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Oposição egípcia se organiza para preparar mudança

30 jan 2011
19h36
atualizado às 20h14

A oposição egípcia deu neste domingo passos decisivos para preparar-se perante uma eventual mudança de regime, com a presença do Prêmio Nobel da Paz Mohamed ElBaradei na praça Tahrir, epicentro do protesto. ElBaradei, muito criticado por sua ausência no começo dos protestos, reivindicou ao presidente egípcio, Hosni Mubarak, que renuncie perante milhares de manifestantes, um dia depois que desafiaram o toque de recolher imposto pelas autoridades.

"Roubaram nossa liberdade", disse o ex-diretor da Agência Internacional de Energia Atômica, e ressaltou que o movimento pela mudança "não tem volta". ElBaradei se mostrou "orgulhoso de ser egípcio" e considerou que os cidadãos deste país vão "recuperar a liberdade", antes de prever que "este é o começo do fim" para Mubarak.

Os protestos careceram até o momento de uma figura capaz de reanimar as diferentes sensibilidades ideológicas que possa ser apresentada como um candidato capaz de dirigir uma eventual transição. Por isso, a aparição pública de ElBaradei e o anúncio neste domingo da criação de um comitê para analisar com o Exército o final do regime outorgam uma nova dimensão à capacidade dos opositores de unir-se frente seu inimigo comum.

O dirigente da Irmandade Mulçumana Saad al-Katatni explicou à Efe por telefone que "o comitê poderá manter na segunda-feira uma reunião com responsáveis militares para analisar uma possível mudança de regime no Egito". Katatni assinalou que esse comitê que reúne diferentes movimentos opositores, quer estudar com o Exército a saída de Mubarak do país, a formação de um governo transitório e a realização de eleições livres.

O líder opositor Ayman Nour, preso vários anos por sua oposição a Mubarak, explicou, em declarações à televisão Al Jazeera International, que o comitê estará formado por 10 pessoas e não negociará "em nenhum caso" com Mubarak, só com os militares. "Criamos este comitê para melhorar a situação da segurança e, sobretudo, para reivindicar que Mubarak deixe o poder", explicou o também dirigente do partido el-Ghad.

Por isso, pediu aos responsáveis das Forças Armadas que "escutem o povo" e obriguem o presidente a sair "de forma pacífica", algo que não se consideraria um golpe de Estado, já que é "seu dever constitucional". Apesar disso, a televisão pública egípcia mostrou neste domingo imagens de Mubarak reunido com a cúpula militar e acompanhado por seu novo vice-presidente, Omar Suleiman, e o ministro de Defesa, general Hussein Tantawi.

Enquanto isso, nem o voo rasante de dois caças-bombardeiros das Forças Armadas sobre a praça Tahrir, que serviu para decretar o começo do toque de recolher às 16h horário local (12h do horário de Brasília), conseguiu amedrontar os milhares de egípcios que se manifestavam. Pouco antes do começo do toque de recolher, os manifestantes buscavam espaço entre os tanques, enquanto se lançavam garrafas de água e alimentos para agüentar melhor a noite.

"Meu irmão está aqui, minha mulher está aqui, até minha mãe está aqui... Onde eu estaria se não aqui?", se perguntava Monzer Abdelazim, supervisor de uma usina industrial, após tirar uma foto com uma bandeira tunisiana. Pela primeira vez desde que começaram os protestos na terça-feira passada, vários magistrados egípcios e clérigos da instituição religiosa Al-Azhar se uniram aos manifestantes no centro do Cairo.

Um dos teólogos mais conhecidos do país, o xeque Safwat Higazi, declarou à Efe na praça Tahrir que se uniu aos protestos no Cairo na sexta-feira, após manifestar-se em Suez, e que não parará de marchar "até que Mubarak deixe o poder".

Egípcios desafiam governo Mubarak
A onda de protestos dos egípcios contra o governo do presidente Hosni Mubarak, iniciados no dia 25 de janeiro, tomou nova dimensão na última sexta-feira. O governo havia tentado impedir a mobilização popular cortando o sinal da internet no país, mas a medida não surtiu efeito. No início do dia, dois mil egípcios participaram de uma oração com o líder oposicionista Mohamad ElBaradei, que acabou sendo temporariamente detido e impedido de se manifestar.

Os protestos tomaram corpo, com dezenas de milhares de manifestantes saindo às ruas das principais cidades do país - Cairo, Alexandria e Suez. Mubarak enviou tanques às ruas e anunciou um toque de recolher, o qual acabou virtualmente ignorado pela população. Os confrontos com a polícia aumentaram, e a sede do governista Partido Nacional Democrático foi incendiada.

Já na madrugada de sábado (horário local), Mubarak fez um pronunciamento à nação no qual ele disse que não renunciaria, mas que um novo governo seria formado em busca de "reformas democráticas". Defendeu a repressão da polícia aos manifestantes e disse que existe uma linha muito tênue entre a liberdade e o caos. A declaração do líder egípcio foi seguida de um pronunciamento de Barack Obama, que pediu a Mubarak que fizesse valer sua promessa de democracia.

O governo encabeçado pelo premiê Ahmed Nazif confirmou sua renúncia na manhã de sábado. Passaram a fazer parte do novo governo o premiê Ahmed Shafiq, general que até então ocupava o cargo de Ministro de Aviação Civil, e o também general Omar Suleiman, que inaugura o cargo de vice-presidente do Egito - posto inexistente no país desde o início do governo de Mubarak, em 1981.

Mubarak, à revelia da pressão popular que persiste nas cidades egípcias, não renunciou. Segundo o último balanço feito pela agência AFP junto a fontes médicas, já passam de 100 os mortos desde o início dos protestos, na última terça.



EFE   

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