
Rob Walker
Quer ou não Barack Obama possa vir a ser um bom presidente, é evidente que ele serve como excelente fonte de inspiração. Não me recordo de qualquer candidato a posto político, em muito tempo, que tenha inspirado tamanha criatividade, utilizada a custo zero em benefício de sua campanha. Talvez isso sirva para sugerir alguma coisa quanto a Obama. Ou talvez nos revele alguma coisa sobre aqueles que o apóiam.
» Hillary ataca Obama por comentários
» Obama: interioranos são "amargurados"
Os exemplos são muitos. Um dos mais notáveis é uma gravura de tiragem limitada criada em janeiro por Shepard Fairey, um artista de Los Angeles. Fairey é mais conhecido como criador das imagens da campanha "Obey Giant", que, desde 1989, vêm sendo espalhadas em cidades grandes de todo o mundo por meio de grafites, etiquetas e cartazes. (Vale a pena o aviso: sou autor de um ensaio para um livro editado por Fairey em 2006, Obey: Supply and Demand, uma avaliação extensa do projeto e da carreira artística dele até o momento.)
Fairey fez uma breve declaração ao exibir o retrato pela primeira vez, mencionando sua "grande convicção de que Barack Obama será o próximo presidente". As vendas das gravuras, ele afirmou, "bancariam a realização de uma extensa campanha política com o uso de cartazes, em todo o Estado".
Além de surgir em diversas ruas, a imagem posteriormente também encontrou espaço em uma camiseta, criada em colaboração com a Upper Playground, uma marca de San Francisco cuja especialidade são roupas de temática urbana.
Os cartazes também atraíram a atenção de integrantes da campanha de Obama, e o candidato enviou um bilhete de agradecimento ao artista. A direção de sua campanha pediu que Fairey criasse um novo cartaz, que se tornou a primeira peça de uma série conhecida como "Artistas por Obama", que está à venda na seção de arte do site barackobama.com.
Fairey declarou à revista Creativity Online que, embora ele sempre tenha sido bastante ativo em termos políticos, existe algo de novo no entusiasmo que ele agora professa sentir. "Eu achei que enfim havia chegado a hora de mostrar a cara", afirmou.
Diversos outros artistas parecem ter sentido algo de parecido. Uma dupla da Califórnia que trabalha sob o nome Date Farmers criou uma gravura de Obama com uma tiragem de 300 cópias; se acrescentarmos as gravuras pró-Obama de Sam Flores, do grupo MAC e de Munk One, o candidato já está com meio caminho andado para uma exposição temática em uma galeria de arte de vanguarda.
Enquanto isso, o músico will.i.am, do grupo Black Eyed Peas, criou um vídeo no qual um discurso de Obama é remixado em forma de música, com diversas celebridades colaborando para repetir um dos mais freqüentes lemas da campanha: "Yes, we can" sim, nós podemos. O vídeo foi assistido mais de 6,5 milhões de vezes no YouTube e inspirou diversos derivados e imitações, entre os quais "No, You Can't", uma versão satírica criada por um grupo chamado Billionaires for Bush.
Como aponta a revista Advertising Age, diversos "criativos" (sim, essa palavra é realmente o nome de um cargo no setor) da publicidade também produziram gratuitamente vídeos para a campanha do candidato. A criatividade das bases do momento político resultou em produtos como o site ObamaOfDreams.com, que oferecia camisetas nas quais os logotipos de times de beisebol eram alterados e passavam a conter o nome "Obama" (até que a federação de beisebol profissional interviesse). O site Craftzine.com, por sua vez, recentemente criou um vestido "O'Bama" para o Dia de St. Patrick, o padroeiro da Irlanda, celebrado pelos descendentes de irlandeses dos Estados Unidos.
Gente criativa já havia apoiado outras campanhas políticas, e Obama não tem o monopólio sobre essa forma de expressão, nem mesmo entre os pré-candidatos de seu partido. (Existe, afinal, o estranho videoclipe de Jack Nicholson em apoio a Clinton, composto por cenas de seus filmes). Mas o apoio a Obama não parece ser uma simplesmente manifestação de simpatia; é mais como uma declaração de que o candidato é um ídolo.
Dan Ariely, professor de economia comportamental no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e autor de um livre recente sobre irracionalidade e previsibilidade, chega a comparar o fenômeno a um romance, mencionando pesquisas sobre os estágios iniciais de um namoro, para oferecer uma comparação. "Quando recebemos informações parciais sobre outras pessoas, tendemos a preencher as lacunas de maneira otimistas; presumimos que elas sejam maravilhosas, que sejam exatamente como nós, compartilhem de nossos valores e preferências em tudo". Ele estima que parte do charme de Obama possa derivar da maneira pela qual os fãs preenchem essas lacunas.
E isso nos conduz a talvez a mais deliciosa peça de criação inspirada por Obama, o site barackobamaisyournewbicycle.com. O site consiste apenas de declarações sobre coisas maravilhosas que Obama fez por "você". Ele deixou um comentário em seu blog, o apanhou no aeroporto, construiu um robô para você, te acha uma gracinha, e, em um momento fofo, "Barack Obama tem um balão para você". O site foi interpretado como declaração de apoio - mas também como sátira aos partidários do candidato, que parecem ter sido cegados pelo afeto.
Evidentemente é essa ambigüidade que o torna agradável. Porque pequenas coisas perfeitas como essa são invariavelmente convertidas em formas de lucrar, um acordo foi assinado e o site será lançado em forma de livro ilustrado. O objetivo declarado é que ele chegue às lojas antes da convenção democrata - o que reflete a fria realidade por trás do otimismo político. Toda a criatividade do mundo em termos de expressão não é capaz de garantir que poderemos um dia descobrir que tipo de presidente Obama seria.
Tradução: Paulo Migliacci ME
The New York Times Magazine
09h56 » Fotos exibem as diferentes versões de Sarah Palin
18h17 » Convenções amplificam diferença entre Obama e McCain