-presidente sênior da U.S. Sugar, disse em entrevista.

Na reunião, o governador anunciou que o Estado poderia estar interessado em comprar as terras da U.S. Sugar. Crist disse em entrevista que não se lembrava dos "detalhes" de quando ou como a ideia surgiu.

"Houve a sensação, ou uma comunicação indireta, de que eles poderiam estar dispostos a vender", disse o governador.

Wade disse que a companhia foi pega de surpresa. "Isso pegou todo mundo de surpresa", ele disse.

Para os membros da diretoria da U.S. Sugar, a oferta de Crist era atraente em parte porque eles consideravam que uma compra do governo seria muito mais lucrativa do que um acordo privado.

"Não era outra companhia se aproveitando da situação", Wade disse. "Eles sabiam que seriam valores de mercado justos."

Um obstáculo parece contornado
Quando o Estado começou a negociar seu plano ambicioso para salvar Everglades, atores centrais do acordo foram notavelmente deixados de fora.

Fora da mesa de negociações, segundo entrevistas e mensagens de e-mail, ficaram membros da tribo indígena Miccosukee, alguns dos quais moradores de Everglades; Florida Crystals Corp., a outra grande proprietária das terras da região; e as agências federais que são parceiras do Estado nos esforços de recuperação.

Advogados da tribo Miccosukee e da empresa Florida Crystals disseram que seus clientes apenas ficaram sabendo do acordo proposto com a U.S. Sugar alguns dias antes de ser anunciado ao público.

Defensores prováveis do acordo foram informados meses antes, incluindo Paul Tudor Jones II, um gestor bilionário de fundos hedge, filantropo e um dos fundadores da Fundação Everglades. O governador tinha uma relação amistosa com Jones, que havia contribuído com US$ 400 mil para o Partido Republicano do Estado ¿ sua maior doação individual já recebida. E Jones também tinha influência sobre outros grupos ambientalistas que ele e sua fundação ajudaram a financiar com milhões de dólares.

Enquanto as negociações transcorriam, ficou claro que o financiamento era problemático; o custo do acordo das terras havia inicialmente sido estimado em quase US$ 2 bilhões. Mas o distrito de águas já tinha se comprometido em gastar cerca de US$ 800 milhões num reservatório gigante nos arredores de Palm Beach. Não havia como financiar ambos.

Respondendo a uma mensagem de e-mail de outro ambientalista que afirmava que o governador precisava entender a ameaça que o reservatório representava à compra das terras da U.S. Sugar, Jones disse, "ele sabe disso e está fazendo o melhor que pode".

No entanto, interromper a construção do reservatório também representava um potencial desastre político.

Por isso, em 15 de maio de 2008, quando o acordo da U.S. Sugar ainda não havia vindo a público, a diretoria do distrito de águas suspendeu as obras do reservatório devido a "incertezas relacionadas a processos judiciais não resolvidos".

O litígio se referia a um processo aberto por grupos ambientais sobre o uso da água do reservatório. O anúncio surpreendeu esses grupos, que haviam deixado claro que não queriam a interrupção do projeto.

"Nós fomos um pretexto conveniente", disse Bradford H. Sewell, advogado de um dos grupos.

Houve consequências financeiras enormes. O distrito teve que pagar à empreiteira do reservatório uma multa de US$ 2 milhões mensais pela suspensão das obras. O distrito acabou pagando US$ 25 milhões em multas pelo cancelamento do contrato, além dos US$ 282 milhões que já havia gasto na construção.

As consequências da suspensão se acumulavam quando Shannon A. Estenoz, membro da diretoria consultiva do distrito que havia integrado a diretoria da Fundação Everglades, entrou em contato com Jones.

Em um e-mail de 21 de maio, Estenoz pediu que Jones mandasse uma mensagem ao governador: "para seu conhecimento apenas, nossa decisão de interromper a construção é por si só completamente justificável sem o acordo da U.S. Sugar, mas após o término do litígio, nossas razões legítimas para a demora acabam", disse ela. "A mensagem ao governador é que temos até o final de junho no máximo."

