publicidade
05 de dezembro de 2013 • 15h50 • atualizado às 16h33

Refugiados, mortos, órfãos, soldados: crianças sírias dão adeus à infância

Dos 2,2 milhões de refugiados da guerra na Síria, o Acnur aponta que mais da metade são crianças e 75% delas têm menos de 12 anos

Crianças sírias em um campo de refugiados no Líbano
Foto: AP
  • Ana Ávila
 

Temendo pela segurança dos filhos, cada vez mais vulneráveis em meio à guerra civil, os pais de Khaled, Reem e Adel fizeram aquilo que acreditavam ser o melhor: os enviaram sozinhos a um campo de refugiados na Jordânia.

Maher, 16, viu o pai pela última vez há dois anos, quando ambos foram detidos. Depois de torturado, ele foi solto e se juntou à mãe, que hoje luta sozinha para manter unidos os seis filhos em um campo de refugiados na Jordânia. 

Foto: Acnur / Terra

As histórias acima sintetizam parte da realidade nos campos de refugiados onde vivem hoje mais de 2,2 milhões de sírios, que deixaram o país fugindo da guerra que já matou mais de 125 mil pessoas.

Um relatório recente do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) revelou que mais de 50% da população reunida nestas cidades de tendas espalhadas por Líbano, Jordânia, Turquia, Iraque, Egito e Norte da África são crianças. São 1,1 milhão - 75% deles com menos de 12 anos - vivendo em acampamentos. 

O Acnur conta as histórias de algumas dessas crianças em um microsite multimídia com fotos, vídeos e estatísticas, onde é possível, por exemplo, deixar mensagens para as crianças sírias que vivem em campos de refugiados. Outros dramas, que não estão no relatório, constam no perfil da organização no Instagram - e ilustram este texto.

Khaled e o medo de nunca mais ver a mãe
Incerteza sobre o futuro, medo de nunca mais reencontrar a mãe e de não conseguir arcar com a responsabilidade de cuidar dos três irmãos, frustração por ter abandonado os estudos. Khaled, 15 anos, convive diariamente com todos esses sentimentos no campo de refugiados de Za’atari. Seus pais se separaram pouco antes da guerra. Quando o conflito tornou-se mais severo, a mãe fugiu para o norte do país. Junto com outros familiares, ele, duas irmãs e um irmão buscaram abrigo na Jordânia, deixando o pai para trás. 

Waffa quase não fala desde que perdeu o pai num bombardeio que também destruiu sua casa
Foto: Divulgação

Aos poucos, os outros parentes foram abandonando Khaled e os irmãos. Até que o adolescente se viu como o pilar da família. "Foi assustador. De repente, nós estávamos sozinhos e eu me vi responsável por meus irmãos ... Se algo vier a acontecer com eles, eu nunca poderia conviver com isso", diz ele. Neste momento, o maior desejo de Khaled é deixar o acampamento e alugar um apartamento para viver com a família, mas para isso precisaria encontrar um trabalho. Um dia, ele ainda acredita que vai reencontrar a mãe e ver os irmãos voltarem à escola.

Ahmed, 10 anos, mal conseguia com o peso de uma melancia que levou correndo para sua casa improvisada no Líbano, onde sabia que a irmã o esperava: "Estou louco para ver a cara dela quando eu chegar"
Foto: Divulgação

Uma pesquisa conduzida por Turquia, Estados Unidos e Noruega mostra que três quartos das cerca de 8,4 mil crianças sírias - a maioria entre 10 e 13 anos - refugiadas no campo de Gaziantep Islahiye, na Turquia, perderam ao menos um parente no conflito. Entre essas crianças, são comuns sinais de estresse e trauma. Metade delas sofre de depressão e muitas estão preocupadas com familiares que ficaram no país.

Em campos de refugiados na Jordânia e no Líbano, uma em cada cinco crianças ouvidas pelo Acnur tiveram ao menos um familiar próximo morto, detido ou desaparecido. No fim de setembro, um relatório apontava que mais de 40 mil famílias sírias na Jordânia e mais de 30 mil no Líbano tinham passado a ser chefiadas por mulheres.

