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Segunda, 29 de setembro de 2008, 16h14 Atualizada às 16h17

Análise: John McCain pouco conhece sobre economia

Paul Krugman

O ano de 2009 começou há alguns meses, são três da manhã e toca o telefone na Casa Branca. A voz do outro lado da linha informa que diversos grandes fundos de hedge estão a ponto de quebrar, e provavelmente haverá caos quando os mercados se abrirem. Quem seria a pessoa mais confiável para atender a esse telefonema?

Não estou sendo melodramático. O plano de resgate anunciado no domingo é bem melhor do que a proposta originalmente apresentada por Hank Paulson -melhor o bastante para que valha a pena aprová-lo. Mas não se pode defini-lo como um bom plano, e não porá fim à crise. É provável que o próximo presidente tenha de enfrentar algumas sérias emergências financeiras. Assim, o que podemos definir quanto ao preparo dos dois homens que receberiam esse telefonema? Barack Obama parece bem informado e sensato quanto a assuntos econômicos e financeiros. John McCain, por outro lado, me assusta.

Quanto a Obama: é lamentável que ele não tenha demonstrado mais espírito de liderança no debate sobre o projeto de lei de resgate ao mercado financeiro, optando em lugar disso por deixar a questão nas mãos da bancada democrata no Congresso, especialmente o senador Chris Dodd e o deputado Barney Frank. Mas tanto Obama quanto as liderança democratas do Congresso contam com a assessoria de conselheiros muito lúcidos e muito bem informados, e homens experientes na administração de crises, como Paul Volcker e Robert Rubin, estão sempre à mão para orientá-los.

A outra possibilidade é o assustador McCain - ainda mais assustador hoje do que o era algumas semanas atrás. Sabemos há muito tempo, evidentemente, que McCain pouco conhece sobre economia - ele mesmo o admitiu, ainda que também tenha negado essa admissão. O desconhecimento não seria tão problemático se ele tivesse bom gosto na escolha de seus assessores - mas esse está longe de ser o caso.

Lembrem-se de que o seu principal conselheiro para assuntos econômicos é Phil Gramm, um dos maiores proponentes da desregulamentação, que em sua época no Senado tomou cuidado especial para impedir que fossem instituídos mecanismos de fiscalização quanto aos derivativos - exatamente os instrumentos que derrubaram o Lehman e a AIG, e deixaram os mercados de crédito à beira do colapso. Gramm não desempenha papel oficial na campanha de McCain, especialmente depois de classificar os Estados Unidos como "um país de chorões", mas ainda é visto como provável escolha para o posto de secretário do Tesouro.

E no ano passado, quando a direção de campanha de McCain anunciou que havia formado "uma coleção impressionante de economistas, professores e líderes conservadores conhecidos" para assessorar o candidato quanto a política econômica, que nome vocês acham que mereceu destaque? O de Kevin Hassett, co-autor do livro Dow 36,000, que previa uma alta do índice Dow Jones para a altura dos 36 mil pontos (o índice está em torno de 10,600 pontos hoje, e seu pico foi de pouco mais de 14 mil pontos).

Na verdade, em larga medida a baixa qualidade dos assessores selecionados por McCain reflete o estado intelectual lastimável a que o Partido Republicano está reduzido. Já houve proposta econômica mais patética que a dos republicanos da Câmara dos Deputados, que nos estimulavam a resolver a crise financeira pela eliminação do imposto sobre os ganhos de capital? (Instituições financeiras em crise por definição não têm ganhos de capital a tributar.)

Mas até o presidente George W. Bush, no crepúsculo de seu governo, se voltou a pessoas relativamente sensatas para tomar decisões econômicas: não sou fã de Paulson, mas ele representa imensa melhora com relação a seu predecessor. A essa altura, é inevitável suspeitar que um governo McCain poderia nos fazer sentir saudades da competência da era Bush.

A verdadeira revelação das últimas semanas, no entanto, vem sendo o quanto as opiniões de McCain sobre a economia são erráticas. Há momentos em que ele parece defender opiniões particularmente fortes sobre um tema e, dias mais tarde, ele adota posições diametralmente opostas.

Por exemplo, em 15 de setembro ele declarou - por pelo menos a 18ª vez este ano - que "os fundamentos de nossa economia são fortes". Isso aconteceu no dia seguinte à quebra do Lehman Brothers e à venda do Merrill Lynch, exatamente no momento em que a crise financeira entrava em um novo estágio, ainda mais perigoso.

Mas três dias mais tarde ele declarou que os mercados financeiros norte-americanos se haviam transformado em um "cassino", e disse que demitiria o presidente da Securities and Exchange Commission (SEC, órgão que fiscaliza o regulamenta o mercado de valores mobiliários) - algo que, aliás, o presidente não tem o poder de fazer.

E em seguida ele encontrou um novo grupo de vilões - a Fannie Mae e a Freddie Mac, as instituições de empréstimo hipotecário patrocinadas pelo governo. (A despeito de alguns verdadeiros escândalos em ambas, elas não desempenharam grande papel em causar a crise. A maior parte dos empréstimos de qualidade mais baixa veio de instituições hipotecárias privadas.) McCain também foi moralista ao acusar outros políticos, entre os quais Obama, de estarem sob influência financeira da Freddie Mac e Fannie Mae; na verdade, uma empresa controlada pelo diretor geral da campanha de McCain é que estava sob contrato da Freddie Mac até o mês passado.

Foi então que Paulson lançou seu plano, e McCain interveio veementemente no debate. Mas admitiu, dias depois que o plano foi apresentado, que na verdade não o havia lido - ainda que o documento tivesse apenas três páginas.

Bem, creio que vocês vêem a situação. A economia moderna provou ser um lugar perigoso - e não se trata do tipo de perigo que possamos enfrentar com retórica belicosa e denúncias contra os malvados. Será que McCain tem a ponderação e o temperamento necessários a conduzir bem essa porção do trabalho que ele deseja obter?

The New York Times

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