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Domingo, 21 de setembro de 2008, 09h52 Atualizada às 09h51

Filha de Kennedy vê vantagem católica em Obama

Deborah Solomon

Kerry Kennedy, militante dos direitos humanos, fala sobre as igrejas como prestadoras de serviços de saúde, apoiar Hillary Clinton quando sua mãe preferia Obama e sobre a diferença entre as mães do hóquei e as mães do futebol.

NYTM: A direita religiosa neste país tem tanta influência política que fico imaginando se a senhora está tentando inspirar a esquerda religiosa, com seu livro Being Catholic Now ser católico hoje.
Kerry: Não. Não se trata de um livro político. É um livro que abarca católicos que variam de Bill O'Reilly, na direita, a Bill Maher, na esquerda, passando por pessoas como Frank McCourt, que alega não mais ser católico. Pensei agora que outro título poderia ser "todos somos bons católicos".

NYTM: No prefácio, a senhora descreve Jesus como uma espécie de ativista dos direitos humanos.
Kerry: Creio que é isso que ele tenha sido. A Igreja Católica em nossa país tem uma forte tradição de ativismo pela justiça social. Ela atende à comunidade imigrante, combate a pena de morte e é uma das maiores prestadoras de serviços de saúde no país.

NYTM: A senhora está preocupada por os católicos já estarem deixando as fileiras do Partido Democrata há uma geração, e adotando representação política mais conservadora?
Kerry: Nesta eleição, o fato de que Joe Biden seja um católico de origens operárias desempenhará papel importante em trazer de volta ao partido católicos que, de outra forma, votariam nos republicanos.

NYTM: A senhora pediu que Biden escrevesse um ensaio para seu novo livro?
Kerry: Não, e como fui burra por isso.

NYTM: A senhora é a sétima dos filhos de Robert e Ethel Kennedy?
Kerry: Sim. Somos tantos - 11 ao todo. A única hora do dia em que havia calma e serenidade era de noite, quando nos reuníamos no quarto dos meus pais e nos ajoelhávamos para rezar.

NYTM: A senhora só tinha oito anos quando seu pai foi assassinado.
Kerry: Quando eu era mais moça, muita gente em minha família morreu. Na minha mente, o paraíso era um lugar físico, como minha casa ou escola, e eu sabia que todas as pessoas que eu amava estavam juntas lá, imensamente felizes, e velando por mim, enquanto aguardavam minha chegada àquele lugar maravilhoso. Quando viajava de avião, costumava procurar anjos entre as nuvens.

NYTM: A senhora apoiou Hillary Clinton nas primárias democratas - ou seja, se opôs à sua prima Caroline e ao seu tio Ted.
Kerry: Foi a primeira vez que isso aconteceu em minha família, mas agora todos apoiamos Barack Obama entusiasticamente.

NYTM: A senhora acredita que Sarah Palin tenha sido escolhida para aproveitar a mobilização feminina gerada por Hillary?
Kerry: Creio que isso tenha sido parte da razão. Mas também acredito que McCain desejasse apelar à direita religiosa. Ela é uma cristã evangélica que se opõe ao aborto, acredita em excluir certos livros das bibliotecas e que a guerra no Iraque era a vontade de Deus.

NYTM: Creio que ela também atraia as eleitoras que têm filhos que jogam hóquei. O hóquei não é um esporte mais popular que o futebol, nos Estados conservadores?
Kerry: Eu mesma tenho filhas que jogam futebol, basquete e vôlei.

NYTM: A senhora já pensou em disputar um cargo eletivo?
Kerry: Pensei nisso em diversas ocasiões. Mas Cara e Mariah têm 13 anos, e Michaela tem 11. Como mãe sem marido, creio que isso custaria demais à minha família. O pai delas já é político.

NYTM: A senhora está se referindo a Andrew Cuomo, secretário da Justiça de Nova York, de quem a senhora se divorciou de maneira pública e acrimoniosa. Foi isso que a levou a empreender um livro sobre o catolicismo?
Kerry: Creio que o catolicismo tenha sido uma fonte de força durante o processo e, interessantemente, uma das razões para que eu tenha me mantido em um casamento difícil por 13 anos. Minha crença é de que o casamento deveria ser indissolúvel. Fui criada assim. É preciso trabalhar no casamento, fazer com que funcione.

NYTM: Mas não se pode fazer absolutamente tudo funcionar.
Kerry: Eu entreguei nas mãos de Deus. Que a vontade d'Ele seja feita.

NYTM: Parece uma boa maneira de encerrar essa entrevista.
Kerry: Mas talvez uma declaração como essa represente um desserviço à autonomia feminina. Não quero deixar a impressão de que a mulher trabalha, trabalha e trabalha para que o casamento funcione e depois a decisão final não cabe a ela, e deve ser entregue a Deus. Chega um momento em que a pessoa precisa decidir por si mesma que deseja mudar de vida.

The New York Times Magazine

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