Maher só quer voltar para casa
Foi assim com a família de Maher. Seu pai desapareceu depois de ser detido, há dois anos. Hoje, sua mãe é a responsável pelo sustento dos seis filhos, com idades entre 4 e 18 anos. Aos 16, Maher se vê atordoado entre o desejo de ajudar a mãe e o medo de ser preso trabalhando ilegalmente. Volta e meia, ele passa alguns dias ajudando em uma obra, mas os efeitos da tortura que sofreu em uma prisão síria antes de fugir para a Jordânia causam tanta dor que ele precisa parar. “Eu só queria que tudo voltasse a ser como era antes”, desabafa.

Khaled, Reem e Adel: juntos e sós na barraca feita pela mãe
Khaled, 13 anos, começava a se envolver em protestos nas ruas. Aos 15, Reem parecia um alvo fácil para estupradores. Adel, 16, já tinha sido recrutado pelo exército. A única opção encontrada pelos pais para salvar o trio foi enviá-los sozinhos a um campo de refugiados. Para a Jordânia, os jovens levaram a tenda onde vivem hoje, feita pela mãe.

Ali, de apenas um ano, está abrigado junto com outros 16 familiares em um edifício abandonado no Líbano, onde foram parar fugindo da Síria
Foto: Divulgação

Apesar do pavor de estarem sozinhos em um país estranho, os jovens contam que foram amparados pelas famílias das tendas próximas, que dividiram com eles comida e dinheiro. Amparados pelo Acnur, eles receberam suporte e o mais jovem passou a frequentar a escola. A organização se dispôs a procurar um apartamento para que eles pudessem deixar a tenda onde vivem, mas os irmãos não quiseram. Dentro da pequena barraca na fronteira, eles dizem estar mais perto de casa e esperam, de malas prontas, a hora de voltar para os braços dos pais.

Meninos-soldados
Apesar de todo sofrimento que é deixar para trás parte da família, aprender a dividir o pouco que se tem com os vizinhos das barracas próximas, lutar contra a tristeza e a falta de expectativas, a situação pode ser ainda pior para as crianças que ficam na Síria. Dos dois lados, é comum o recrutamento de meninos. Embora, o Tribunal Penal Internacional (TPI) diga que recrutar ou alistar crianças com menos de 15 anos de idade é um crime de guerra, nem os rebeldes, nem o exército parecem se importar. 

Noura, 7 anos, precisou deixar todos os brinquedos para trás quando fugiu com a família para um campo de refugiados no Líbano. Para alegrá-la, o pai improvisou uma boneca com um pedaço de madeira
Foto: Divulgação

Em outubro, Shaaban Abdullah Hamid, de apenas 12 anos, contou de um campo de refugiados do Crescente Vermelho em Hama como foi recrutado para lutar. Após a morte da mãe e o desaparecimento do pai, ele recebeu uma arma de um tio que o “empregou” como soldado em um grupo islâmico que luta contra as forças de Bashar al-Assad.  Após um mês de treinamento, ele estava pronto para matar. 

Exterminar um civil lhe rendia US$ 2,50. Se o alvo fosse um soldado, o menino embolsava US$ 5. Trabalhando oito horas por dia, Hamid diz que matou 13 civis e dez soldados até que o pai o reencontrou e o levou para trabalhar no campo com ele. Questionado sobre o que sentia ao matar, o menino respondeu “nada”.  Comumente sinônimo de inocência e pureza, a infância de Hamid foi precocemente encerrada pela guerra. 

As organizações internacionais se mostram incapazes de calcular, mas estimam em centenas as crianças-soldados lutando na Síria. Muitas delas, provavelmente, estão entre os milhares de mortos no conflito. Outros tantos ainda devem morrer - e matar - até que se vislumbre um fim para uma das maiores tragédias humanitárias dos últimos tempos.

Guerra civil em fotos Conteúdo exclusivo
AFP AFP

O Terra compilou alguns dos principais materiais fotográficos disponibilizados ao longo destes mais de dois anos de guerra na Síria. Cada imagem leva a uma galeria que conta um episódio específico ou remete a uma situação importante do conflito.

Acompanhe a cobertura exclusiva do Terra através dos jornalistas Tariq Saleh e Mauricio Morales. Sediado no Líbano, Saleh conversou com sírios, visitou refugiados e ouviu analistas. Enviado especial, Morales passou dias com rebeldes.

Terra