
Atualizada às 18h33 Daniel Bergner
Leah Daughtry tirou os sapatos de salto alto, na igreja House of the Lord, em Brooklyn, subiu ao púlpito e entoou: "Estou ascendendo!" Ela usava uma longa túnica negra com botões dourados que corriam de seu colarinho alto até quase o chão. Daughtry me disse que costuma pregar descalça para "escapar ao ego", e permitir que as palavras de Deus a atravessem desimpedidas. "Estou ascendendo!", ela entoou outra vez.
Daughtry é uma mulher negra de rosto redondo e sem rugas, e usa óculos pequenos e de aro acobreado. Ela é a chefe de gabinete de Howard Dean, o presidente do Comitê Nacional Democrata. No segundo trimestre do ano passado, Dean a indicou como presidente do comitê organizador da convenção presidencial democrata; ela cuida da organização do evento em Denver, no mês que vem - e precisa garantir que tudo funcione, que haja quartos de hotel suficientes para acomodar os participantes e que os milhões de pessoas que acompanharão o evento de quatro dias pela TV se sintam cativados e inspirados pelo espetáculo. Daughtry é uma executiva muito discreta para um evento de escala imensa.
Mas há domingos em que ela é uma pregadora pentecostal, a voz repleta de uma força que ela diz não ser dela. Desde o começo de seu sermão, em uma tarde de junho, ela parecia realmente tomada por uma força que percorria seu corpo; enxugava as lágrimas dos olhos com um pequeno lenço de tecido branco.
Por trás dela, enquanto pregava, uma simples cruz de madeira pendia de uma parede de tijolos na igreja, da qual seu pai, Herbert Daughtry, é o pastor. Herbet Daughtry se converteu na prisão, onde serviu sentença por assalto a mão armada, quando tinha pouco mais de 20 anos. O pai de Herbert fundou a igreja, 50 anos atrás (e seu avô e bisavô também eram pastores). Agora, chegou a vez de Leah pronunciar o sermão, como parte de uma celebração de aniversário.
Ela em geral prega para sua congregação de cerca de 20 fiéis na capital, Washington. O culto é realizado em uma sala do condomínio onde ela vive. As cadeiras dobráveis são colocadas, e eles cantam, dançam, tropeçam e clamam ao Senhor. Muitas vezes, a presença do Espírito Santo é tão forte que as vozes não produzem palavras de nenhum idioma conhecido. Eles estão vivendo uma versão de um milagre bíblico. Na festa de Pentecostes, no 50° dia depois da Páscoa, o Espírito Santo tomou controle tão completo dos discípulos de Jesus que, afirma a Bíblia, eles passaram a falar "em outras línguas".
No domingo do aniversário, o tema de Daughtry era a profeta Débora, que, na versão da pastora para a lenda bíblica, abandonou o conforto do papel de visionária que era naturalmente seu e adentrou o campo de batalha em defesa de Israel. "O único meio de realizar o trabalho do Senhor era abandonar o lugar confortável que ela tinha", pronunciou Daughtry. "Deus nos desafia a ascender! Deus nos quer em lugares que desconhecemos!"
A despeito de seu trabalho como pastora, Daughtry defende zelosamente sua privacidade. O sermão era referência ao desconforto que ela sente devido à atenção que tem recebido como líder do esforço democrata para atrair o voto religioso em novembro. Mas a tarefa é uma obrigação: uma maneira, ela acredita, de reafirmar o compromisso firmado há décadas entre sua família e Deus.
Quando Dean assumiu a presidência do Partido Democrata, no começo de 2005, Daughtry, que era chefe de gabinete de Terry McAuliffe, o então presidente, conversou com o novo líder sobre os resultados de uma pesquisa que tinha solicitado para determinar os motivos da derrota de John Kerry em 2004. A pesquisa entre leitores de oito Estados de eleitorado indeciso antes do pleito havia constatado que - quase metade do eleitorado leva a fé religiosa tão em conta quanto outras considerações -, ao decidir como votar.
Dean pediu que ela continuasse no cargo, e apoiou seu plano de contratar uma equipe que ajudaria o partido a ouvir e ser ouvido pelos eleitores mais religiosos. O grupo, conhecido como Faith in Action (FIA), começou a realizar reuniões semanais na sede do partido em Washington, e era composto por três evangélicos, um católico, um muçulmano e um judeu, todos com históricos que combinavam religião e política. (Daughtry diz que a ação da FIA agora será integrada à da campanha de Obama, nos próximos meses, e retomada em separado depois da eleição.)
