
Atualizada às 16h37 Roger Cohen
Repitam comigo: Porcos não podem voar. Repitam comigo: A lua não é feita de queijo. Repitam comigo: o fogo certamente queima. Talvez vocês considerem que essas verdades são intrinsecamente evidentes.
Mas, admitamos, todo esse fiasco em Wall Street, que terminará custando US$ 700 bilhões a gerações de norte-americanos, se baseou na insondável capacidade humana de desconsiderar os fatos e optar por viver na terra dos sonhos.
O risco já não existia. Pessoas sem um tostão podiam arcar com uma casa de US$ 200 mil. Preços de imóveis nunca caem. Títulos que abarcavam um grande estoque de empréstimos tóxicos se provariam benignos. Dívidas era excelentes, alavancagem adorável, cobiça maravilhosa. Dois mais dois davam cinco. E as ruas estavam pavimentadas de ouro.
Como isso pôde acontecer? A questão, indignada, surte aos lábios de todos. Mas das tulipas holandesas ao boom da Internet na Califórnia, grandes trapaças aconteceram e voltarão a acontecer. Não há nada que alivie mais as dores da realidade do que a ilusão de que dinheiro pode crescer em árvores.
Um amigo próximo me escreveu sugerindo que eu lesse The Gods of the Copybook Headings, um poema de Rudyard Kipling, como forma de avaliar os eventos atuais. Escrito em 1919, quando Kipling tinha 53 anos, em um inglês ressecado pelos sofrimentos da Primeira Guerra Mundial, na qual o poeta perdeu seu filho adolescente, ler o poema propicia uma dose concentrada de sobriedade.
O copybook do título era o caderno de exercícios que os estudantes utilizavam para praticar caligrafia. No topo da página, provérbios e ditados como melhor o diabo que já conhecemos apareciam em caligrafia exemplar, a ser copiada pelos alunos. As frases eram conhecidas como copybook headings (cabeçalhos de caderno).
O poema começa afirmando que "À medida que passo por minhas encarnações de toda idade e raça, Saúdo como devo aos deuses do mercado; Contemplando entre meus dedos reverentes os vejo florescer e morrer. E os deuses dos cabeçalhos de caderno, percebo, sobrevivem a todos os demais".
E quais seriam as qualidades desses deuses que o poema exalta? A quarta estrofe as revela: "Com as esperanças de que nosso mundo é feito, eles não tinham contato. Negavam que a Lua fosse feita de queijo; negavam até que fosse holandesa; Negavam que desejos são corcéis, que um porco pode ter asas; Por isso, cultuávamos os deuses do mercado que nos prometiam essas belezas".
A sétima estrofe diz: "Na era carbonífera, abundância para todos nos foi prometida; Ao despir o Pedro específico para cobrir o Paulo coletivo; Mas embora tivéssemos muito dinheiro, nada havia que nosso dinheiro pudesse comprar, E os deuses dos cabeçalhos de caderno diziam que quem não trabalha, morre".
A verdade, em resumo, se defronta com a ilusão e a utopia. Kipling está bem fora de moda hoje em dia, se excluirmos seus livros infantis. Em uma era de correção política, ele fala com franqueza demais sobre as ironias cruéis do mundo - e do império.
Mas sua vívida evocação dos horrores da guerra, da hipocrisia dos homens, do preço da ilusão, da transitoriedade do poder e daquilo que a vida tem de implacável o tornam importante para o momento que os Estados Unidos vivem.
Por coincidência - uma das ironias da vida - eu estava lendo Kipling depois de assistir ao debate entre os candidatos a vice-presidente, ou mais precisamente, ao desempenho de Sarah Palin, a "mulher comum" de Wasilla que pisca para a audiência a fim de conquistar simpatia. E as palavras dela que mais ressoaram em meus ouvidos foram:
"Uma coisa que os norte-americanos precisam fazer em um momento como esse, também, é que assumamos um compromisso - apenas os cidadãos norte-americanos comuns, o homem que aprecia sua cerveja, a mãe que acompanha os filhos aos treinamentos de hóquei... Creio que precisemos nos unir para dizer 'nunca mais'. Jamais nos deixaremos explorar de novo por aqueles que administram nosso dinheiro e emprestam esses dólares". Hein?
Lamento, governadora Palin, mas as palavras importam. A vida tem lições solenes. "Nunca mais" é uma frase altaneira que deveríamos aplicar não à perda de um imóvel hipotecado, mas ao Holocausto e ao genocídio.
Estabelecer equivalência verbal entre um empréstimos de US$ 60 mil e seis milhões de judeus assassinados, ou 800 mil pessoas chacinadas em Ruanda, é grotesco. Talvez Palin não tenha querido dizer o que disse, mas isso não torna o erro menos grave. Ela desconhece a seriedade do mundo.
O mesmo não se pode afirmar com relação a Kipling, que, em Epitaphs of the War (Epitáfios da Guerra), sobre o conflito de 1914-1918, afirmou que: "Se alguém questionar por que morremos; Diga que foi porque nossos pais mentiram".
Eu imagino se, depois de todas mentiras e perdas, e em meio a guerras, e a 760 mil empregos perdidos, a - realidade das ruas de Wasilla - que Palin pretende oferecer é suficiente para o país.
O poema Gods of Copybook Headings termina assim: "O futuro será como foi o nascimento do Homem - Existem apenas quatro certezas desde que começou o progresso social - Que o cão retorna ao seu vômito e a porca ao seu lodo; E que o dedo queimado do tolo retorna trêmulo ao fogo; E depois que isso se realiza e começa o admirável mundo novo, Quando todos os homens são pagos por existir e ninguém precisa pagar por seus pecados, Tão certamente quanto a água nos molha e o fogo queima, Os deuses dos cabeçalhos de caderno retornarão com terror e massacre".
Palin, que adora se vangloriar por ser uma mulher comum, decerto não pronunciaria o G final no nome de Kipling. E certamente piscaria para ele perguntando se pode chamá-lo de "Rud".
Mas isso é apenas uma pose política populista: os porcos continuam incapazes de voar. Chegou a hora de conduzirmos pessoas realistas à Casa Branca.
Herald Tribune
16h56 » Perto da posse, Obama adota estilo mais sóbrio
12h58 » Bush merece crédito por evolução histórica, diz Rice
01h06 » TV: Valerie Jarrett será assessora principal de Obama