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Outono árabe na Síria: por que a intervenção é improvável

Complexidade da Síria torna intervenção improvável; entenda

19 nov 2011
07h22
Felipe Schroeder Franke

Ao norte, Turquia; ao sul, Jordânia e Arábia Saudita. Ao ocidente, Líbano e Israel; ao oriente, Iraque e Irã.

Faces de uma mesma crise: apoio a Assad em Damasco, repressão em Homs e diplomacia da ONU em NY
Faces de uma mesma crise: apoio a Assad em Damasco, repressão em Homs e diplomacia da ONU em NY
Foto: AFP/Getty - Arte / Terra

Esta é, em termos gerais, a localização geográfica da Síria, país protagonista do atual capítulo da Primavera Árabe. Tal geografia espelha de modo exemplar o quão diferente a sua situação é em relação à da Líbia, país cuja primavera foi canalizada por meio de intervenção internacional da Otan.

Em si, a situação social da Líbia pré-intervenção é similar à atual condição da Síria. No final de março, quando o Conselho de Segurança da ONU aprovou a intervenção no país do norte da África, os rebeldes já falavam de 8 mil mortos entre os manifestantes contrários ao Muammar Kadafi. Hoje, após meses de conflito na Síria, a própria ONU já estima em pelo menos 3,5 mil as vítimas fatais da repressão de Bashar al-Assad.

O massacre, pelo menos como o conhecemos a partir dos dados da ONU e de organizações não-governamentais, pode até ser considerado numericamente menos brutal, sobretudo se levarmos em conta que a população síria é cerca de três vezes maior que a Líbia (22 milhões contra 6 milhões, aproximadamente). Mas a natureza da repressão é a mesma: os bombardeios dos leais a Kadafi contra o leste líbio encontram simulacros nos tanques e canhões apontados contra os manifestantes em cidades como Daraa, Hama, Homs, Deir ez-Zor e Latakia, além de partes de Damasco.

A extensão da não-resolução do conflito, além disso, também contaria a favor de uma intervenção: enquanto a repressão de Kadafi necessitou de somente dois meses para ser alvo das operações internacionais, a política de Assad contra seus críticos já se arrasta por mais de 10 meses, e teve como crítico apogeu a expulsão da Síria da Liga Árabe, num gesto que, embora diplomático, vem exercendo enorme peso geopolítico real sobre o governo de Assad.

Por que então não se chega ao acordo da intervenção para encerrar o massacre na Síria? Há razões de ordem política, histórica e geográfica para que esse impasse que testa o mundo árabe e o poder de ação da diplomacia ocidental na região, da qual a Síria é o coração.

Entraves à intervenção
A primeira razão é a estreita relação que a Síria mantém com uma série de atores políticos vistos com olhos turvos pelo ocidente: o Hezbollah, no Líbano; o Hamas, na Palestina; e, sobretudo, o Irã.

O quarteto formado por estes e Damasco tende a ser visto como uma barreira maléfica ao avanço do Ocidente sobre Oriente Médio. "Para o Irá, a Síria de Assad é o principal fronte de defesa contra os Estados Unidos e Israel", escreveu a perita em Irã Geneive Abdo na Foreign Affairs.

Assim, uma intervenção direta na Síria, ao que tudo indica, levaria a um abalo do balanço de poder e, assim, poderia provocar reações não desejadas de Teerã. É um tipo de abalo político que não era risco na Líbia, cujo líder, Muammar Kadafi, reinava de modo relativamente independente e isolado na região.

Internamente, a estrutura histórica da política da Síria também é um elemento determinante. Diferentemente da Líbia, onde Kadafi reinava sem constituição há quatro décadas como um ditador eclético, o poder em Damasco se organiza de modo mais durador e institucional.

O atual presidente, Bashar al-Assad, ocupa o cargo desde 2000. Diferentemente da apartidária Líbia, ele pertence ao único partido permitido no país, o Baath. E, diferentemente de Kadafi, Bashar é sucessor do pai, Hafez, que governou a Síria por três décadas (1971-2000), embora o reinado do Baath tenha começado sete anos mais cedo, em 1963. (Foi inclusive durante a era de Hafez que a Síria viveu o Massacre de Homs, em 1982, quando 40 mil pessoas teriam morrido, vítimas da repressão do Estado.)

Essa situação se reflete, como escreveram Heather Boff e Bessma Momani no The Globe and Mail, no próprio poder bélico à disposição de Assad. Segundo estes autores, o exército sírio é cerca de oito vezes maior que o líbio, enquanto que a força área de Damasco tem o dobro da força da de Trípoli. O número de tanques e armas, por exemplo, também é muito superior na Síria.

