
Atualizada às 18h19 Matt Bai
Para um homem que há apenas quatro anos disputou sua primeira campanha estadual, Barack Obama cometeu surpreendentemente poucos erros como candidato presidencial. Mas o momento que Obama mais gostaria de cancelar, se pudesse voltar atrás, aconteceu em abril, quando, falando para uma pequena audiência de doadores de verbas de campanha na região de San Francisco, declarou que os eleitores de pequenas cidades na Pensilvânia e outros Estados estavam "amargurados" por causa dos empregos perdidos, o que fazia com que eles "se prendessem a armas, religião ou antipatia por pessoas que não são como eles".
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O comentário, publicado em seguida por um blogueiro do Huffington Post, minou uma das principais premissas da campanha de Obama - a de que ele pode de alguma forma eliminar as cansativas distinções entre Estados democratas e republicanos e atrair os eleitores brancos ressentidos que consideram os democratas como elitistas irreparáveis.
"Essa foi a minha maior besteira", me disse Obama recentemente. Nós estávamos sentados um diante do outro no avião dele, que traz um enorme "O" em azul, vermelho e branco na cauda, voando a 11 mil metros de altitude sobre o Nebraska. "A imprensa interpretou como se Obama estivesse falando com um punhado de liberais bebericadores de vinho de San Francisco, e expondo uma visão antropológica sobre os eleitores brancos da classe trabalhadora. E eu estava justamente falando o contrário, ainda que tenha sido desajeitado - que esses eleitores têm o direito de se sentir frustrados, porque vêm sendo ignorados. E porque os democratas não se aproximam deles nas questões culturais, tampouco conseguimos nos comunicar com eles de forma eficiente sobre uma agenda econômica que poderia ajudar nossa coalizão".
"Na verdade, parte do que eu estava tentando dizer para aquele grupo em San Francisco era que eles deviam parar de pensar que questões como religião ou armas são de alguma forma erradas", prosseguiu. "Porque se seu pai o levava para caçar na sua juventude, e isso lhe oferece um senso de continuidade e estabilidade que sua vida econômica não lhe proporciona, a caça vai ser muito importante para você, e com todo o direito. E se você testemunha a perda de habitantes e o colapso em sua comunidade, mas sua igreja ainda é forte e a vida da comunidade gira ao redor disso, bem, então é melhor que a gente preste atenção ao assunto".
Em poucos minutos, Obama chegaria ao Colorado para uma parada de campanha, seguida de outra em Nevada - dois importantes Estados em que nenhum dos candidatos democratas recentes, Al Gore e John Kerry, chegou perto de ganhar, principalmente por causa de sua total incapacidade de se conectar com os brancos, especialmente homens de classes baixa e média em condados rurais e não urbanos. Eu perguntei a Obama como ele imagina conseguir convencer esses eleitores de que não é, na verdade, um observador antropológico de sua cultura. "Primeiro", disse Obama, "você tem de estar lá. Eu já estive em Elko, Nevada, três vezes". "Elko?" Eu perguntei duas vezes, lutando para ouvi-lo por causa do barulho do motor.
"E-L-K-O". Ele parecia vagamente irritado, como seu eu tivesse confirmado algo sobre a mídia de que há muito suspeitava. "Isso, aliás, é o motivo pelo qual conseguimos mais delegados de Nevada, apesar de termos perdido no voto popular durante as primárias. Nós perdemos Las Vegas e o condado de Clark, mas ganhamos facilmente no Nevada rural. E muito disso tem a ver com o fato de que as pessoas pensavam: Nossa, ele está mostrando a cara. Está assumindo compromissos. Está realmente se organizando. Está conversando com as pessoas".
Naquele exato momento, os republicanos em Washington estavam enterrando o pacote de resgate de US$ 700 bilhões para Wall Street, fazendo com que os mercados tivessem sua maior perda diária em termos de dinheiro bruto na História dos Estados Unidos e arrastando a economia novamente para o centro da campanha - exatamente quando John McCain e os republicanos não queriam que isso acontecesse.
