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18 de julho de 2012 • 18h07 • atualizado às 19h27

Entenda o conflito na Síria

BBC Brasil prepara série de perguntas e respostas sobre detalhes da crise que atinge o país.

 

Poucos dias após o confronto armado entre as forças pró-governo e opositores ter chegado à capital do país, Damasco, um atentado suicida atingiu nesta quarta-feira o centro nervoso do regime de Bashar al-Assad, causando a morte de alguns dos principais nomes de sua cúpula de segurança.

Segundo a imprensa estatal síria, morreram no ataque o ministro da Defesa do país, general Dawoud Abdelah Rayiha, seu vice-ministro, general Assef Shawkat (cunhado de Assad), e o general sírio Hassan Turkmani, chefe do grupo governamental encarregado da crise, ex-ministro da Defesa e até então assistente do vice-presidente.

Outros membros importantes do governo sírio também teriam ficado "gravemente" feridos, como o ministro do Interior, Mohammad Ibrahim al-Shaar, e o o chefe do serviço de Inteligência, Hisham Ikhtiar.

Analistas já consideram a investida contra o alto escalão do governo como um prenúncio da derrocada do regime.

Veja abaixo um série de perguntas e respostas sobre o conflito na Síria.

Como os protestos começaram?

As manifestações contra o governo começaram na cidade de Deraa, no sul da Síria, em março de 2011, quando um grupo de pessoas se uniu para pedir a libertação de 14 estudantes de uma escola local.

Os alunos haviam sido presos e supostamente torturados por terem escrito no mural do colégio o conhecido slogan dos levantes revolucionários na Tunísia e no Egito: "As pessoas querem a queda do regime".

O protesto reivindicava maior liberdade e democracia na Síria, mas não a renúncia do presidente Bashar al-Assad.

A manifestação, pacífica, foi brutalmente interrompida pelas forças do governo, que abriram fogo contra os opositores, matando quatro pessoas.

No dia seguinte, em meio ao funeral das vítimas, o governo sírio fez uma nova investida contra os moradores de Deraa, causando a morte de mais uma pessoa.

A reação desproporcional do governo acabou por impulsionar o protesto para além das fronteiras de Deera.

Cidades como Baniyas, Homs e Hama, além dos subúrbios de Damasco, juntaram-se a partir desse episódio aos protestos contra o regime.

Quantas pessoas já morreram? Qual a extensão dos estragos?

Segundo a ONU, mais de 9 mil pessoas foram mortas por forças de segurança e, pelo menos, outras 14 mil foram presas.

Já o governo estima o número de mortos em cerca de 4 mil - aproximadamente 2,5 civis e o restante integrantes das forças de segurança.

O que pedem os manifestantes? O que conseguiram até o momento?

Inicialmente, a principal reivindicação dos manifestantes era por um sistema político mais democrático e maior liberdade de expressão em um dos países mais repressivos do mundo árabe.

Contudo, ao passo em que as forças pró-governo abriram fogo contra protestos originalmente pacíficos, os opositores ao regime começaram a pedir a renúncia do presidente Bashar al-Assad.

Assad, por outro lado, afirmou que não deixaria o poder, porém, nas poucas declarações públicas que fez desde o início do conflito, o presidente sírio anunciou algumas concessões e prometeu reformas.

Como resultado, o estado de sítio, que durou 48 anos, foi abolido em abril de 2011 e uma nova Constituição, propondo eleições multipartidárias para além do partido dominante Baath, foi aprovada mediante um referendo em fevereiro deste ano.

O governo também alega que concedeu anistia a presos políticos. Na versão oficial, milhares foram libertados, mas cerca de 37 mil ainda permanecem trancafiados nas penitenciárias do país, segundo agências humanitárias.

Para ativista de oposição, as promessas de Assad têm pouco efeito diante da violenta repressão que continua a ser imposta pelo regime.

Existe uma oposição organizada?

As autoridades sírias sempre restringiram a atuação de partidos políticos de oposição e ativistas. Por essa razão, analistas avaliam que esses grupos tiveram um papel pouco preponderante na eclosão do levante popular.

Porém, à medida que as manifestações ganharam contornos nacionais, os grupos de oposição começaram a declarar seu apoio às reivindicações dos manifestantes e, em outubro do ano passado, anunciaram a formação de uma frente unida, o Conselho Nacional Sírio (CNS), composto, em sua maioria, pela comunidade de muçulmanos sunitas, há décadas perseguida por Assad.

O CNS é liderado pelo dissidente sírio Burhan Ghalioun, atualmente radicado em Paris, e pela Irmandade Muçulmana.

A principal frente de oposição síria, no entanto, não conta com o apoio dos cristãos e dos alauítas (minoria muçulmana à qual pertence Assad), que, juntos, correspondem a 10% da população síria e até agora têm se mantido leais ao governo.

A primazia do CNS, todavia, tem sido desafiada pelo Comitê de Coordenação Nacional (CCN), um bloco de oposição liderado por antigos dissidentes do regime, alguns dos quais são avessos à presença de islamitas no CNS.

A desunião frustou a comunidade internacional. Em meados de março deste ano, os grupos de oposição concordaram em colocar suas diferenças de lado e se comprometeram a atribuir ao CNS o papel "de interlocutor e representante formal da população síria".