Em 24 de junho de 2008, com a Flórida já vivenciando uma recessão e com o preço de propriedades afundando, Estenoz estava ao lado do governador em Everglades quando ele divulgou o acordo de US$ 1,75 bilhão. Celebrações locais e extensas manchetes nacionais vieram a seguir.Politicamente, o momento era perfeito. Crist estava na lista de possíveis companheiros de chapa do senador John McCain, o presumido candidato republicano à presidência.Ellen Simms, ex-superintendente da U.S. Sugar que encara o acordo com ceticismo, disse que, apesar do alto custo para os contribuintes, foi difícil questioná-lo naqueles primeiros dias. "Quem pode ser contra?", disse ela. "Isso salvaria Everglades. Seria como se opor à maternidade e à torta de maçã."Alguns chegaram a se manifestar. A tribo Miccosukee rapidamente ajuizou uma ação, dizendo que a aquisição atrasaria a recuperação da região. "Essa é a garantia de morte para Everglades", disse Dexter Lehtinen, advogado da tribo. "Isso suga todo o dinheiro dedicado a projetos em andamento."A Florida Crystals considerou o acordo uma compra da U.S. Sugar com dinheiro do contribuinte e pareceu frustrada por ficar de fora. Parte de sua terra, na verdade, era necessária para recriar o curso d¿água em Everglades, o que Crist chamou de "o elo perdido" da recuperação.Entrevistas e documentos anteriormente não revelados mostraram que a Florida Crystals havia feito duas ofertas para participar do acordo. Mas com a resistência da U.S. Sugar em ter sua concorrente envolvida, as conversas com o gabinete do governador não avançaram."Por alguma razão, eles não estavam dispostos a negociar de uma forma que nos levasse a um acordo", disse Crist em entrevista. "A U.S. Sugar estava. Fim da história."Surpresas e obstáculos se acumulam
A crescente crise financeira no verão americano de 2008 rapidamente mudou o escopo do acordo. Em 11 de novembro de 2008, Crist anunciou uma aquisição menor de US$ 1,34 bilhão por apenas pouco mais de 180 mil acres de terras da U.S. Sugar, mas desta vez sem incluir seus outros patrimônios.

Numa coletiva de imprensa, Crist chamou o novo acordo de "milagroso".

Pelo menos para a U.S. Sugar, parecia ser o caso. David Guest, advogado ambiental que se manifestou a favor do plano de aquisição total, disse que o principal negociador do Estado, Michael W. Sole, secretário do Departamento de Proteção Ambiental da Flórida, havia cedido demais para a U.S. Sugar.

"Armaram para ele", disse Guest. "Ninguém acreditou quando ele voltou e contou o que havia feito."

Sole disse em entrevista que fez o melhor acordo que conseguiu.

Mas documentos internos do distrito revelam que a terra foi supervalorizada pelas duas firmas que executaram as avaliações independentes. As duas se basearam em números de 2004 a 2008, quando a especulação do mercado imobiliário fez os preços dispararem.

Se os preços da época fossem usados, o Estado pagaria bem menos. Por exemplo, embora o distrito de águas tenha concordado em pagar à U.S. Sugar quase US$ 7 mil por acre de terras de frutas cítricas, o terreno atualmente é vendido por US$ 4 mil o acre, segundo avaliadores independentes entrevistados.

As firmas de avaliação usadas pelo distrito ¿ Anderson & Carr, de West Palm Beach (Flórida), e Sewell, Valentich, Tillis & Associates, de Sarasota ¿ entregaram números quase idênticos por volta de US$ 1,3 bilhão, uma raridade que levantou suspeitas.

"Quando ouvi aquele valor, não consegui engolir ¿ era um número inacreditável", disse Woody Hanson, avaliador de propriedade de Fort Myers com extensa experiência em Everglades. "Então fui investigar mais de perto as avaliações para checar se eram razoáveis e, nossa, de jeito nenhum aquilo faz sentido para os contribuintes."

Nenhuma das firmas de avaliação usadas pelo distrito quis comentar.