Agora parece que a única coisa que pode ameaçar a marcha de Obama para a presidência é a mesma resistência dos eleitores que, no último minuto, pôs fim aos sonhos de seus predecessores democratas. De acordo com as pesquisas finais em 2004, Kerry perdeu a eleição entre os homens brancos por uma devastadora margem de 25%. O eleitorado geral considera Obama mais preparado do que McCain para guiar o país nesse período econômico tumultuado, mas pesquisas Gallup no segundo e terceiro trimestres mostravam McCain sempre em vantagem de dois dígitos entre homens brancos que não fizeram universidade.
E ainda assim Obama perseverou, devotando ainda mais tempo e dinheiro que qualquer um dos dois candidatos democratas precedentes à tentativa de convencer brancos da classe trabalhadora e rural que ele não é a figura elitista e estranha que podem estar inclinados a imaginar que seja. A campanha Obama tem mais de 50 escritórios na Virginia, um Estado que nenhum democrata disputou a sério desde que Obama era adolescente. Em Indiana, há 42 escritórios; na Carolina do Norte, mais 45.
Matematicamente, Obama pode provavelmente vencer as eleições sem ganhar em nenhum desses Estados - ou Nevada, ou Montana, ou qualquer um dos Estados conservadores onde ele fez campanha nos últimos meses. O que ele provavelmente não poderá fazer, se não conseguir converter eleitores suficientes para transferir pelo menos alguns Estados republicanos para a coluna democrata, vermelhos na coluna azul, é ir além daquilo a que se refere, em tom de desprezo, como "50 mais um", a idéia de que um presidente precisa representar apenas 50% do país (mais um voto) para comandar. Desde o começo, Obama aspirava a não apenas vencer mas a se posicionar como alguém que rompe o padrão da polarizada geração baby-boom (os norte-americanos nascidos entre 1946 e 1964), e se tornar o primeiro presidente em pelo menos 20 anos a contar com mandato claro em favor de sua agenda.
Uma série de circunstâncias possibilitaram uma campanha nacional a Obama. Há o senso nacional de desespero quanto à era Bush, que permitiu aos democratas fazer ouvir sua mensagem em áreas do país das quais haviam sido varridos por 10 anos. Houve o advento da Internet como verdadeiro aspirador de dinheiro, o que permitiu a Obama levantar mais dinheiro do que qualquer candidato democrata na História (US$ 460 milhões, pela conta mais recente). Talvez o mais importante é que a campanha de Obama pôde se aproveitar da prolongada temporada de primárias democrata, passando por todos os 50 Estados e criando redes de voluntários em lugares que normalmente teriam sido desconsiderados.
Para os assessores políticos de Obama, expandir o mapa eleitoral é imperativo. As campanhas presidenciais, afinal, requerem atingir 270 - número mínimo de votos para obter a vitória no colégio eleitoral. Por dependerem dos mesmos cerca de 20 Estados em que se mostraram capazes de vencer, nas últimas eleições, os candidatos democratas perderam quase toda sua margem de erro. A idéia da campanha de Obama era colocar mais Estados em jogo, e assim aumentar o número de permutações capazes de resultar em vitória.
A Virgínia pode ser o mais crítico, entre os Estados "não tradicionais" que a campanha de Obama está disputando. O Estado não escolhe um democrata desde que Johnson derrotou Goldwater, em 1964. No entanto, a economia pós-industrial que vem se desenvolvendo há 15 anos na região gerou mais mudanças do que o Estado havia visto nos 50 anos precedentes.
O novo corredor tecnológico ao longo da rodovia I-66, no norte da Virgínia, do outro lado do rio Potomac, em Washington, é um dos mais vibrantes do país, e os subúrbios autônomos que cresceram em torno dele rapidamente transformaram terras aráveis em dispendiosos condomínios residenciais. No centro do Estado, o ritmo de expansão não é muito menor, para atender aos suburbanos que trabalham nas companhias de Richmond, a capital da velha Confederação.
No sul e sudoeste do Estado, mais conservadores em termos sociais, que um dia abrigaram cidades industriais e minas de carvão, a população tem caído fortemente, no entanto. As pessoas que se formam no segundo grau deixam a área em busca de oportunidades em outros locais.
