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Sábado, 27 de setembro de 2008, 20h37 Atualizada às 20h37

Análise: candidatos precisam de política reguladora

Tanto Barack Obama quanto John McCain têm boas chances de se tornarem o primeiro presidente americano eleito em um período de recessão sem mencionar uma crise financeira desde John F. Kennedy. Que tipo de país o vencedor vai herdar? Apesar da seqüência de falências bancárias e do pânico em Wall Street remeterem aos anos 1930, o risco não está tanto em repetir a Grande Depressão, mas em virar um novo Japão, que, após a cobiça no mercado de ações e imobiliário que atingiu seu ápice em 1989, sofreu uma "década perdida" - 10 anos de estagnação econômica e um ciclo aparentemente sem fim entre ativos em queda e ajuda governamental.

Com esse amargo exemplo em mente, o presidente do Fed (Banco Central americano), Ben Bernanke, experiente estudioso de calamidades econômicas, e o secretário do Tesouro, Henry Paulson, tentam agir sob um delicado equilíbrio - injetar centenas de bilhões de dólares no sistema financeiro sem reforçar as bases frágeis, com o risco do sistema nunca se recuperar. O presidente Obama ou McCain enfrentará uma tensão semelhante - quantos detentores de hipoteca falidos devem ser ajudados, quanto e que tipo de estímulo fiscal deve ser dado?

Mas eles também terão que lidar com uma série muito mais complexa de assuntos. O que Washington pode fazer para interromper o ciclo patológico de crescimento especulativo seguido de queda titânica? É verdade que crescimento e queda são características inevitáveis dos mercados; como se diz em Wall Street, se não fossem os especuladores, talvez não houvesse financiamento nem para ferrovias, nem para o Google.

Mas quando os mercados precisam da salvação de duas das maiores companhias de hipoteca, um banco de investimento e uma gigante das seguradoras no período de seis meses - enquanto trabalha num amplo pacote para hipotecas - isso é um sinal de que o sistema parou de funcionar. Mais claramente, o sistema encorajou e permitiu um grau de risco que se provou intolerável.

É bom lembrar que a AIG já ostentou o slogan "o maior risco é não arriscar." Para os investidores educados pelas máximas da prudência, a frase funcionou como um desafio. Se seus ativos estão seguros, você provavelmente não está tendo retorno suficiente e talvez nem mereça investir.

A absoluta imprudência dessa filosofia só se concretizou após o resgate da seguradora com a linha de crédito de US$ 85 bilhões do Fed. Na esteira desse resgate, os investidores tinham tão pouco apetite pelo risco que até as ações de instituições sólidas foram atingidas.

Os investidores estavam tão desesperados para se livrar do risco que os ativos do tesouro, o mais seguro dos investimentos, passaram a oferecer retorno nulo. As pessoas estavam emprestando ao tesouro americano sob a promessa de juros zero - apenas saber que seu capital estava seguro já era lucro suficiente.

Enquanto bancos de investimento altamente alavancados, negociantes de derivativos e fundos especulativos desregulados eram atingidos, instituições regulamentadas como bancos continuavam relativamente estáveis. Uma regra nociva parecia operar em Wall Street: onde o sistema estivesse mais frágil ou os limites regulatórios menos efetivos, o pânico era maior. Talvez isso não fosse um acidente.

Há alguns anos, em um artigo intitulado Regulação e Reação, David Moss e Sarah Brennan (da Harvard Business School e da Universidade de Columbia, respectivamente) contam a marcante experiência dos bancos estaduais de Nova York em meados do século 19.

Os bancos da época emitiam "notas" que serviam de moeda. Mas quando a confiança ficou abalada e as pessoas tentaram trocar as notas por ouro, o pânico se alastrou e bancos faliram. Assim, nos anos 1830, Nova York instituiu uma salvaguarda primitiva: exigiu que os bancos lastreassem suas notas com títulos governamentais de alto grau.

Isso reduziu o risco do sistema, mas limitou as capacidades de empréstimo dos bancos. A lei não mencionava, no entanto, contas correntes. No devido tempo, os bancos expandiram o uso dessas contas, que se tornaram a forma dominante de dinheiro bancário em Nova York.

Infelizmente, em 1857, uma crise nos títulos ferroviários incitou o pânico. A revista Harper's relata que "Wall Street foi sufocada por milhares de pessoas forçando sua entrada nos bancos para exigir espécie" - ou seja, ouro - para seus cheques.

A lição, segundo Moss, é que "o contágio é como uma enchente. Ele encontra um meio de atingir a parte não protegida". Para 1929 e seus desdobramentos, isso significou ações adquiridas a crédito e depósitos bancários.

As proteções criadas nos anos 1930 foram formidáveis, e seus efeitos perduram. Hoje, apesar dos bancos estarem sob pressão, seus correntistas dormem tranqüilos. As pessoas perdem seus empregos, mas recebem auxílio-desemprego e continuam a gastar.

Mas essas proteções dificilmente são o bastante. Inovação financeira sempre procura o terreno mais acessível. A última geração testemunhou vários novos produtos financeiros - uma noção realmente nova e mais flexível de finanças, além de incrivelmente complexa. Mas a arquitetura básica do New Deal sofreu apenas pequenos ajustes.

A uma geração atrás, se você comprasse uma apólice de seguro contra quebra de contrato, a corretora que a vendeu era obrigada a manter o capital adequado. Hoje, você pode entrar em uma troca de crédito por default (a AIG segurou bilhões de dólares) mesmo se seu capital for insuficiente. Todo derivativo (graças ao lobby bem-sucedido de Wall Street) foi declarado não ser um título e, portanto, ficou fora da alçada da Comissão de Câmbios e Títulos. Os árbitros têm apitado no campo errado.

Isso não significa que Washington é o principal culpado. Os mercados são incrivelmente tolos. As hipotecas duvidosas que receberam seguro, as avaliações de crédito que as aprovaram e a confiança depositada nelas pelos bancos foram especulativas e estúpidas.

Mas sabemos que as pessoas fazem coisas tolas. Os mercados quase pedem por isso. Se você é a Lehman Brothers e não toma emprestado, você não vale tanto quanto os seus iguais, o que faz suas ações caírem e você ser superado. Então, você pega dinheiro emprestado.

Apenas regulação pode fiscalizar esse instinto. Bancos de investimento deveriam estar sujeitos a limites de alavancagem; fundos especulativos precisam de escrutínio; e não é só. Alan Blinder, ex-vice presidente do Fed, diz que o próximo presidente e o Congresso precisarão redesenhar o mapa regulatório por inteiro, porque ele "foi revelado para ser desejado." Amém.

* Roger Lowenstein, membro do conselho diretor do Fundo Sequóia, escreve para The New York Times Magazine.

Tradução: Amy Traduções

The New York Times Magazine

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