Eric Buermann, presidente da diretoria consultiva do distrito, defendeu as avaliações, mas reconheceu que os valores eram antigos. "No momento em que precisávamos tomar a decisão", disse ele, "esses eram os melhores e mais recentes números disponíveis".

Ainda assim, quando as avaliações foram atualizadas em 2009, elas ainda se baseavam nos preços de venda de 2004 a 2006, demonstram documentos. Segundo funcionários do distrito, os avaliadores garantiram que os preços haviam estabilizado.

Em entrevista, Crist disse que os críticos das firmas avaliadoras subestimam o valor ambiental do terreno.

Mas os avaliadores do Departamento de Proteção Ambiental da Flórida também questionaram os métodos das duas firmas. De acordo com um e-mail interno, Thomas Porter, um dos avaliadores do departamento, não daria seu aval obrigatório dentro do prazo.

Em resposta, os advogados da U.S. Sugar, do escritório Gunster, convenceram o distrito de águas a mudar o contrato para que a aprovação do departamento não fosse mais necessária, revelam documentos.

Alguns dias depois da coletiva de imprensa de Crist em novembro, o distrito de águas recebeu a informação de que a firma contratada para emitir um parecer avaliando a integridade do acordo também havia concluído que a terra valia muito menos.

A firma, Duff & Phelps, com sede em Manhattan, estimou o valor da propriedade da U.S. Sugar em US$ 930 milhões, cerca de US$ 400 milhões menos do que o distrito pagaria.

Quando a conclusão da firma chegou ao distrito, os diretores consultaram Sole, o secretário de Proteção Ambiental, sobre a melhor forma de responder. O momento era crítico, porque o conselho do distrito votaria a aquisição de US$ 1,34 milhão em menos de um mês, em meados de dezembro.

Os diretores que haviam encomendado o parecer da Duff & Phelps, a um custo de US$ 1,5 milhão, passaram a se movimentar para reduzir seu impacto. E-mails internos mostram que as respostas preparadas pelo distrito para repórteres foram enviadas a Eikenberg, vice-chefe de gabinete de Crist, assim como a diversos importantes ambientalistas.

¿O parecer não é uma avaliação e não fornece uma conclusão sobre o valor da aquisição em relação a seus propósitos públicos", dizia a nota do distrito.

O vice-diretor-executivo para governo e assuntos públicos do distrito de águas redigiu os pontos de controvérsia. ¿Observação: existem opiniões diferentes sobre o mérito desses pareceres entre as comunidades acadêmica e empresarial¿, escreveu o diretor de assuntos públicos no e-mail.

Robert E. Coker, vice-presidente da U.S. Sugar, foi mais franco, caracterizando publicamente a Duff & Phelps como "Huguinho, Zezinho e Luisinho". Ele argumentou que a Flórida estava pagando uma pechincha, dizendo que "o Estado está levando o diamante Hope pelo preço de zircônio".

A compra do terreno era apenas o começo. Uma apresentação preparada pelo distrito sobre as obras e projetos de recuperação detalhou estimativas que colocavam o esforço em US$ 8,6 bilhões, num caso, e US$ 12,3 bilhões, em outro, de acordo com documentos obtidos pelo New York Times.

Mesmo na estimativa mais baixa e com apoio do governo federal, o distrito teria dificuldades para arcar com os custos. Os detalhes do acordo começaram a preocupar membros do conselho distrital e ambientalistas.

Surgiu então um improvável defensor. George LeMieux, apesar de insistir que não tinha relação com o acordo, apareceu em uma conferência legal em Deerfield Beach e ofereceu "um relato de alguém inteirado" a respeito da recuperação de Everglades.

Em um discurso programático que não foi coberto pela imprensa local, LeMieux descreveu o acordo da U.S. Sugar como "uma oportunidade sem precedentes, que vai realmente mudar as regras do jogo".

¿Estamos realmente na interseção da oportunidade e da possibilidade¿, disse ele. "Temos uma oportunidade histórica para mudar a imagem de Everglades e de nosso meio ambiente com essa aquisição de terras da U.S. Sugar."