Ainda assim, a frente de oposição tem tido dificuldade de angariar o apoio do Exército Livre Sírio (ELS), que reivindicou a autoria do atentado contra a cúpula de segurança de Assad.

O ELS tem sede na Turquia e, equipados com melhor armamento, apesar de inferior ao do governo, tem lançado uma série de ataques contra as forças de segurança do regime.

O líder do ELS, Riyad al-Asaad, afirma que suas tropas somam 15 mil homens, ainda que estimativas oficiais deem conta de que o número não passa de 7 mil.

Quem apoia Assad?

Assad é apoiado majoritariamente pela minoria alauíta, da qual faz parte, e por cristãos, que temem perseguições religiosas.

A maioria dos opositores, entretanto, é de origem sunita, que já foi massacrada pelo regime no início dos anos 1980.

Qual a posição da comunidade internacional?

Especialistas apontam a Síria como um dos países mais importantes do Oriente Médio, uma vez que temem um "efeito-ricochete" em nações vizinhas devido à proximidade do governo de Assad com grupos como o Hezbollah, no Líbano, e o Hamas, nos territórios autônomos da Palestina.

O país também é um dos principais aliados do Irã, arqui-inimigo dos Estados Unidos, de Israel e inclusive da Arábia Saudita, o que pode levar qualquer conflito armado na região a uma crise de grandes proporções internacionais.

A Liga Árabe inicialmente permaneceu em silêncio diante do conflito, mas acabou impondo sanções econômicas à Síria em uma tentativa de forçar Assad a renunciar ao poder.

Em janeiro de 2012, a entidade divulgou um ambicioso plano de reforma política para a Síria, que propunha a substituição do presidente sírio pelo seu vice-presidente, o início das conversas com setores da oposição e, finalmente, a convocação de eleições multipartidárias supervisionadas por observadores internacionais.

A Liga pediu então apoio do Conselho de Segurança da ONU. Mas a resolução elaborada pelas Nações Unidas, que propunha, em última análise, uma intervenção militar, foi vetada pela China e pela Rússia, que possui laços militares e econômicos estreitos com a Síria.

Em 12 de março deste ano, após aproximadamente um mês de intensos bombardeios na cidade de Homs que deixaram mais de 700 mortos, ao norte de Damasco, a ONU e a Liga Árabe enviaram Kofi Annan, o ex-secretário-geral do organismo multilateral, ao país.

Annan propôs a Assad um plano de paz com seis pontos, que reivindicava, entre outras coisas, um cessar-fogo entre todas as partes e a libertação de presos. Assad, por sua vez, concordou com o plano no dia 27 do mesmo mês, apesar do ceticismo mundial. A violência, no entanto, não cessou.

Recentemente, o Brasil, que havia se posicionado contra a intervenção estrangeira, subiu o tom das críticas em comunicados divulgados pelo Itamaraty, condenando o massacre de civis.

Qual o papel da Rússia no conflito?

A Rússia tem ligações econômicas e militares estreitas com a Síria. Segundo o Instituto Internacional de Pesquisas para a Paz de Estocolmo (SIPRI, na sigla em inglês), sediado na Suécia, o país liderado por Vladimir Putin é o principal fornecedor de armas ao governo de Assad, seguido pelo Irã.

Mas, na análise do comentarista político Konstantin von Eggert, da rádio russa Kommersant, ao apoiar Damasco, o Kremlin diz ao mundo que nem a ONU ou qualquer outro grupo de países tem o direito de dizer quem pode ou não governar um Estado soberano.

Segundo o comentarista, desde a queda de Slobodan Milosevic, até então presidente da extinta Iugoslávia, em 2000, e especialmente depois da "Revolução Laranja" de 2004 na Ucrânia, a liderança russa é obcecada pela idéia de que os Estados Unidos e a União Europeia arquitetam a queda dos governos que, por algum motivo, julgam inconvenientes.

Eggert avalia que Putin e sua equipe temem que algo parecido possa também acontecer na Rússia.

Além disso, diz o comentarista, a crise líbia no ano passado teria reforçado a desconfiança russa sobre a retórica humanitária ocidental, que não passaria, segundo Moscou, de "camuflagem para a troca de regimes".

Muitos dirigentes russos, incluindo Putin, consideram a abstenção do então presidente Medvedev na votação do Conselho de Segurança da ONU que autorizou uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia um desastre.

A Al-Qaeda está envolvida no conflito?

Em entrevista à BBC, Nawaf al-Fares, ex-embaixador da Síria no Iraque e até agora o político mais importante ligado ao governo de Assad a ter desertado, disse que o regime colaborou com militantes sunitas da rede Al-Qaeda em uma série de atentados atribuídos às forças opositores ao governo sírio.

Fares também afirmou que a Síria possui um grande estoque de armas químicas de destruição em massa e que Assad não descartaria usá-las caso sua queda fosse prenunciada.

A alegação, no entanto, causa surpresa, uma vez que Assad é da minoria alauíta (um ramo do islamismo xiita). Mesmo assim, Fares afirmou que "há suficiente evidência na história de que muitos inimigos se unem quando há um interesse comum".

"A Al-Qaeda está buscando espaço para atuação e novas fontes de apoio, ao passo que o regime quer encontrar formas de aterrorizar a população síria", disse o ex-embaixador de Assad à BBC.

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