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Um ano depois, Egito pós-Mubarak ainda busca seu caminho

9 fev 2012
14h26
atualizado às 14h36

A revolta que derrubou Hosni Mubarak há um ano transformou totalmente a ordem política no Egito, onde o ex-ditador está hoje preso e os antes oprimidos islâmicos ocupam o Parlamento. No entanto, para a maior parte dos egípcios os problemas continuam.

A dominação intocável de três décadas de Mubarak desmoronou com o peso de 18 dias de protestos sem precedentes nas ruas, forçando-o a renunciar em 11 de fevereiro do ano passado e gerando um onda de euforia coletiva.

A revolução deu novo ânimo ao país: partidos políticos foram formados, debates são ouvidos por todos os lados e o poder foi dado ao conselho militar que prometeu abrir caminho para a democracia e rapidamente voltar aos quartéis.

Pela primeira vez em décadas, egípcios sentiram que participavam do futuro do país.

"O Egito nunca mais será o mesmo," anunciou o presidente dos EUA, Barack Obama, no dia da queda de Mubarak.

Contudo, um ano depois, a alegria deu lugar à frustração e à raiva, enquanto os conflitos políticos ainda existem, a corrupção ainda prevalece e o aumento dos preços pressiona as famílias.

"Mubarak pode ter saído, mas os dois pilares de seu regime, uma forte repressão do Estado e um sistema econômico injusto, ainda sobrevivem," disse Rabab al-Mahdi, uma professora de Ciências Políticas na Universidade Americana do Cairo.

Porém, são esses mesmos fatores que estão levando a revolução à frente, disse ela à AFP.

Os rebeldes, que abraçaram os militares como apoiadores da revolução, voltaram sua raiva contra o Supremo Conselho das Forças Armadas, o qual acusaram de desviar a transição e reter o poder.

Manifestantes vêm tomando as ruas há meses para lutar pela saída do chefe militar, Field Marshal Hussein Tantawi, que por muito tempo foi ministro da Defesa de Mubarak e está atualmente no comando do país.

Eles acusam o exército de violar os direitos humanos, de agir com violência contra os revolucionários e de semear a instabilidade para justificar sua dominação política.

Mahdi considera que há ainda um longo caminho a ser percorrido em busca dos objetivos da revolução, de liberdade e igualdade social, mas admite que "houve muitas mudanças".

A revolta colocou um líder autocrático no tribunal, levado pelos protestos da Primavera Árabe.

Mubarak, seu ministro do Interior e seis chefes da segurança estão sendo julgados por seu envolvimento na morte de manifestantes durante a revolta.

Seus dois filhos, Gamal e Alaa --símbolos do poder e da riqueza-- também estão presos com antigos ministros e oficiais sob acusação de corrupção.

O primeiro depoimento, em agosto, mostrou um Mubarak de 83 anos levado de maca ao tribunal, provocando um alívio coletivo no povo que viu a queda do "Faraó" ser televisionada ao vivo.

Seus arqui-inimigos, a Irmandade Muçulmana --há muito banida e cujos membros sofreram uma perseguição generalizada e, em alguns casos, brutal nas mãos do ministro do Interior-- formaram o Partido Liberdade e Justiça e agora controlam metade das cadeiras no Parlamento.

Os movimentos salafistas, cujos adeptos ficaram presos por anos, tornaram-se mais radicais e se tornavam os novos donos do poder, com o partido Al-Nur ficando em segundo nas primeiras eleições livres e democráticas no Egito, promovidas em janeiro.

Os integrantes podem ser diferentes, mas os debates no Parlamento refletem a mesma preocupação de anos atrás: o aumento do preço do gás butano, escassez de combustíveis, corrupção e a violência da polícia.

"Muito foi mudado, mas muita coisa ainda permanece igual," disse o analista Seif Abdul Shahid em uma coluna no website estatal Ahram Online.

"A real questão não é tomar o poder, mas tirá-lo. Quando as pessoas clamaram pelo fim do sistema, tornaram-se mais do que simples pessoas," escreveu.

O novo Egito também foi tomado por instabilidade desde que a onipresente e odiada força policial de Mubarak desapareceu das ruas durante a revolução.

Embates entre a polícia e rebeldes, violência sectária, ataques a um encanamento que fornece gás para Israel e assaltos armados apenas enfureceram ainda mais os egípcios.

Ativistas pediram por movimentos em massa e por uma greve geral no sábado, buscando manter viva sua ainda inacabada revolução.

AFP Todos os direitos de reprodução e representação reservados. 

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