
Atualizada às 09h51 Deborah Solomon
Kerry Kennedy, militante dos direitos humanos, fala sobre as igrejas como prestadoras de serviços de saúde, apoiar Hillary Clinton quando sua mãe preferia Obama e sobre a diferença entre as mães do hóquei e as mães do futebol.
NYTM: A direita religiosa neste país tem tanta influência política que fico imaginando se a senhora está tentando inspirar a esquerda religiosa, com seu livro Being Catholic Now ser católico hoje.
Kerry: Não. Não se trata de um livro político. É um livro que abarca católicos que variam de Bill O'Reilly, na direita, a Bill Maher, na esquerda, passando por pessoas como Frank McCourt, que alega não mais ser católico. Pensei agora que outro título poderia ser "todos somos bons católicos".
NYTM: No prefácio, a senhora descreve Jesus como uma espécie de ativista dos direitos humanos.
Kerry: Creio que é isso que ele tenha sido. A Igreja Católica em nossa país tem uma forte tradição de ativismo pela justiça social. Ela atende à comunidade imigrante, combate a pena de morte e é uma das maiores prestadoras de serviços de saúde no país.
NYTM: A senhora está preocupada por os católicos já estarem deixando as fileiras do Partido Democrata há uma geração, e adotando representação política mais conservadora?
Kerry: Nesta eleição, o fato de que Joe Biden seja um católico de origens operárias desempenhará papel importante em trazer de volta ao partido católicos que, de outra forma, votariam nos republicanos.
NYTM: A senhora pediu que Biden escrevesse um ensaio para seu novo livro?
Kerry: Não, e como fui burra por isso.
NYTM: A senhora é a sétima dos filhos de Robert e Ethel Kennedy?
Kerry: Sim. Somos tantos - 11 ao todo. A única hora do dia em que havia calma e serenidade era de noite, quando nos reuníamos no quarto dos meus pais e nos ajoelhávamos para rezar.
NYTM: A senhora só tinha oito anos quando seu pai foi assassinado.
Kerry: Quando eu era mais moça, muita gente em minha família morreu. Na minha mente, o paraíso era um lugar físico, como minha casa ou escola, e eu sabia que todas as pessoas que eu amava estavam juntas lá, imensamente felizes, e velando por mim, enquanto aguardavam minha chegada àquele lugar maravilhoso. Quando viajava de avião, costumava procurar anjos entre as nuvens.
NYTM: A senhora apoiou Hillary Clinton nas primárias democratas - ou seja, se opôs à sua prima Caroline e ao seu tio Ted.
Kerry: Foi a primeira vez que isso aconteceu em minha família, mas agora todos apoiamos Barack Obama entusiasticamente.
NYTM: A senhora acredita que Sarah Palin tenha sido escolhida para aproveitar a mobilização feminina gerada por Hillary?
Kerry: Creio que isso tenha sido parte da razão. Mas também acredito que McCain desejasse apelar à direita religiosa. Ela é uma cristã evangélica que se opõe ao aborto, acredita em excluir certos livros das bibliotecas e que a guerra no Iraque era a vontade de Deus.
NYTM: Creio que ela também atraia as eleitoras que têm filhos que jogam hóquei. O hóquei não é um esporte mais popular que o futebol, nos Estados conservadores?
Kerry: Eu mesma tenho filhas que jogam futebol, basquete e vôlei.
NYTM: A senhora já pensou em disputar um cargo eletivo?
Kerry: Pensei nisso em diversas ocasiões. Mas Cara e Mariah têm 13 anos, e Michaela tem 11. Como mãe sem marido, creio que isso custaria demais à minha família. O pai delas já é político.
NYTM: A senhora está se referindo a Andrew Cuomo, secretário da Justiça de Nova York, de quem a senhora se divorciou de maneira pública e acrimoniosa. Foi isso que a levou a empreender um livro sobre o catolicismo?
Kerry: Creio que o catolicismo tenha sido uma fonte de força durante o processo e, interessantemente, uma das razões para que eu tenha me mantido em um casamento difícil por 13 anos. Minha crença é de que o casamento deveria ser indissolúvel. Fui criada assim. É preciso trabalhar no casamento, fazer com que funcione.
NYTM: Mas não se pode fazer absolutamente tudo funcionar.
Kerry: Eu entreguei nas mãos de Deus. Que a vontade d'Ele seja feita.
NYTM: Parece uma boa maneira de encerrar essa entrevista.
Kerry: Mas talvez uma declaração como essa represente um desserviço à autonomia feminina. Não quero deixar a impressão de que a mulher trabalha, trabalha e trabalha para que o casamento funcione e depois a decisão final não cabe a ela, e deve ser entregue a Deus. Chega um momento em que a pessoa precisa decidir por si mesma que deseja mudar de vida.
The New York Times Magazine
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