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Segunda, 14 de janeiro de 2008, 15h44

EUA: raça e gênero agitam a campanha democrata

Adam Nagourney

Depois de se manterem nos bastidores durante o primeiro ano da campanha, as questões de raça e, em menor grau, gênero ganharam posição central na disputa entre os pré-candidatos democratas, arremessando os senadores Barack Obama e Hillary Clinton a um debate social e político que transcende suas candidaturas.

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Em um dia tenso caracterizado por trocas de farpas entre os candidatos e seus partidários, Hillary sugeriu no domingo que a campanha de Obama havia distorcido deliberadamente declarações que ela fez sobre Martin Luther King, a fim de fazer da questão racial um tema na campanha.

Obama descartou de maneira cortante a explicação de Hillary, afirmando que "atribuir essa questão a nós, seja de que forma for, é ridículo". A campanha de Obama em seguida criticou a senadora por não ter reprovado um dos principais aliados negros da campanha de Hillary por seu "envolvimento em uma campanha política destrutiva", devido à aparente referência que o aliado teria feito ao uso de drogas por Obama, que já admitiu o ponto.

A troca de acusações vem incomodado muitos dos partidários, que consideram que o momento atual - ainda que inevitável dada a natureza da disputa - pode gerar cisões profundas no partido. Ao mesmo tempo, a situação mostra uma agremiação que está enfrentando dificuldades para percorrer território completamente desconhecido, como o demonstraram as vitórias de Obama em Iowa e de Hillary em New Hampshire.

Dois fatores ajudaram a criar a atmosfera na qual raça e gênero estão começando a desempenhar papéis mais importantes. O primeiro é que os democratas cada vez mais consideram Obama e Hillary como candidatos igualmente críveis e elegíveis.

Além disso, os dois estão ingressando em uma fase da disputa - especialmente na primária da Carolina do Sul - em que os votos de eleitores negros podem desempenhar papel central.

Tanto Hillary quanto Obama discursaram dos púlpitos de igrejas negras, no domingo, Obama em Las Vegas e Clinton na Carolina do Sul. Ela costuma falar com freqüência sobre a perspectiva de ser a primeira mulher presidente, ainda que o ponto não constitua aspecto central do apelo de Hillary aos eleitores.

A senadora voltou a fazê-lo em uma série de compromissos iniciada na noite de sábado em Reno e estendida em uma entrevista ao programa Meet the Press, da rede de TV NBC.

De fato, desde sua derrota em Iowa, Hillary vem sutil mas inconfundivelmente incluindo a questão do gênero na disputa eleitoral, por meio de uma série de eventos cujo objetivo é apresentá-la aos eleitores sob uma luz mais suave.

Muitos democratas acreditam que Hillary tenha vencido em New Hampshire depois de conquistar a adesão decisiva do eleitorado feminino, especialmente em função de um debate na noite do sábado anterior à primária no qual Obama e John Edwards uniram forças para atacá-la.

"Nunca imaginei que chegaria um dia em que eu veria uma mulher e um negro competindo pela presidência dos Estados Unidos", disse Hillary a paroquianos de uma igreja presbiteriana em Columbia, Carolina do Sul, no domingo.

"Muitos de vocês nasceram antes que os negros tivessem direito a votar. Assim, não se trata de algo histórico que aconteceu com gerações passadas; estamos vivendo algo que aconteceu conosco."

Obama, refletindo a abordagem diferenciada quanto à questão racial que ele vem adotando em campanhas, se esforçou em seu discurso na igreja de Las Vegas para não retratar a possibilidade de sua eleição como marco histórico que poderia conduzir um negro à Casa Branca.

"Nós estamos a ponto de realizar alguma coisa importante, estamos a ponto de fazer história", disse Obama, em referência à audiência de algumas centenas de fiéis que compareceu à igreja. "Sei que todo mundo se concentra na política racial. Mas não é disso que desejo falar. Podemos fazer história pela primeira vez em um longo tempo, com um movimento de base formado por pessoas de todas as cores."

Hillary declarou no final de semana que tinha a esperança de que a questão racial e a questão do sexo não viessem a se tornar fatores importantes na disputa.

Ainda assim, partidários de Obama declararam em entrevistas no domingo que continuavam preocupados com a possibilidade de que Hillary e seus partidários estivessem deliberadamente colocando em questão o aspecto racial no momento em que a candidatura Obama está a ponto de decolar.

"Não gostaria de acreditar nisso, mas tenho de dizer que é inevitável pensar que pode ser verdade", disse o deputado Elijah Cummings, democrata de Maryland, um congressista negro que está apoiando a candidatura de Obama. "Prefiro acreditar que não seja verdade." Mas Hillary e seus partidários negaram a alegação.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

The New York Times

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Barack Obama e Hillary Clinton travam debate social e político
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