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Regime de Kadafi é enfraquecido e perde controle de parte do país

23 fev 2011
15h40
atualizado às 16h57

Após uma semana de protestos populares sem precedentes, o regime do coronel Muammar Kadafi, que dirige a Líbia há 42 anos, começa a apresentar fraquezas, perde uma parte de seu principal apoio e também o controle sobre uma porção do território.

info infográfico líbia infromações sobre o país
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Foto: AFP

Informações cada vez mais repetidas e que vêm de diferentes fontes confirmam que amplas regiões do país começam a se libertar do domínio do regime de Trípoli.

Um jornalista líbio que trabalha em Benghazi, a segunda maior cidade do país com mais de 1,5 milhão de habitantes, informou nesta quarta-feira que a região compreendida entre as fronteiras do Egito e a localidade de Jedabia já não está mais sob o controle do governo.

Em declarações à emissora de televisão Al Jazeera, o jornalista citou textualmente as cidades de Begasi, Derna, El Beida, Mesrata, Tobruk e El Merdj e afirmou que todas estas localidades foram "libertadas".

A notícia foi confirmada nesta quarta-feira pelo chefe da diplomacia italiana Franco Frattini e pelo ex-ministro da Justiça líbio Mustafa Abdel Jalil, que renunciou há três dias para protestar contra a repressão aos manifestantes.

Na cidade de Benghazi, segundo o jornal Quryna, as autoridades locais desistiram de exercer suas funções devido à pressão das ruas e os habitantes decidiram assumir os assuntos da cidade.

Comitês denominados "populares" foram constituídos para solucionar algumas questões, tais como a recuperação das armas utilizadas por alguns manifestantes em ataques aos quartéis e delegacias de polícia.

Além disso, chamaram a si a tarefa da proteção dos bens públicos e privados, assim como a conscientização dos comerciantes para que abram seus negócios e evitem aumentar o preço dos artigos alimentícios.

A maior fragilidade do regime de Kadafi se materializou na renúncia do ministro do Interior e antigo companheiro de armas, o general Abdul Fatah Younis.

Trata-se do terceiro membro do gabinete que renuncia como reação à violenta repressão da população líbia.

Younis anunciou que deixa todas as funções oficiais e fez um chamado aos soldados e às forças da ordem para aderirem à "revolução".

O general confirmou as intenções genocidas do líder líbio ao indicar, em uma declaração ao Quryna, que Kadafi o informou pessoalmente de um plano para bombardear a população de Benghazi, o que Younis suplicou para que não fizesse.

Por outro lado, segundo as mesmas fontes, um avião de combate de fabricação russa Sukhoi 22 caiu nesta quarta-feira na região de Jedabia depois que seus dois pilotos saltaram de paraquedas ao recusarem a ordem de bombardear Benghazi.

A renúncia dos ministros foi precedida pela de inúmeros diplomatas e embaixadores líbios e por vários oficiais e tropas do Exército que aderiram aos protestos.

Kadafi, que mostrou sua obstinação em discurso na tarde desta terça-feira, ameaçou matar seus oponentes e os que reivindicam sua queda e, assim, perdeu o apoio e a legitimidade nas chancelarias estrangeiras.

Vários países que iniciaram a retirada de seus cidadãos condenaram firmemente a brutal repressão dos manifestantes e reivindicam sanções internacionais contra o regime líbio.

Kadafi e seus partidários são acusados de assassinar centenas de pessoas e segundo um balanço divulgado nesta quarta-feira por Sayed al Shanuka, representante líbio no Tribunal Penal Internacional (TPI), pelo menos 10 mil pessoas teriam perdido a vida desde o começo das manifestações no país norte-africano.

Mundo árabe em convulsão
A onda de protestos que desbancou em poucas semanas os longevos governos da Tunísia e do Egito segue se irradiando por diversos Estados do mundo árabe. Depois da queda do tunisiano Ben Alie do egípcio Hosni Mubarak, os protestos mantêm-se quase que diariamente e começam a delinear um momento histórico para a região. Há elementos comuns em todos os conflitos: em maior ou menor medida, a insatisfação com a situação político-econômica e o clamor por liberdade e democracia; no entanto, a onda contestatória vai, aos poucos, ganhando contornos próprios em cada país e ressaltando suas diferenças políticas, culturais e sociais.

No norte da África, a Argélia vive - desde o começo do ano - protestos contra o presidente Abdelaziz Bouteflika, que ocupa o cargo desde que venceu as eleições, pela primeira vez, em 1999; mais recentemente, a população do Marrocos também aderiu aos protestos, questionando o reinado de Mohammed VI. A onda também chegou à península arábica: na Jordânia, foi rápida a erupção de protestos contra o rei Abdullah, no posto desde 1999; já ao sul da península, massas têm saído às ruas para pedir mudanças no Iêmen, presidido por Ali Abdullah Saleh desde 1978, bem como em Omã, no qual o sultão Al Said reina desde 1970.

Além destes, os protestos vêm sendo particularmente intensos em dois países. Na Líbia, país fortemente controlado pelo revolucionário líder Muamar Kadafi, a população entra em sangrento confronto com as forças de segurança; em meio à onda de violência, um filho de Kadafifoi à TV estatal do país para tirar a legitimidade dos protestos, acusando um "complô" para dividir o país e suas riquezas. Na península arábica, o pequeno reino do Bahrein - estratégico aliado dos Estados Unidos - vem sendo contestado pela população, que quer mudanças no governo do rei Hamad Bin Isa Al Khalifa, no poder desde 1999.

Além destes países árabes, um foco latente de tensão é a república islâmica do Irã. O país persa (não árabe, embora falante desta língua) é o protagonista contemporâneo da tensão entre Islã/Ocidente e também tem registrado protestos populares que contestam a presidência de Mahmoud Ahmadinejad, no cargo desde 2005. Enquanto isso, a Tunísia e o Egito vivem os lento e trabalhoso processo pós-revolucionário, no qual novos governos vão sendo formados para tentar dar resposta aos anseios da população.

EFE   
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