
John Vinocur
John McCain estava falando sobre o governo russo "dirigido por antigos agentes do KGB", da agressão russa à Geórgia e do apoio norte-americano à admissão da Ucrânia e Geórgia à Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan).
Um dos problemas subjacentes do ataque à Geórgia, declarou McCain, é que ele "tinha tudo a ver com a energia" e com o controle russo sobre os suprimentos europeus de energia. Além disso, para o candidato republicano os eventos na Geórgia destacaram as ameaças russas de "reconquistar o status do antigo império russo".
O que Barack Obama tinha a dizer sobre essa retórica belicosa? A resposta dele: "Creio que o senador McCain e eu em geral concordemos quanto a essas questões". O moderador no debate entre os dois candidatos à presidência, duas semanas atrás, insistiu, perguntando se Obama discordava de alguma forma das declarações de McCain. "Na verdade, não", foi a resposta. Bastante claro, apesar do tom ferino das acusações de campanha trocadas posteriormente.
A realidade dispõe que, não importa o eleito no mês que vem, o novo presidente dos Estados Unidos terá de enfrentar não só a crise financeira, a recessão e a ruína como um novo confronto com alguns dos aliados europeus do país, liderados pela Alemanha, quanto ao que Obama descreveu como "uma Rússia em recuperação e muito agressiva".
As cisões se tornaram claras na semana passada, quando a chanceler primeira-ministra alemã Angela Merkel viajou a São Petersburgo, para uma reunião com o presidente russo Dmitri Medvedev. Ainda que ele obviamente seja menos importante que o primeiro-ministro Vladimir Putin, foi o presidente, ao explicar como as tropas de seu exército haviam ido parar no território da Geórgia, que alegou um "papel privilegiado" para os russos nos assuntos dos países vizinhos - uma espécie de atualização da doutrina Brezhnev, que dava à antiga União Soviética o direito de perpétua intervenção.
Na semana passada, aparentemente em data calculada para coincidir com a visita de Merkel, a Rússia anunciou que no ano que vem planejava colocar em operação um novo míssil nuclear criado para superar as defesas antimísseis.
E as conversações resultaram em um novo acordo bilateral de energia que se soma à longa lista de arranjos bilaterais já existentes entre russos e alemães. Durante as discussões, nada de desagradável foi dito sobre o rearmamento russo ou os planos do país para dobrar seu efetivo militar nas duas províncias da Geórgia que a Rússia na prática anexou. Veredicto: para o jornal Frankfurter Allgemeine, a reunião poderia ser resumida em ¿era glacial curta termina em degelo". Merkel parece disposta a retomar as discussões sobre a chamada parceria estratégica entre Rússia e a União Européia caso Moscou retire suas tropas da "Geórgia em si". (Uma decisão que varreria para baixo do tapete o reforço dos efetivos russos na Abkházia e Ossétia do Sul para 7,6 mil soldados.)
Ainda durante a visita, Merkel também supostamente teria deixado claro que não aprova que Ucrânia e Geórgia sejam declaradas candidatas formais a admissão pela Otan na conferência da organização em dezembro.
O contraste com a posição norte-americana não poderia ser maior. Obama, por exemplo, insistiu em que fosse adotado "imediatamente" um plano para admitir Ucrânia e Geórgia à Otan. A medida estabeleceria limites para o esforço russo de recolocar a região sob seu controle.
Mas enquanto os países da União Européia que um dia foram parte do bloco soviético consideram que admitir Ucrânia e Geórgia na Otan seja gesto essencial para a defesa de sua independência, a Alemanha ¿e muito provavelmente França e Itália- não gostam da idéia porque pode incomodar a Rússia.
Se, no caso da maioria dos países, essa postura significa preocupação com a manutenção de contratos lucrativos com os russos e cautela quanto a contestar o restabelecimento das zonas de influência russas, na Alemanha a posição representa um credo de centenas de anos de desejo de uma melhora nas relações entre os dois países, mas também fantasias persistentes entre os alemães de que tratar os russos de forma positiva atrairá respostas igualmente positivas.
Agora, o cronograma de conferências internacionais está pressionando os participantes a mostrar suas cartas. Os russos provavelmente cumprirão o acordo que requer a retirada de suas tropas estacionadas na Geórgia até 10 de outubro.
Interpretar o que os russos estão de fato fazendo deve ocupar posição central na agenda da conferência de cúpula da União Européia em 15 de outubro. Alguns membros da União, ainda assim, devem encontrar desculpas suficientes para propor a retomada das negociações quanto a uma parceria estratégica com a Rússia.
E isso empurraria o problema da Rússia para a conferência de cúpula da Otan em dezembro, quando o presidente George W.Bush, que no passado disse que havia visto a alma de Putin ao olhar em seus olhos, ainda representará os Estados Unidos. Não é um bom momento para decisões de profunda importância, e portanto o assunto deve ser deixado para a próxima conferência de cúpula da Otan, em abril.
Resta pouco tempo, assim, para a imensa tarefa política de definir uma posição comum para os integrantes da aliança atlântica. Os dois candidatos norte-americanos deixaram bem claro que estão de acordo sobre adotar uma linha dura em diversos aspectos da abordagem quanto à Rússia.
A expressão de unidade que eles declararam taticamente diante das platéias norte-americanas e de pessoas que serão afetadas pelo resultado dessa eleição em todo o mundo parece indicar um forte compromisso na arena de política internacional, qualquer que seja o vitorioso. A Rússia e os aliados dos Estados Unidos na Europa fariam bem em prestar atenção.
Tradução: Paulo Migliacci ME
Herald Tribune
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