Olhando ainda para a história, o peso do da Síria tende a ultrapassar o da Líbia. Encrustada no meio do oriente, a Síria durante séculos e milênios foi ponto de passagem e de decisão da geopolítica mundial entre Ocidente e Oriente. E Damasco, diferentemente de Trípoli, é uma cidade central ao balanço político regional, com mais peso que Trípoli, esta milhares de quilômetros das principais potências da região.

Essa posição histórica de reflete em aspectos geográficos e populacionais. A Síria possui não apenas uma população três vezes maior que a da Líbia, mas também é um país muito povoado - em contraste com a Líbia, cujas cidades são todas costeiras e separadas por imensos desertos.

Em termos de acessibilidade, a Síria também é mais complexa. A Líbia é cercada pelo vazio deserto do Saara, pelo Mar Mediterrâneo (área de fácil ação da Otan) e pela Tunísia e pelo Egito (que acabaram de derrubar seus presidentes). A Síria, em contrapartida, é rodeada de países que, em sua maioria, representam poderes de oposição ou ao menos de não-alinhamento à Otan, mais longe da esfera de acesso e influência do Ocidente.

Por outro lado, se a Síria é aliada direta do Irã, ela possui relações e atritos próprios com a Turquia. Entre os dois países fica a tumultuosa região do Curdistão, cujos rebeldes separatistas mantém uma rotina de ataques contra os turcos, que, por sua vez, acusam os sírios e iranianos de incentivo. Essa situação é o exemplo de que, no caso sírio, a influência turca é mais decisiva que na situação líbia, onde os poderes ocidentais tiveram maior persuasão, com relativa independência de Ancara.

É este complexo de forças e influências que conduz ao entrave definitivo no Conselho de Segurança da ONU, onde Rússia e China já afirmaram a posição de vetar qualquer tipo de intervenção na Síria. Na Líbia, a postura da dupla foi distinta: Moscou e Beijing abstiveram-se na votação que determinou a ulterior ação da Otan, embora tenham mantido uma postura de crítica durante todos os meses em solo líbio.

Por fim, a opção da intervenção, já virtualmente impossibilitada no Conselho de Segurança, cai por terra com a posição oficialmente anunciada da Liga Árabe e da Turquia de não apoiarem uma ação em solo sírio.

Opções de ação
Com a intervenção praticamente descartada, buscam-se outras opções. Além do desligamento da Liga Árabe - que se seguiu ao não cumprimento pela Síria de um acordo de cessar-fogo -, a pressão internacional se traduziu, até agora, em sanções econômicas da União Europeia e da Turquia. Esta, por exemplo, cortou temporariamente as explorações de petróleo com a Síria e ameaçou Damasco que e com uma suspensão no fornecimento de eletricidade.

Os ataques de apoiadores do regime de Assad às representações diplomáticas de França e Marrocos (além da já mencionada Turquia) também fizeram com que os governos desses países convocassem seus embaixadores para consultas, em gesto de pressão sobre Damasco. Há algumas semanas, circulou o rumor de que os Estados Unidos estariam planejando retirar seu embaixador da capital síria, plano que ainda não se confirmou e que seria, segundo fontes diplomáticas que não quiseram se identificar, um mero movimento de pressão política.

Mais recentemente, e confirmando a influência da Turquia na zona, o líder sírio da Irmandade Muçulmana, Mohammad Riad Shafka, afirmou que o povo sírio seria favorável a uma intervenção turca na Síria. "O povo sírio pode aceitar uma intervenção da Turquia, ao invés do Ocidente, caso se trate de proteger os civis", declarou, em Istambul.

Mas a principal alternativa, como defendem muitos opositores do regime de Assad, seria o envio de observadores da ONU para a Síria, para, com isso, atingir um meio termo entre a intervenção, que é uma forma de violência, e o diálogo diplomático, que até agora não surtiu efeito prático além de promessas não cumpridas por Damasco. Neste sábado se encerra um prazo da Liga Árabe para o fim da violência na Síria, e, dependendo do rumo dos próximos acontecimentos, o envio da missão externa poderia ocorrer em breve.

Poucos meses depois do início da intervenção na Líbia, já era claro que, cedo ou tarde, de um modo ou de outro, Kadafi haveria de deixar o poder. Agora, prestes à chegada do inverno, a Primavera Árabe da Síria é totalmente incerta. Uma intervenção, embora possível, é bastante improvável, e dependerá do nível de comprometimento do governo em Damasco para reduzir a repressão e iniciar o tão aguardado diálogo com os opositores.

"A Síria é uma situação muito mais complexa", disse recentemente o secretário do Exterior britânico, William Hague. Tão diferente que, hoje, não há indícios suficientes para saber se Damasco verá a morte do líder, como a Líbia; ou a sua queda, como Tunísia e Egito; ou se a sua continuidade, como ele próprio quer.

Fonte: Terra
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