Não surpreende que o número de eleitores que se definem como democratas tenha crescido no Estado nos dois últimos anos, superando de longe o crescimento da base republicana. Os dois últimos governadores foram democratas, e em janeiro o Estado também deve ter dois senadores democratas. A campanha de McCain está tão preocupada com a Virgínia, depois de pesquisas que mostram avanços de Obama, que abriu 10 novos escritórios no Estado.
Nas comunidades do sul do Estado e da região dos Apalaches, há um sentimento de irritação, justificada, ante a condescendência do restante do país - uma sensação de que os Estados Unidos urbanos consideram que o estilo de vida rural é antiquado, ou pior, cômico. Por isso, questões culturais importam mais nas áreas rurais que nos subúrbios, já que os eleitores as vêem como teste que determina se os políticos os respeitam ou zombam deles - um conceito que os estrategistas republicanos se especializaram em explorar.
Obama respondeu ao desafio fazendo exatamente o que me disse: ele compareceu. Logo que garantiu a indicação do partido, em junho, ele viajou a Bristol, perto da fronteira entre a Virgínia e o Tennessee. Desde então, visitou duas outras vezes o sul do Estado, e Joe Biden recentemente fez comício para os mineiros locais.
Lebanon, cidade de 3,2 mil habitantes, está rapidamente se tornando em símbolo de esperança para aqueles que querem fazer do sudoeste o próximo pólo tecnológico da Virgínia. Os condados locais construíram edifícios equipados de conexões banda larga, água e energia, para atrair empresas à procura de espaços já desenvolvidos. Os governantes locais também criaram um programa de "retorno às raízes", sob o qual tentam atrair de volta pessoas da região que se formaram e trabalham em outros lugares. Barack Obama visitou a escola da cidade para um encontro com eleitores no começo de setembro, a primeira visita de um candidato presidencial à região desde que Jimmy Carter foi a Castlewood em 1976.
Primeiro vieram os testemunhos, uma parte crítica da estratégia de Obama no interior - obter o endosso de personalidades locais. O primeiro homem a subir ao palanque foi Ralph Stanley, 81 anos, um lendário músico de bluegrass, nascido em Stratton, uma cidade próxima. Depois veio Cecil Roberts, presidente do sindicato dos mineiros, e por fim Rick Boucher, o deputado que representa Lebanon e a região em Washington.
Obama por fim tomou o microfone e apresentou uma versão refinada de seu discurso de campanha básico, caminhando pelo tablado enquanto falava, e pontuando vigorosamente cada item em sua longa lista de acusações a Bush e John McCain. Ele enfatizou sua história americana - sua mãe que teve de recorrer a assistência alimentar do governo, seu avô que lutou no "exército de Patton", o sogro que continuou trabalhando mesmo depois de receber um diagnóstico de esclerose múltipla, sem perder um dia. Um homem queria saber o que Obama achava daqueles que desdenhavam Sarah Palin por ela ser evangélica. O candidato respondeu que ele mesmo era cristão praticante.
Uma adolescente perguntou a Obama o que ele pretendia fazer de específico pelas regiões rurais dos Estados Unidos. O candidato imediatamente se entusiasmou com a questão, e mencionou uma série de investimentos públicos que o seu governo realizaria na região: linhas de banda larga para telecomunicações, financiamento às escolas, desenvolvimento de biocombustíveis. Ele falou sobre a criação de mais empregos para os estudantes locais, "de modo que, quando se formarem na faculdade, essa rapaziada possa ficar aqui, vivendo em Lebanon, em lugar de ter de procurar trabalho em outro lugar".
Obama atingiu seu principal objetivo em Lebanon: estabeleceu sua presença em um local que nenhum outro candidato democrata moderno ousou visitar, discutindo abertamente as questões sociais e se posicionando firmemente como um homem apegado ao meio-termo. Quando me encontrei com o deputado Boucher, pouco depois do evento, ele me disse que a visita de Obama havia sido "terrivelmente importante".
Tradução: Paulo Migliacci ME
The New York Times Magazine
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