Ainda que muçulmanos e judeus não representem grandes eleitorados, podem fazer alguma diferença na conquista da Casa Branca, e Dean e Daughtry além disso estão determinados a honrar a tradição do partido como "uma grande tenda" de população diversificada. Mas é entre os 59 milhões de adultos evangélicos e os 54 milhões de católicos que o partido espera conquistar votos suficientes para virar a eleição, entre eleitores que recentemente vêm optando pelos republicanos.. Os evangélicos brancos, que compreendem 80% dos evangélicos do país, optaram por Bush diante de Kerry à razão de 78% para 22%, em 2004. Já o controle do eleitorado católico pelos republicanos é mais tênue. Bush foi derrotado por margem baixa entre os católicos, em 2000, e venceu com 52% de seus votos em 2004. No entanto, a tendência preocupa os democratas, dada a presença católica em Estados que podem ser decisivos, como a Pensilvânia.
Daughtry vê um sério problema em parcela significativa do Partido Democrata. Há certa inquietude quanto a falar em valores morais ou religiosos. "Os democratas tendemos a ser cerebrais", me disse Daughtry em seu elegante escritório em Denver, acrescentando que parte da reticência se devia ao temor de alienar os não religiosos e pessoas de outras fés. Mas Barack Obama desafia essa tendência e se declara cristão. Antes da primária do Kentucky, em maio, a equipe de Obama distribui panfletos que recordavam o dia em que "Obama sentiu o despertar de seu espírito e aceitou Jesus em sua vida". Obama declarou que "os laicos estão errados quando pedem aos religiosos que deixem a fé do lado de fora ao entrar no espaço público. A maior parte dos grandes reformistas norte-americanos não só eram motivados por sua fé mas sempre usaram a linguagem religiosa para defender sua causa".
Daughtry não poderia aprovar mais. "Como pastora", afirma, "creio que isso seja maravilhoso. E, como eleitora, quero saber o que move um candidato; isso é parte central do entendimento dele". E também no de Daughtry. "Fomos criados", ela se refere a seu irmão e duas irmãs, "para crer que só teríamos sucesso - no sentido de paz interior - se fôssemos fiéis ao compromisso que nosso tataravô assumiu para com Deus". O compromisso, o pai dela explicou, "é lutar junto às e pelas pessoas, para melhorar a vida da família humana". Para Daughtry, "neste momento político", isso quer dizer ajudar os democratas a vencer.
A missão dela, dirigida da sede do Partido Democrata em Washington e dos escritórios da convenção em Denver, é essencial à transformação da reputação do partido. O objetivo das ações da FIA junto a líderes religiosos não é conquistar o apoio político deles, mas mudar a maneira pela qual pensam. John Kelly, membro católico da FIA, treinou os diretores estaduais de comunicação do partido sobre o melhor modo de abordar a mídia religiosa, e rebateu a um editorial de jornal católico que definia a alma do partido como laica com um artigo no qual afirmava que "os democratas são pessoas de fé. Os valores centrais do partido se alinham a doutrinas centrais do catolicismo - criar uma sociedade que atenda às necessidades dos pobres, cuidar dos doentes, proteger as famílias, promover a paz e sustentar nosso ambiente, saúde e vida".
Acompanhada pela nova ênfase do partido na "redução do aborto", a lista de valores oferecida por Kelly exemplifica o mantra da FIA: "podemos sempre encontrar território comum". O partido pode ter diferenças irreconciliáveis com os católicos e evangélicos conservadores, ao defender o aborto legal e acessível, mas a esperança democrata é que esses eleitorados religiosos respeitem os esforços do partido para combater o aborto genuinamente, à sua maneira; que eles se unam ao partido no apoio a programas de cuidados com a infância e talvez a políticas que promovam a contracepção; e que os devotos, especialmente os mais jovens, se deixem atrais por políticas democratas que tratam de profundas preocupações religiosas sobre a guerra no Iraque, a crise em Darfur, a injustiça econômica e o aquecimento global - o foco do movimento evangélico que assumiu o nome de "cuidando da criação".