Adiando o sonho
Na região oeste do condado de Hendry, na Rodovia Estadual 833, encontramos o Devil's Garden, um pomar de laranjas de 5,5 mil acres. A terra é alta e de solo arenoso ¿ uma combinação longe do ideal para a recuperação de Everglades.

Thomas Van Lent, hidrologista da Fundação Everglades, disse não fazer ideia de por que o Estado havia concordado em adquirir o terreno como parte do acordo.

Wade, vice-presidente sênior da U.S. Sugar, faz. "Compre tudo", afirmou ter dito ao Estado. "Não quero ter que ficar com só uma parte do pomar."

Uma avaliação ambiental apresentada ao distrito revelou que 49 mil acres do terreno da U.S. Sugar estavam contaminados por altos níveis de cobre, DDT, selênio e outras substâncias químicas. Os documentos mostram que a presença de arsênico está acima dos níveis aceitáveis para a saúde humana em mais de seis mil acres de terra.

Buermann, o presidente da diretoria consultiva do distrito, disse que o Estado não teve muita opção além de deixar que a U.S. Sugar escolhesse o que desejava vender.

"Você precisa entender que depois que o acordo foi reduzido e nós não compraríamos mais a usina de açúcar ou os ativos, a U.S. Sugar teve que se preocupar com quais terras poderia perder para manter seu negócio funcionando", disse ele. "É compreensível que eles estivessem praticamente no comando de quais terras estariam dispostos a vender."

Como outros defensores, Buermann comparou o acordo à compra do Alasca por William Sweard, declarando que a história celebraria a aquisição.

"A pergunta é, podemos usar aquela terra, e a resposta é sim", disse ele. "Se pudéssemos escolher, essas terras não seriam as primeiras em nosso inventário, mas isso não significa que elas não sejam valiosas."

Em abril de 2009, Crist anunciou uma segunda redução no acordo, segundo ele, novamente uma exigência da crise na economia do Estado. O distrito compraria agora 72,8 mil acres por US$ 536 milhões. As críticas afirmam que quanto menor fica o acordo, melhor a situação da U.S. Sugar.

Sob os termos do novo acordo, a U.S. Sugar vai poder continuar cultivando parte da terra por pelo menos sete anos. Como resultado, especialistas ambientais acreditam que a situação em Everglades irá piorar no curto prazo.

"O que temos é só mais um passo na categoria postergação", disse Alan Farago, presidente de conservação dos Amigos de Everglades.

As críticas de outros ambientalistas, porém, foram silenciadas. Alguns reconhecem as preocupações, mas não querem dizer nada que possa ajudar a aniquilar o que seria a maior aquisição de terras já feita em Everglades. Com a opção em aberto de o Estado comprar o restante das terras da U.S. Sugar, ainda resta o apego romântico ao sonho de um rio natural recuperado do lago Okeechobbe à baía da Flórida.

"Toda a ideia de adquirir mais terras da área agrícola de Everglades sempre foi muito difícil no passado", disse John H. Hakinson Jr., presidente do conselho de diretores do santuário de pássaros Aubudon of Florida. "E isso está impregnado na cabeça das pessoas envolvidas."

Mesmo se o acordo avançar, pode levar uma geração inteira para Everglades conseguir o que precisa.

Buermann disse que o distrito de águas ainda analisa se conseguirá pagar os US$ 536 milhões e vai debater o assunto em uma reunião de dois dias do conselho a partir de quarta-feira. Crist recentemente indicou dois novos membros para o conselho de águas, ambos defensores da compra.

Em entrevista telefônica em 26 de fevereiro, enquanto atravessava Everglades na rodovia conhecida como Alligator Alley, o governador disse que os críticos do acordo levantam "todo tipo de razão para não fazer alguma coisa".

"Mas o que eles estão fazendo para tentar preservar Everglades além de reclamar?", disse. "O que eles estão fazendo de produtivo para avançar e preservar esse tesouro nacional que não existe em nenhum outro lugar na face da Terra? Nada além de reclamar. Caso encerrado."

Tradução: Amy Traduções

The New York Times
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