Eleições nos EUA

› Notícias › Mundo › Eleições nos EUA

Eleições nos EUA

Quinta, 28 de fevereiro de 2008, 12h19

Assessor ousado pode ser última esperança de Hillary

Adam Nagourney

Harold Ickes pode ser a última esperança de Hillary Clinton, na luta pela conquista da indicação presidencial democrata. Quase 40 anos depois de participar de sua primeira convenção nacional do partido, Ickes - que sobreviveu a derrotas em campanhas presidenciais, investigações de júris de instrução e uma passagem tumultuada pela Casa Branca no governo de Bill Clinton - está de volta para mais uma campanha. Aos 68 anos, ele tem quase 30 anos de história presidencial de vantagem sobre quase todos os demais integrantes da campanha de Hillary, mas continua irrritadiço e sarcástico como na época em que trabalhou para Eugene McCarthy.

"Estou um pouco decepcionado com a falta de espírito combativo que vejo em nosso pessoal", disse Ickes, vice-diretor de campanha, a uma platéia formada por membros da campanha Hillary, que pareciam abalados pelas derrotas da candidata na semana passada, antes de começar a recitar uma lista das campanhas presidenciais derrotadas e vitoriosas nas quais esteve envolvido.

Ickes, que usualmente opera nos bastidores da política, desta vez não tem hesitado em sair a público para defender vigorosamente a candidatura de Hillary, em um momento no qual os assessores da senadora a estão pressionando para que reduza a visibilidade de seu principal estrategista, Mark Penn.

Mas acima de tudo ele está servindo como o general da campanha na batalha pelos superdelegados, os ocupantes de cargos eletivos e líderes partidários aos quais bem pode caber a possível seleção de Clinton, diante do senador Barack Obama, na convenção do partido. Ao fazê-lo, Ickes está aproveitando seu conhecimento íntimo dos Clinton e da rede política de apoio que os sustenta, bem como das regras de seleção de deputados que ele mesmo ajudou a redigir quando foi membro do Comitê Nacional do Partido Democrata.

Hoje em dia, esse com certeza não é o mais compensador dos trabalhos. Ickes relembra a conversa telefônica "muito longa" que manteve recentemente com um líder democrata que conhece há décadas - e cujo nome ele preferiu não revelar. O papo terminou com uma afirmação categórica do político, diante da persistência de Ickes, de que Hillary não vai contar com seu voto.

Esse foi apenas o mais recente lembrete da maneira pela qual uma campanha agressiva se transformou em uma ação de retaguarda. Nos últimos dias, Ickes se viu forçado a pedir aos superdelegados que ao menos esperem até a próxima terça-feira, para determinar se ela venceu ou não no Texas e no Ohio, antes de tomarem decisões definitivas. "Estamos enfatizando fortemente a idéia de reter aquilo que já temos", disse Ickes, com uma combinação de resignação e de pensamento positivo.

Para quem quer que tenha acompanhado a carreira de Ickes, existe algo de quase pungente em vê-lo ressurgir ao lado dos Clinton. Mas, aos 68 anos, ele está participando daquilo que muitos de seus amigos vêem como sua última campanha presidencial. Em lugar de observar de perto a maneira pela qual a História é feita e de ver a chegada de um segundo amigo à Casa Branca, ele está tentando compensar o que define abertamente como falhas da parte dos assessores políticos e conselheiros de Hillary Clinton.

"Ela é melhor do que sua campanha", afirma. Ickes foi um dos jovens militantes democratas que participaram do movimento pelos direitos civis no sul dos Estados Unidos, nos anos 60, e também foi um dos principais assessores de Jesse Jackson, quando este tentou se tornar o primeiro presidente negro dos Estados Unidos. Agora, está lutando contra os esforços de Obama para conquistar a mesma distinção. Caso os Clinton não estivessem envolvidos na campanha como adversários, afirma Ickes, ele sem dúvida estaria feliz trabalhando para Obama.

Mas Ickes voltou a se aproximar da família política que parece recorrer a ele sempre que enfrenta dificuldades. Foi ele o encarregado de comandar os esforços da Casa Branca para reagir ao inquérito sobre o caso Whitewater, uma função que quase levou ao seu indiciamento em processos, e terminou descartado pelos Clinton sem qualquer hesitação quando isso se tornou necessário. Ickes perdeu o posto como vice-chefe da Casa Civil da Casa Branca três dias depois de ter ajudado Bill Clinton a se reeleger presidente, em 1996.

"Quero dizer, terminei demitido, e em anúncio público, apenas três dias depois da eleição presidencial", conta Ickes. "Fiquei sabendo da história pelo Wall Street Journal. Reportagem de primeira página, no canto superior esquerdo. Não é algo que uma pessoa esqueça facilmente". Agora ele se vê na situação de responder repetidamente a perguntas sobre os motivos de sua volta, dado seu retrospecto no relacionamento com Bill Clinton e as evidentes dificuldades de uma campanha.

"Reconheço que ele tem lá seus pontos fracos, como todos nós temos, e que alguns deles são bastante sérios", afirma. "Mas, ainda assim, é preciso aceitar, com cautela. E meu relacionamento com Hillary sempre foi bom". Na verdade, embora ele conheça Bill Clinton há mais tempo, os dois fizeram amizade durante protestos contra a guerra do Vietnã no começo dos anos 70, amigos dizem que Ickes sempre foi mais próximo de Hillary Clinton, especialmente depois que o então presidente o demitiu de seu posto na Casa Branca.

"Acredito que essa possa ser a última de suas campanhas presidenciais, e que por isso tenha importância extraordinária para Ickes, por uma série de motivos", disse Patti Solis Doyle, que perdeu seu posto como diretora da campanha Clinton duas semanas atrás.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

The New York Times

The New York Times
Harold Ickes acena para repórteres em encontro em Washington
Harold Ickes acena para repórteres em encontro em Washington

Busque outras notícias no Terra