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Sábado, 8 de novembro de 2008, 13h00 Atualizada às 13h01

Análise: Obama é um 11 de setembro ao contrário

Eric Collier

O-Ba-Ma. Três sílabas que se completam. Uma bela "marca", diriam os especialistas de marketing. Uma marca de futuro. Mal eleito, o 44° presidente dos Estados Unidos desfruta de uma popularidade planetária sem precedentes. Em alguns meses, especialmente a partir do discurso sobre as questões raciais que pronunciou em Filadélfia ("a cidade da fraternidade"), ele se tornou um astro internacional como apenas os mundos do esporte e do entretenimento haviam produzido até agora. O mundo inteiro votou nele: uma pesquisa atribuiu a Obama 69% de intenções de voto entre os franceses.

Seu carisma e seu talento, exibidos durante toda a campanha, fizeram de Obama a um só tempo o ídolo das crianças dos bairros pobres e o político favorito das elites globalizadas. Sua imagem é vista em toda parte, em camisetas e roupas criadas pelos mais conhecidos estilistas, mas também em obras de arte ou como protetor de tela em celulares. O termo "obamania" se tornou corrente.

Para muitos especialistas em assuntos norte-americanos consultados pelo Monde, essa popularidade deriva especialmente de uma rejeição "maciça" dos anos Bush, vinculados às lembranças das mentiras sobre as armas de destruição em massa do regime de Saddam Hussein e sobre as torturas na prisão de Abu Ghraib, no Iraque. Mas existe também um efeito duplo de identificação e reconhecimento. "No momento da globalização e da aldeia mundial, os Estados Unidos querem se parecer com o resto do mundo, no momento em que o país mais precisa dele, e Obama se parece com o resto do mundo", disse Justin Vaïsse, pesquisador na Brooklyn Institution, em Washington, e autor de "História do Neoconservadorismo nos Estados Unidos".

"Obama era o candidato do mundo", diz Pascal Bruckner. "Com uma família presente em quatro continentes, ele personifica uma genealogia da espécie humana". Para a historiadora Nicole Bacharan, que escreveu um livro sobre a experiência política dos negros norte-americanos, o presidente eleito "foi aquele que deu ao mundo inteiro a impressão de ser reconhecido. As pessoas sabem que, por suas origens étnicas, por sua história, ele sabe que o resto do mundo existe, de maneira sensível e pessoal".

Obama não representará apenas o "homem mais poderoso do mundo", mas também o homem-símbolo mais poderoso do mundo. Primeiro presidente negro dos Estados Unidos, ele se assemelha à idéia que o mundo inteiro faz do "sonho americano". E seu sucesso planetário parece indicar que o mundo precisa acreditar de novo nesse sonho e em uma sociedade na qual o campo da possibilidade não é enquadrado por tal ou qual origem social. "Com a eleição dele, surge uma necessidade de ser otimista, de acreditar que o mundo pode ser mais generoso", propõe Frédéric Martel, que estudou a cultura dos Estados Unidos.

"O mais genial dos consultores políticos não seria capaz de inventar nada de melhor para restaurar a imagem norte-americana depois do governo Bush", enfatiza Vaïsse. "Ele oferece uma redenção aos Estados Unidos. Vira a página de um século de escravidão e de um século de segregação, e aponta para a via da coexistência das comunidades - étnicas, religiosas, o que seja. Obama foi o primeiro a compreender que neste momento da História, tal coexistência é possível". A mesma idéia é proposta por Denis Lacorne, professor de ciências políticas. "Vivemos um momento onde, para Obama, esses são os temas unificadores. Ele critica o multiculturalismo radical.

Para ele, o caminho à frente está mais em Martin Luther King do que em sucessores mais radicais como Malcom X ou Jesse Jackson, que propunham uma primazia da etnia sobre o aspecto cívico. Ele provou que a idéia de um país balcanizado, dividido em comunidades irreconciliáveis, é um equívoco. E essa posição ao que parece ecoa de maneira muito forte no resto do mundo".

Bruckner conduziu um seminário sobre a crise do patriotismo, na Universidade do Texas, e percebeu que alguns de seus alunos, entre os quais soldados que haviam servido no Iraque, aparentar "choque" quando lhes perguntou se a principal tarefa de Obama não seria "reconciliar os Estados Unidos com o resto do mundo".

Os norte-americanos vêem em seu novo presidente a pessoa que pode ajudá-los a se reaproximar um dos outros, superando as divisões nascidas da guerra no Iraque, do fracasso do projeto político neoconservador e, acima de tudo, da crise econômica; o olhar do mundo externo, aprovador ou não, não ocupa posição de destaque em suas preocupações. "Eles ainda mantêm certa impressão de onipotência", diz Bruckner.

Mas é quanto a essa postura de reconciliação que o mundo exterior espera mais do novo presidente norte-americano. Para Martel, a vitória de Obama será "uma data positiva" na história contemporânea do planeta, uma espécie de "11 de setembro invertido".

Mas quem exatamente é o homem que desperta as esperanças do mundo inteiro. Será ele o "homem providencial" que Bruckner imagina? "O homem capaz de demonstrar que os Estados Unidos são capazes de corrigir os seus erros", como quer Martel? Será que ele conseguirá reconciliar seu país com o restante do mundo depois dos oito anos controversos de George W. Bush como presidente? Ou ele manterá as políticas de predecessor quanto a diversos assuntos, tal como prevêem especialistas norte-americanos? "Há assuntos de política externa, como a crise na Geórgia e o Iraque, sobre os quais ele talvez tenha de adotar posições apenas um pouco menos imperialistas que as de Bush", aponta Thomas Piketty, professor da Escola de Economia de Paris.

Tradução: Paulo Migliacci ME

Le Monde

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