
Corine Lesnes
No bairro em que ela vive, em Chicago, há quem diga que Michelle Obama não é mais a mesma. Em momentos normais ela costuma ser "extraordinariamente sarcástica", disse Barbara Engel, uma de suas vizinhas. "Mas agora já não pode ser ela mesma".
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Em dois anos de campanha, Michelle se adocicou, atendendo às necessidades do momento. Fez campanha pelo marido em ambientes considerados seguros e, em lugar de falar em política, em lugar de apelar à sua audiência para que esta reclamasse seu lugar à mesa da democracia, se concentrou em falar nas filhas, contar histórias sobre a família, evitar polêmicas, como no final de outubro, quando seu marido adquiriu um bloco de 30 minutos nas redes de TV norte-americanas para exibir sua propaganda eleitoral. Michelle, que havia sido convidada a dar entrevista em um programa jornalístico de tom humorístico, disse que Malia, 10 anos, a mais velha de suas duas filhas, tinha ficado zangada com o atraso na exibição de seu programa preferido.
Formada pela Universidade Harvard, como seu marido, Michelle Obama, 44 anos, não demorou nada a compreender que sua missão na campanha não seria a de testemunhar em defesa do avanço das causas femininas, e sim a de reconfortar os eleitores. De convencê-los a considerar "normal a idéia de que poderiam vir a ter uma primeira dama negra", como disseram alguns dos assessores de Michelle ao jornal New York Times. Nas semanas finais de campanha, ela dedicou apenas um terço de seu tempo aos eventos políticos e viagens, mas compensou essa ausência por meio de entrevistas a revistas familiares com o objetivo de convencer todos os leitores de que sua prioridade na vida são as filhas. "As pessoas não estão acostumadas a lidar com mulheres negras dotadas de um nível de educação tão elevado.
As mulheres negras ainda são vistas nos Estados Unidos como pessoas de posições subalternas, como aquelas que ajudam", comenta o professor Mark Sawyer, diretor do Centro de Estudos de Raça, Etnia e Política da Universidade da Califórnia em Los Angeles, acrescentando que "até mesmo Oprah Winfrey (uma estrela da televisão norte-americana) é vista assim, com um programa que em última análise tem por objetivo ajudar as mulheres em sua vida cotidiana. Sempre que ela sai desse papel, termina criticada". Michelle Obama terá de enfrentar o mesmo obstáculo. Sempre que se mostrou tal como realmente é, causou inquietação. "Existia desde o começo uma certa falta de simpatia com relação a ela. Se ela se mostrava séria, as pessoas a viam como 'zangada', como uma pessoa que não sabe o seu lugar", diz Sawyer.
Como Hillary Clinton em 1992, as ambições de Michelle eram vistas como defeitos. Ao contrário da predecessora entre as primeiras damas democratas, ela não interferia com a estratégia da campanha do marido, mas tinha o ar de "querer a Casa Branca tanto quanto seu marido", como definiu a revista Newsweek durante as primárias democratas.
Michelle Obama cresceu no South Side, a área negra no sul de Chicago, em um apartamento pequeno. A família de quatro pessoas vivia apertada no apartamento de dois quartos. Seu pai, Frazer Robinson, funcionário da prefeitura, trabalhou a vida toda apesar de sofrer de esclerose múltipla.
Marian, sua mãe, era secretária e cuidava das crianças. Michelle não foi a primeira de sua classe, mas conseguiu admissão na Universidade de Princeton em 1981 - menos por força dos programas de "ação afirmativa" discriminação positiva do que por o seu irmão, Craig, ter se tornado um dos astros na equipe de basquete da universidade, ela supõe.
Michelle tem 1,82 metro, mas não se dedicou ao esporte, exatamente por ser "alta, negra e atlética", como explicou um de seus antigos professores à revista New Yorker. E não se envolveu em esportes coletivos porque "passa mal quando perde", ela diz. Em Princeton, seu irmão Craig, hoje técnico de basquete, conta, ela costumava discutir com os professores de francês, reclamando que eles não propunham trabalhos práticos suficientes. "Finja que não a conhece", foi o conselho da mãe diante das queixas dele.
O campus ainda era bastante monocromático. Michelle se sentia "uma visitante". A tese de sociologia que defendeu tratava da divisão racial - a maneira pela qual os estudantes negros incorporavam "a estrutura social e cultural branca" ao longo de seus anos de estudos, perdendo a identificação com sua comunidade de origem.