<`p>Richard Land, que por muito tempo presidiu a Comissão de Liberdade e Ética Religiosa na Convenção Batista do Sul, a maior denominação evangélica do país, com 16 milhões de fiéis, elogia os democratas pelo esforço de contactar com respeito os religiosos. Mas a idéia de que os evangélicos possam abandonar seu compromisso quanto a proteger a vida desde o instante da concepção é, ele argumenta, resultado da cegueira dos democratas.Para formar elos com os fiéis, o partido não depende apenas dos seis membros da FIA. Daughtry também criou um Conselho de Assessoria Religiosa de 60 membros, consistindo principalmente de membros importantes do clero, para ajudar a deixar claro que os democratas se importam com a religião. Ela ordenou a compra de comerciais de rádio promovendo o partido em estações cristãos, nas eleições de 2006.
A FIA também financiou os esforços estaduais do partido para promover o contato com as religiões. No Alabama, o presidente estadual do partido, adversário do aborto, recebeu dinheiro da FIA para publicar um "Guia de Fé e Valores para os Eleitores", antes da eleição de 2006. O encarte de 12 páginas distribuído em jornais locais cobria o aspecto religioso das candidaturas democratas no Estado e se encerrava com um "compromisso com o futuro", da parte do partido.
O compromisso prometia "exigir que as escolas públicas incluíssem os estudos bíblicos em seu currículo", e prometia pelo menos duas vezes contrariar as posições nacionais do Partido Democrata: ao apoiar "uma emenda constitucional para confirmar que toda vida é dom de Deus e deve ser protegida, e que a vida começa pela concepção"; e ao apoiar "todos os esforços para impedir que o casamento seja redefinido ou oferecer as proteções do casamento aos participantes de uniões civis homossexuais".
Daughtry pareceu surpresa quando li essas promessas para ela. Ainda que ela acredite na verdade literal da Bíblia e não veja problema em que a teoria da criação seja ensinada nas escolas em companhia da teoria da evolução, de acordo com o que prega a Igreja de seu pai, ela ainda assim é pró-aborto. "Deus nos dá o direito de escolha quanto ao mais importante tema", ela disse - "aceitá-lo ou não em nossas vidas. Como, então, poderíamos remover esse direito de escolha com relação a outras questões profundas? Não acreditamos que o governo deva interferir". Mas ao ser informada sobre as promessas feitas por seu partido no Alabama, ela preferiu ressaltar a unidade dos democratas e sua amplo abrangência alcance: "A coisa mais maravilhosa sobre o Partido Democrata é que temos espaço para todas as opiniões".
Em uma mesa de madeira clara na sede do Partido Democrata em Washington, depois de uma oração cuidadosamente ecumênica pronunciada por E. Terri LaVelle, um dos membros evangélicos da FIA, Daughtry ouviu silenciosamente os relatórios semanais de todos os membros do grupo, em uma reunião em junho. Ela lembrou a todos que eles ainda estavam à procura do líder religioso hispânico certo para subir ao palanque durante a convenção e participar do serviço religioso ecumênico com o qual ela será aberta.
Será a primeira convenção democrata a começar com um serviço religioso, outro sinal que tem por objetivo provar que o partido leva a sério as questões de fé, e os membros da FIA, que trabalharam por meses para definir a melhor maneira de incluir a fé na convenção, querem garantir que o serviço seja conduzido por uma ampla gama de líderes religiosos. (A convenção também será a primeira na história do partido a incluir eventos para religiosos, em companhia dos painéis dedicados a diversos grupos étnicos, mulheres, deficientes físicos e homossexuais.)
Antes, citando um versículo bíblico, Daughtry me disse que Deus havia conferido a ela "o dom da administração". Essa é sua primeira e maior vocação - manter as coisas organizadas, trabalhar nos bastidores para que aconteçam. Ela fez conhecer que não aprova a atenção que a mídia começou a dedicar à sua pessoa, ainda que positiva. "Os intelectuais, o pessoal cabeça - eles não entendem o pentecostalismo. Não compreendem a idéia de que o espírito nos move. Como consigo fazer com que os trens saiam no horário, para eles é difícil reconciliar esse fato à minha religião". Daughtry mesma não tem dificuldade em promover essa reconciliação em sua própria vida; para ela, os elementos não se opõem, porque a fonte de seus talentos administrativos é Deus.
Tradução: Paulo Migliacci ME
The New York Times Magazine
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