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Quinta, 24 de janeiro de 2008, 15h57

Não quero negar o Islã, afirma irmã de Obama

Deborah Solomon

Nos próximos dias, a campanha presidencial do senador democrata Barack Obama, representante do Estado americano de Chicago e um dos principais nomes para a sucessão de Geroge W. Bush vai ganhar o reforço de sua meia-irmã Maya Soetoro-Ng, que mora no Havaí.

Em entrevista à New York Times Magazine, Maya fala sobre sua mãe, sobre o que viver na Indonésia ensinou a eles sobre o islamismo e sobre a liberdade de escolher sua raça. E avisa: não teme os ataques a seu irmão pelo passado ligado ao Islã.

Vamos falar sobre a primária presidencial democrata que acontecerá dia 19 de fevereiro no Havaí, o Estado em que Barack Obama nasceu. Você vai fazer campanha por seu irmão?
Sim, com certeza. Tirei uma licença dos meus diversos trabalhos como professora em Honolulu, e acabo de voltar de dois meses de trabalho em campanha. Tenho um adesivo no meu carro que diz "20/02/2009: o Fim de Um Erro" (20 de janeiro de 2009 é a data da posse do próximo presidente dos Estados Unidos).

Que tipo de adesivo é esse? Nem mesmo menciona o nome do seu candidato.
Ah, mas eu tenho três outros, entre os quais um que diz "mulheres por Obama".

Qual é a diferença de idade entre a senhora e Barack?
Sou nove anos mais jovem. Nossa mãe, depois que se divorciou do pai de Obama, conheceu o meu pai no mesmo lugar, o East-West Center no campus da Universidade do Havaí.

O pai de Barack era queniano, e o seu indonésio. Sua mãe era o que no passado costumava ser definido como uma "livre-pensadora", uma antropóloga branca de Wichita, Kansas, que se mudou para Jacarta depois de seu segundo casamento.
Minha mãe era uma mulher corajosa. E tinha um imenso amor pela vida. Ela adorava o mundo natural. Às vezes nos acordava no meio da noite para que olhássemos a Lua. Quando eu era adolescente, isso me incomodava muito, porque eu preferia dormir.

Ela morreu jovem, com apenas 52 anos, de um câncer de ovário.
Hoje, mais que tudo, eu gostaria que todas as mulheres da vida de Barack ¿nossa mãe, a mulher e as filhas dele, minha filha, nossa avó, a meia-irmã queniana que ele tem- pudessem se unir e contemplar a Lua na companhia dele.

Sua mãe foi descrita como atéia.
Não sei se a definiria como atéia. Ela era agnóstica. Basicamente, nos forneceu todos os bons livros ¿a Bíblia, os Upanishades hinduístas, os textos budistas, o Tao Te Ching-, e desejava que reconhecêssemos que todos eles tinham algo de belo a contribuir.

A senhora não incluiu o Corão em sua lista, ainda que a Indonésia seja o mais populoso país muçulmano no mundo.
Eu deveria ter mencionado o Corão. Minha mãe não enfatizava muito o Corão, mas lemos alguns trechos dele. Nós ouvíamos as orações matinais, na Indonésia.

A senhora se preocupa com a possibilidade de mencionar o islamismo porque isso já despertou publicidade negativa de pessoas que tentaram denegrir seu irmão?
Não me preocupo. Não quero negar o Islã. Acredito que seja, obviamente, muito importante que todos compreendamos o Islã, que o compreendamos melhor. Ao mesmo tempo, meu irmão foi erroneamente apontado como adepto do islamismo. Ele é cristão praticante há 20 anos.

E a senhora, que religião pratica?
Em termos filosóficos, diria que eu sou budista.

Que efeito a senhora acha que o apego de sua mãe a uma vida repleta de viagens teve sobre Barack?
Talvez parte do motivo para que ele se sinta tão atraído por Chicago e por sua mulher, Michelle, é que são dois fatores que lhe propiciaram raízes. Ele optou por fazer uma escolha, enquanto nosso mãe mais ou menos preferiu vaguear pelo mundo recolhendo os tesouros de todas as partes.

A senhora pensa em seu irmão como negro?
Sim, porque é dessa maneira que ele escolheu se definir. Cada um de nós tem o direito de escolher como prefere ser visto, designado.

A senhora se considera branca?
Não. Sou meio branca, meio asiática. Considero-me híbrida. As pessoas que são apresentadas a mim em geral pensam que sou latina. Foi isso que me levou a aprender espanhol.

Essa espécie de identidade culturalmente mista era considerada como uma anomalia em sua infância e juventude.
Com certeza. Houve momentos em que essa situação me fazia sentir como se vivesse em terreno instável, me causava uma sensação de vulnerabilidade.

A senhora estava antecipando o multiculturalismo.
Essa é uma das coisas que nossa mãe nos ensinou. Tudo pode pertencer a você. Se você tiver amor e respeito suficiente por uma parte do mundo, essa parte pode se tornar igualmente uma porção daquilo que você é, ainda que não seja algo que lhe foi atribuído de nascença.

The New York Times Magazine

Divulgação
Maya Soetoro-Ng em evento de apoio a Obama
Maya Soetoro-Ng em evento de apoio a Obama

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