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Quinta, 2 de outubro de 2008, 16h08 Atualizada às 16h07

Análise: Palin eleita teria "efeito Nixon" ao contrário

Roger Cohen

Em 1970, em meio à mais longa queda dos mercados desde a Segunda Guerra Mundial, o presidente Nixon declarou: "Francamente, se eu tivesse dinheiro estaria comprando ações, agora". O mercado imediatamente entrou em alta.

Nos últimos dias venho me perguntando, só por diversão, o que aconteceria caso o presidente Bush tentasse promover uma alta dos mercados com base na força de sua liderança, declarando que "francamente, se eu tivesse dinheiro, estaria comprando ações agora".

Minha conclusão foi a de que, por favor, por favor, não importa qual seja o seu próximo capricho, sr. presidente, não repita a declaração de Nixon. Calculo que o mercado despencaria de formas que fariam com que a queda de 777 pontos registrada no índice Dow Jones esta semana parecesse brincadeira.

Não pretendo escrever um elogio a Nixon. Lembro que assisti ao seu discurso de renúncia em um bar de Bolinas, Califórnia, e ainda recordo os aplausos. Mas até mesmo a natureza torturada daquele homem refletia alguma seriedade essencial quanto ao futuro dos Estados Unidos da América. Em contraste, a turma de Bush apostou o futuro do país sem a menor compunção.

(E Nixon renunciou. O que aconteceu à idéia de que alguém - um membro do gabinete, um presidente-executivo de empresa de Wall Street, o inventor dos credit default swaps- deveria de fato pagar voluntariamente pelos seus erros? A vergonha se tornou um conceito obsoleto, da era do cavalheirismo, algo que pertence a outro momento da história norte-americana.)

Vamos observar de mais perto a aposta que Bush realizou. O exame vale a pena, porque a primeira pessoa do país a calcular preços como se os riscos tivessem deixado de existir foi o presidente mesmo. Só nesse caso ele liderou pelo exemplo.

A aposta envolveu ir à guerra no Iraque a um custo estimado de US$ 700 bilhões (o número parece familiar?), enquanto ao mesmo tempo optava não por elevar os impostos e sim por reduzi-los. Envolvia ir àquela guerra, e a outra guerra no Afeganistão, enquanto ele pedia ao povo não sacrifícios compartilhados mas um estouro coletivo dos cartões de crédito, em nome do consumo.

Ao mesmo tempo, Bush, que muitas vezes parecia completamente desinformado até sobre o endereço do Departamento do Tesouro, optou por permitir que um mercado opaco de derivativos crescesse até a marca dos trilhões de dólares sem nenhuma fiscalização, regulamentação ou informação. O mercado sabia o que fazia. Na verdade, a única coisa que o mercado sabia era como transformar o capitalismo em um esquema de pirâmide para a negociação de pedaços de papel sem qualquer valor.

O terrível custo dessa aposta se tornou claro agora. Mas devemos agradecer pelas pequenas graças recebidas. Lembrem-se de que Bush também desejava colocar o Seguro Social no redemoinho, privatizando-o! O capitalismo de mercado é algo sofisticado, que requer transparência, ética e normas. Bush e sua turma apostaram em que algum "novo paradigma" significava que essas coisas se tornaram obsoletas.

Não são. Temos de tomar cuidado, agora. O contágio das quebras de bancos já se espalhou pela Europa. As pessoas perguntam, sobre os Estados Unidos, "o que foi que aconteceu com o país?"

Os chineses até agora ainda se mantêm dispostos a tratar os títulos do Tesouro dos Estados Unidos como papéis de valor sólido, e a nos emprestar os dólares que eles acumularam por taxas de juros muito baixas. Mas e se eles começarem a duvidar que o governo dos Estados Unidos pagará suas dívidas?

"Estamos chegando cada vez mais perto de um ponto de inflexão", disse o economista Benn Steil. "As pessoas estão perguntando se realmente podem confiar no dólar como maneira de preservar seus valores".

O sistema de administração monetária de Bretton Woods entrou em colapso em 1971. Desde então, o dólar vem sendo a moeda de reserva primordial. Agora, estamos chegando a mais um ponto em que repensar as fundações de uma economia globalizada é necessário.

Os fluxos mundiais de capital e comércio são essenciais para a prosperidade. Mas é ilógico ter um sistema mundial sem reserva mundial como seguro. Talvez os trilhões de dólares em superávits chineses e de países do Golfo Pérsico possam ser usados para tanto. Ou talvez seja hora de retornarmos ao padrão ouro.

Uma coisa eu sei. Não é hora de novas apostas. Sou grato a Bob Rice, da Tangent Capital, por apontar que o risco atuarial, com base nas tabelas de mortalidade utilizadas pelas companhias de seguros, de termos Sarah Palin como presidente, caso a chapa de John McCain vença a eleição, seria de um em seis ou sete.

Isso representa probabilidade igual à de que o aniversário de alguém caia numa quarta-feira, ou à de que uma moeda dê cara três vezes em seguida em um jogo de cara ou coroa. Será que estamos preparados para isso?

Quando o poder representa o passaporte para uma aposta, não é incomum que alguém saia do processo seriamente quebrado - ou seriamente morto. Existe um sujeito competente e sóbrio no governo Bush: o secretário da Defesa, Robert Gates. Ele recentemente afirmou que as forças norte-americanas de ocupação do Iraque tiveram de aprender a combater uma insurgência lá. "Mas isso acarretou um imenso custo humano, financeiro e político", disse.

Gates alertou que "a guerra é inevitavelmente trágica e ineficiente". Instou por ceticismo diante de qualquer idéia de que "adversários possam ser intimidados, pressionados ou forçados a se submeter por choque. Na verdade, eles precisam ser rastreados e derrotados colina a colina, casa a casa, quarteirão a sangrento quarteirão".

Em resumo, ele fez uma devastadora crítica ao esforço de guerra conduzido por Rumsfeld, Cheney e Bush, apontando-o como uma aposta irresponsável. O mesmo se aplica ao mundo das finanças, onde em lugar de "choque e pavor" nós tivemos "sub" e "prime".

E as casas de muitas pessoas, em todas as partes dos Estados Unidos, viraram fumaça, enquanto o medo domina o país.

Herald Tribune

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