Os Obama solicitaram que a universidade mantivesse a tese em sigilo no período de campanha presidencial. Mas, diante da insistência da imprensa, Michelle decidiu que permitiria a publicação do texto, que revela um ceticismo, uma quase amargura, diametralmente opostos à sensação que Barack Obama desperta. A conclusão do trabalho era a de que seu diploma na universidade permitiria que ela se instalasse "na periferia da sociedade", da qual "jamais viria a ser participante plena".
Depois de Princeton, Michelle estudou Direito na Universidade Harvard. De lá, ela percorreu um caminho comum para a elite "branca" e se tornou advogada em um dos grandes escritórios de Chicago, no qual estava encarregada de casos de propriedade intelectual. Nada de muito estimulante até o dia, em 1989, em que seu chefe a encarregou de cuidar de um estagiário recém-chegado de Harvard, um tal Barack Obama. O casal contou em detalhes como se conheceram. No começo, ela tentou resistir, mas certa noite, depois de assistirem a um filme de Spike Lee no cinema, os dois se beijaram em uma sorveteria na rua 53 (hoje substituída por uma gráfica rápida).
Barack Obama não tinha elos firmes na cidade. Suas referências eram os distantes Havaí e Indonésia. Ele não havia conhecido a geração que lutou contra a segregação racial. Michelle permitiu que ele deitasse raízes sólidas no South Side. "Desde Oscar de Priest, jamais houve melhor trampolim para uma carreira política", explica o historiador Edward Frantz, em referência ao primeiro negro a ser eleito para o Congresso dos Estados Unidos em um dos Estados do norte do país, em 1928. Michelle deu a Barack não só uma família como um clã.
Depois de começar a namorar com ele, Michelle deixou o emprego no setor privado e passou a trabalhar para a prefeitura da cidade, onde foi recrutada por Valerie Jarrett, chefe de gabinete do prefeito, que se tornou a confidente do casal e hoje é uma das principais assessoras de Obama. Em seguida, Michelle foi contratada pelo hospital universitário da cidade, do qual era, até o início da campanha eleitoral, vice-presidente encarregada de relacionamento com a comunidade.
Michelle Obama está acostuma da a ser alvo de olhares críticos. Os jornais de Chicago apontam que seu salário foi subindo na mesma proporção que a carreira de seu marido ascendia, e que ela teve um aumento de US$ 121 mil em 2004 para US$ 317 mil em 2005, um ano depois que ele foi eleito senador.
Quando Michelle falou, na campanha, sobre o fato de o casal ter terminado de pagar pouco tempo antes seus empréstimos educacionais, os críticos rapidamente apontaram para o fato de que eles viviam há três anos em uma casa de US$ 1,65 milhão (que só puderam comprar graças aos livros do candidato, que se tornaram best sellers).
Michelle agora está investida de um papel histórico na sociedade norte-americana. "Por uma vez, temos uma perspectiva sobre uma família negra que se opõe aos estereótipos: eles são muito disciplinados, as crianças são a prioridade do casal e a educação é levada muito a sério", diz Sawyer. "Ela faz o jogo que precisa fazer, mas não acredita nele do fundo de seu coração".
Em dados momentos, Michelle se comporta espontaneamente, como quando subiu ao palanque ao final de um discurso do marido e o cumprimentou com um toque de punhos, como se tivesse esquecido que havia outras pessoas contemplando a cena. Isso também contraria os clichês, diz Sawyer, já que Hollywood raramente mostra um casal negro exibindo comportamento afetuoso. "Mas ela ainda se vê como a menina do South Side que acordava às cinco da manhã para fazer a lição de casa (e ainda hoje seu marido ocasionalmente se levanta às quatro e meia para poder se exercitar)", ele aponta.
Como Obama, Michelle ressalta a improbabilidade de sua história: "Sou uma singularidade estatística - uma mulher negra do South Side... Não deveria estar onde estou", diz. Mas ela se tornará a primeira dama mais jovem desde Jacqueline Kennedy.
Caso Malia e Sasha se adaptem bem a Washington e caso sobre tempo, Michelle quer fazer "muita coisa". Por exemplo, levar crianças "de todas as origens" à Casa Branca.
Questionados pelo New York Times, os assessores de Barack Obama atribuíram a ela uma missão mais séria: cuidar das mulheres e das famílias de militares prejudicadas pela crise econômica. Michelle não terá escritório na ala oeste, a porção presidencial da Casa Branca.
Em entrevista à televisão, ela contou que o casal de advogados tem o hábito de discutir. "Vocês querem saber como Barack se prepara para um debate?", disse. "Basta passar algumas horas comigo e está pronto".
Tradução: Paulo Migliacci ME
Le Monde
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Getty Images
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