
Atualizada às 01h52 Marcado pelo impasse antes mesmo de seu começo, o primeiro debate entre os candidatos à presidência dos EUA, realizado na noite desta sexta na Universidade do Mississipi, foi palco de um discurso ameno por parte dos senadores Barack Obama e John McCain ao falarem sobre a crise do sistema financeiro americano. Tanto o democrata quanto o republicano optaram por guardar a munição para os dois temas de discussão previstos para o encontro: política externa e segurança nacional.
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O confronto começou morno. McCain adotou o discurso conciliador que permeou a semana dos candidatos e se disse satisfeito com a aliança de democratas e republicanos para resolver o problema econômico do país. Obama foi um pouco mais enfático e preferiu criticar as escolhas feitas pelo atual governo em relação às políticas econômicas. "Há dois anos eu escrevi para o secretário do Tesourou para ver se ele estava ciente do problema da economia dos EUA."
Na resposta McCain disse que também fez um alerta para a crise e deu destaque para a ganância e os excesos de Wall Street. "De certa forma, aqueles que têm sucesso são recompensados. Hoje, em Wall Street, é a ganância que é recompensada", afirmou o republicano. Obama concordou e disse que a economia não está privilegiando o americano comum. "Devemos enfrentar as políticas que não funcionam para a classe média".
Durante a discussão do tema, proposto pelo moderador Jim Lerher, Obama procurou efetuar alguns ataques ao rival. "John, há dez dias você disse que a economia dos Estados Unidos estava saudável. Eu basicamente discordo", disse o democrata. McCain, em resposta, preferiu lembrar de votações do adversário que teriam sido contrárias ao seu discurso atual. "Obama pediu US$ 932 milhões para gastos políticos. Esse não é a forma mais adequada de enxugar os gastos. Eu lutei contra isso. Eu quero cortar os gastos e manter os impostos baixos", afirmou o republicano.
Reforma tributária
Obama e McCain divergiram quanto à reforma do sistema tributário. O democrata disse que, se chegar à presidência, reduzirá os impostos para os americanos que ganham até US$ 250 mil ao ano, o equivalente a 95% da população. Afirmou também que esses cortes vão aliviar o bolso da população e farão a economia crescer, ao contrário "da política adotada até agora, de diminuir os impostos dos mais poderosos e esperar que os ganhos dos mais ricos cheguem às classes inferiores".
Por sua vez, McCain acusou seu adversário de querer aumentar os impostos, sobretudo das empresas, que, segundo disse, susportam uma das cargas fiscais mais pesadas do mundo. O republicano também afirmou que o democrata aumentaria os gastos do governo em cerca de US$ 100 bilhões com a liberação de novas emendas orçamentárias. "Quero manter os impostos baixos", afirmou McCain, que defende a manutenção dos cortes fiscais aprovados pela administração do presidente George W. Bush.
O candidato republicano também atacou as despesas conhecidas como "earmarks", verbas para projetos muito específicos que os legisladores incluem em projetos de lei freqüentemente não relacionados. Segundo McCain, esses recursos somam US$ 18 bilhões ao ano, e ficarão sob controle durante seu governo. "Vou vetar cada projeto de lei que os inclua e vou denunciar seus responsáveis", prometeu. Obama respondeu dizendo que US$ 18 bilhões é "uma quantia substancial" e que é preciso garantir que não haja mais desperdício de dinheiro público.
Iraque e Paquistão
A guerra no Iraque começou a marcar a divisão clara entre as posições de Obama e McCain em relação à política externa. Enquanto o republicano insistiu que a estratégia usada no país do Oriente Médio foi acertada, e que a guerra está sendo vencida, o democrata preferiu questionar se os Estados Unidos deveriam ter entrado no conflito. O senador por Illinois disse que, ao entrar no Iraque, os americanos ainda não tinham vencido no Afeganistão, "e isso está claro agora".
"Tiramos nossos olhos da bola", referindo-se à decisão do governo Bush de desviar recursos militares do Afeganistão para o Iraque. McCain, no entanto, respondeu que o "aumento" de tropas no Iraque por ele defendido "teve êxito". "Agora estamos vencendo no Iraque, e voltaremos para casa com honra e a vitória".
Obama seguiu com seu enfoque nos países asiáticos e disse que lançaria ataques militares contra alvos extremistas dentro do Paquistão caso o governo de Islamabad se recusasse ou se mostrasse incapaz de agir. O candidato republicano John McCain reagiu afirmando que esse tipo de ameaça não ajudava em nada. "Não se fala esse tipo de coisa assim", advertiu McCain.
No entanto, Obama, que repetidamente tentou vincular John McCain ao atual presidente, George W. Bush, insistiu. "Se os Estados Unidos tiverem a Al-Qaeda, Osama bin Laden e altos dirigentes extremistas à vista e o Paquistão não quiser ou não puder agir, então devemos eliminá-los".
