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Terça, 11 de março de 2008, 15h09

Escândalo enterra discurso implacável de Spitzer

Michael Powell
Mike McIntire

Ele está à beira do precipício, da ruína - o cruzado incansável e político aparentemente intocável agora transformado em codinome no depoimento que embasa um processo federal e o identifica como Cliente 9.

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A ascensão e queda de Eliot Spitzer foram igualmente vertiginosas. Ele era o menino inteligente que se formou na Universidade de Princeton e na Escola de Direito de Harvard e se tornou secretário estadual da Justiça em Nova York movido por um espírito vingador.

Sua caçada aos malfeitores de Wall Street vinha acompanhada de um fervor moralista irretocável. Spitzer estava sempre encontrando "traições da confiança pública", definidas em cada ocasião como "chocantes" e "criminosas".

Depois, conquistou o governo do Estado em 2006 por larga maioria. Os reformistas se divertiam imaginando o efeito que o jovem governador reformista teria sobre a ossificada burocracia da capital estadual, Albany.

Spitzer sempre fez questão de se caracterizar como o macho alfa, e de ostentar sua crença no poder do confronto como ferramenta de esclarecimento. Poucos dias depois de assumir, se descreveu como "rolo compressor", ao presidente do Legislativo estadual, acrescentando um palavrão para enfatizar.

Não demorou para que seus inimigos e até mesmo seus admiradores e amigos começassem a defini-lo por outro adjetivo: imprudente. O novo governador parecia sempre disposto a fazer novos inimigos, ameaçando adversários de destruição quando poderia ter resolvido a situação por meio de um compromisso habilidoso, um tapinha nas costas.

"Não me adapto naturalmente a essa função", ele declarou recentemente a um jornalista, e talvez quisesse dar a entender mais do que a declaração revelava.

A natureza escandalosa de seus atuais problemas - ser apanhado em uma escuta enquanto acertava ao telefone os detalhes de um encontro em um hotel com uma prostituta de alto preço, de acordo com policiais - chocou até mesmo os seus mais severos críticos, ainda que o fato de que Spitzer tenha decidido correr um risco dessa proporção não os surpreendesse.

"Tínhamos esse político que conquistou vitória esmagadora, e agora ele terminou por infligir ferimentos fatais à sua vida pública e privada", diz Douglas Muzzio, cientista político do Baruch College e estudioso da política do Estado de Nova York. "Não sou psicólogo, mas para mim isso representa um caso da imprudência mais completa."

Spitzer não é o primeiro político a ostentar fervor moral, mas ocasionalmente demorou a reconhecer que suas atitudes mesmas poderiam ser contestadas do ponto de vista ético.

Em 1994, ele negou - e admitiu posteriormente - ter obtido de seu pai um empréstimo de milhões de dólares para disputar as primárias democratas pela candidatura ao posto de secretário estadual da Justiça (um cargo eletivo, em muitos Estados americanos).

Em sua função como promotor público, Spitzer não hesitaria em definir esse comportamento como ilegal. Os republicanos se queixaram, mas ele conseguiu contornar as questões e se elegeu para o posto quatro anos mais tarde.

Como secretário da Justiça, sua ambição, inteligência e energia eram palpáveis. E o momento em que chegou ao cenário político não poderia ter sido melhor. Uma década de lucros gordos no mercado de ações estava se encerrando, e uma torrente de dinheiro fácil havia erodido os controles financeiros de muitos bancos de investimento, corretoras e seguradoras.

Spitzer se apresentou como o novo xerife de Wall Street, e saiu em perseguição de sua presa. Os jovens advogados de sua equipe eram aconselhados a agir, não refletir. Caso eles pudessem aproveitar leis antigas para propósitos novos, ainda que jamais previstos, ainda melhor.

E era evidente que Spitzer dominava completamente esse estilo de justiça. Usando táticas agressivas, ameaçando esmagar seus oponentes, o secretário extraiu vastos pagamentos em processos civis encerrados por acordo, de empresas e executivos ansiosos por evitar processos criminais.

Mas seu estilo combinava dureza ao que, para muitos, parecia ser intimidação. Ele despejava insultos contra os alvos de suas investigações, e ocasionalmente contra colegas que considerava lentos demais, ou duvidosos demais quanto às táticas que promovia.

Apesar das inimizades que isso lhe valeu, Spitzer se via como uma guerreiro, em meio a uma guerra, e passou a simbolizar a repugnância do público diante dos excessos de Wall Street. Por isso, a maioria dos eleitores parecia disposta a lhe conceder o benefício dúvida.

Como secretário da Justiça, ele também deu início a ataques que se provaram muito populares contra as instituições de crédito hipotecário e os fabricantes de armas, e divulgou um relatório cuja conclusão era a de que a chance de que a polícia de Nova York detivesse um negro ou latino por suspeita de porte de armas era duas vezes maior do que a de que detivesse um branco - conclusão que enraiveceu o então prefeito Rudolph Giuliani.

Além disso, Spitzer sempre cuidou zelosamente de sua imagem, cultivando contatos com jornalistas e conselhos editoriais. Dessa forma, o caminho para o governo do Estado parecia desimpedido já quando lançou sua campanha, em Buffalo, em tons como sempre belicosos.

Ele prometeu que eliminaria os "cupinchas desqualificados", a "política do quem paga, leva" e que imporia liderança ao Estado.

Infelizmente para Spitzer, seu estilo combativo, tão útil contra os executivos financeiros, saiu pela culatra em Albany. Joseph Bruno, 78 anos, o líder republicano no Senado estadual, não se cansa de atacar Spitzer, 48 anos, definindo-o como "menino mimado".

No final do ano passado, Spitzer disse a um jornalista que "falar abertamente é natural para mim" - pouco depois de comprar briga com o prefeito Michael Bloomberg, de Nova York, que se opunha a um plano do governador para oferecer carteiras de motorista a imigrantes ilegais.

Spitzer não precisou de muito estímulo para sair ao ataque: "O prefeito está errado em todos os níveis - completamente errado, factualmente errado, eticamente errado e moralmente errado".

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

The New York Times

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