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Quinta, 13 de novembro de 2008, 09h39

Turquia se oferece como mediador entre EUA e Irã

Sabrina Tavernise

A Turquia quer funcionar como mediadora entre o novo governo Obama e o Irã, e usar seu papel cada vez mais influente no Oriente Médio para reduzir a distância entre o Ocidente e a região, disse Recep Tayyip Erdogan, o primeiro-ministro turco.

Erdogan declarou em entrevista no domingo que a eleição de Barack Obama abre novas oportunidades para promover uma mudança no relacionamento entre os Estados Unidos e o Irã, vizinho da Turquia. Obama declarou em sua campanha que consideraria a possibilidade de negociar com o Irã, algo que o governo Bush há muito se opõe.

Erdogan descreveu o bilhete de congratulação enviado pelo presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad a Obama como "um passo que precisa ser aproveitado".

"Estamos prontos para mediar", disse Erdogan, que estava se preparando para ir aos Estados Unidos, onde participará de uma conferência de cúpula sobre a crise econômica mundial. "Esperamos que essas questões possam ser resolvidas na mesa de negociações. Em nossa era, guerra nunca é solução". A Turquia teme o isolamento político e econômico do Irã, que serve como sua segunda mais importante fonte de energia, depois da Rússia. O país também deseja evitar um novo conflito militar em suas fronteiras.

"Eles temem muito o que poderia acontecer", disse um funcionário ocidental que pediu que seu nome não fosse mencionado porque não está autorizado a comentar sobre o assunto publicamente. "Não querem uma repetição do que aconteceu no Iraque".

A Turquia argumenta que ocupa posição única para facilitar as negociações entre Washington e Teerã. O país é membros da Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan), e faz parte do Conselho de Segurança das Nações Unidas desde outubro. Trata-se de um país muçulmano que renovou suas relações com os vizinhos no Oriente Médio, nos últimos anos, e em maio obteve uma importante vitória diplomática ao reunir Israel e Síria para negociações pela primeira vez em muitos anos.

Mas funcionários ocidentais expressaram ceticismo quanto à possibilidade de que a Turquia, parte de uma aliança ocidental, possa encontrar sucesso como mediadora imparcial entre Washington e Teerã.

O relacionamento entre Turquia e Irã é complexo. Os dois países têm laços culturais e no setor de energia, mas competem por influência política na região. E apesar da influência islâmica sobre o governo de Erdogan, a Turquia tem uma constituição laica e profundas diferenças ideológicas com o Irã.

"Eles sabem que mediar entre o Ocidente e o Irã é realmente arriscado", disse o funcionários ocidental. "Isso vai colocá-los na posição errada". Ainda assim, com um novo governo nos Estados Unidos e um presidente eleito que declarou sua intenção de promover grandes mudanças de política externa, pode haver oportunidades.

"O gelo vai começar a mudar, de novo, e de formas interessantes e diferentes", disse o funcionário.

Criada nos anos 20, a Turquia inicialmente cortou relações com os países muçulmanos vizinhos, e chegou a substituir o alfabeto árabe pelo latino. Ao longo de toda a guerra fria, o país se manteve como aliado firme dos Estados Unidos, mas nunca exerceu grande influência internacional.

Desde que o partido de Erdogan chegou ao poder, em 2002, porém, a Turquia recebeu visitas oficiais de presidentes, primeiros-ministros e reis de pelo menos seis países do Oriente Médio, entre os quais Arábia Saudita, Iraque, Síria e Catar. Ahmadinejad visitou o país este ano.

Os países vizinhos hoje respondem por 30% do comércio externo turco, ante 8% antes da eleição do partido de Erdogan, diz Ahmed Davutoglu, o principal assessor de política externa do primeiro-ministro. "Nosso princípio em política externa é que somos contra fazer inimigos", disse Erdogan.

O governo também está expandindo sua presença fora da região - vai abrir 15 embaixadas na África - e está tentando repensar seus relacionamentos domésticos. Em outubro, funcionários turcos conversaram com Massoud Barzani, o líder do enclave curdo no norte do Iraque, algo que seria impensável um ano atrás.

"Não é mais um país que toma decisões com base no efeito que teriam no Ocidente", disse Soner Cagaptay, pesquisador do Instituto Washington de Política do Oriente Próximo.

Davutoglu afirmou que uma política externa diversificada fazia sentido, e que ela não significava que a Turquia planeja abandonar suas alianças. "Ninguém deve se enganar e pensar que o Oriente Médio agora importa mais que a Otan, para nós - não é o caso", ele disse. "Ganhar influência no Oriente Médio nos ajuda na Europa, e ajuda a Otan".

Houve acidentes de percurso, como uma visita de líderes do grupo palestino militante Hamas em 2006, mas a Turquia recuou diante dos protestos de Israel e de Washington.

"Eles são prestativos", disse o funcionário ocidental sobre a Turquia. E embora o envolvimento diplomático com o Irã esteja longe do sucesso, ele afirma que "poderia ajudar se um país muçulmano tentar influenciar o Irã a mudar de rumo".

Erdogan diz que a eleição de Obama oferece aos Estados Unidos a chance de reconquistar a confiança do mundo e recuperar "uma imagem que foi perdida". Ele afirmou que os Estados Unidos "declararam certos valores firmemente no começo do século XII, mas em lugar de avançar rumo a eles, recuaram".

"Para mim", disse o primeiro-ministro, "é importante colocar esses valores em prática". Erdogan, que está completando seu sexto ano de governo, ofereceu um conselho a Obama: "Mantenha a firmeza, mas não se envolva em brigas".

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times

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