Irã
Obama defendeu que os Estados Unidos devem manter relações diplomáticas "duras e diretas" com o Irã. Seu adversário, o senador republicano John McCain, disse por sua vez que um Irã dotado de armamento nuclear representa a ameaça de "um segundo holocausto" contra os judeus e Israel, provocando uma corrida armamentista no Oriente Médio.
O tema quase virou um bate-boca entre os dois por causa de uma suposta declaração do ex-secretário de Estado dos governos de Ricahrd Nixon e Gerald Ford, Henry Kissinger. McCain defendia que um encontro com o governo iraniano deveria ser marcado por pré-condições sob risco da reunião legitimar declarações do Irã que prega o fim do Estado de Israel.
O republicano lembrou que Nixo só aceito negociar com a China após diversas visitas de Kissinger ao país asiático para acertar pré-condições. Obama retrucou e disse que o mesmo Kissinger declarou recentemente apoiar um encontro entre EUA e Irã sem pré-condições.
McCain por sua vez respondeu que "conheço o Dr. Kissinger há 35 anos e e sei que ele nunca falaria isso". Obama finalizou a polêmica sustentando que apenas usou as mesmas palavras do ex-diplomata americano.
Rússia
Ao mudar o foca da discussão de Teerã para Moscou, Obama advertiu que "uma Rússia reerguida e agressiva" representa uma ameaça à paz regional. Já, McCain reagiu acusando-o de manter uma postura ingênua em relação à Rússia e à invasão russa na Geórgia.
"Acho que, levando em conta o que aconteceu nas últimas semanas e meses, toda a nossa abordagem em relação à Rússia precisa ser avaliada, porque uma Rússia reerguida e muito agressiva é uma ameaça à paz e à estabilidade da região", ponderou Obama. "As ações russas na Geórgia foram inaceitáveis", continuou.
McCain, que já fez ameaças de expulsar a Rússia do G8, acusou o senador democrata de falar com "um pouco de ingenuidade". "Ele não entende que a Rússia cometeu sérias agressões contra a Geórgia", apontou McCain, argumentando que uma Rússia enriquecida pelo petróleo era "basicamente um governo da KGB".
"Eu olhei nos olhos de (ex-presidente russo e atual primeiro-ministro, Vladimir) Putin e vi três letras: K, G, B", afirmou o republicano, parafraseando a frase do presidente George W. Bush, que disse que tinha olhado nos olhos de Putin e tinha visto sua alma. McCain acusou Moscou de "querer recuperar seu império" soviético e assegurou que a guerra contra a Geórgia tinha um cenário energético, devido ao oleoduto Ceyhan-Tbilisi-Baku.
"As intenções da Rússia estavam muito claras há muito tempo na Geórgia", disse o candidato republicano. Ele advertiu que a Ucrânia poderia ser o próximo objetivo pois, entre outras coisas, a Rússia procura recuperar a península da Criméia onde a frota do Mar Negro tem sua base e que Stalin cedeu à Ucrânia.
Neste sentido, expressou seu completo apoio às aspirações de Kiev e Tbilisi para entrar na ONU e sustentou que: "devemos deixar claro à Ucrânia que tem em nós um amigo e um aliado". Obama, por sua parte, se mostrou de acordo em que Geórgia e Ucrânia devem receber "imediatamente" uma "Mapa de Caminho" para seu ingresso na Aliança Atlântica. A Otan se comprometeu durante sua cúpula do abril em Bucareste a oferecer esse plano de ingresso no futuro.
11 de setembro
O último tema abordado no sebate foi a segurança nacional. Os candidatos republicano e democrata à Casa Branca concordaram que os Estados Unidos são hoje um país mais seguro do que era antes do 11 de setembro de 2001. Mas fizeram sua afirmação inicial com seus respectivos pontos de vista.
McCain disse que um ataque da dimensão do registrado naquele dia "é hoje muito menos provável", porque o país é mais seguro do que era em 11 de setembro de 2001, mas insistiu em que "ainda resta um longo caminho para percorrer antes de declarar que os Estados Unidos são um país seguro".
Barack Obama, por sua vez reconheceu que os Estados Unidos são "mais seguros em alguns aspectos", mas insistiu em que o país "necessita prestar mais atenção em outros assuntos, como a não-proliferação nuclear e na restauração de sua imagem no mundo".
"Apesar de nos últimos anos estarmos centrados na Guerra do Iraque e gastando bilhões de dólares, Osama bin Laden não foi capturado nem a Al-Qaeda desmantelada", acrescentou.
Obama e McCain voltam a se encontrar para o segundo debate presidencial no próximo dia 7 de outubro, terça-feira, a partir das 20h (pelo horário de Brasília) em Nashville, na Univeridade de Belmont. Antes disso, os canditos à vice-presidência, a governadora republicana Sarah Palin, e o senador democrata Joe Biden, promovem um debate na próxima quinta-feira, dia 02, às 22h de Brasília na Universidade Washington, em St. Louis.
Redação Terra
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Reuters
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