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Na TV, Kadafi exclui renúncia e ameaça oposição com massacre

22 fev 2011
12h53
atualizado às 16h11

O líder líbio Muammar Kadafi voltou à TV estatal nesta terça para dizer novamente que não irá renunciar e ameaçou os manifestantes afirmando que "nem autorizou o uso de munição". Durante a fala de mais de uma hora (aparentemente improvisada), Kadafi fez várias referências a si mesmo e disse que, "no final, vai morrer como mártir". "Muammar Kadafi é o líder da revolução, Muammar Kadafi não tem nenhum posto oficial ao qual renunciar. Ele é o líder da revolução para sempre", afirmou.

Imagem da TV Al Jazeera mostra o líder líbio Muamar Kadafi de volta à rede estatal para defender seu governo
Imagem da TV Al Jazeera mostra o líder líbio Muamar Kadafi de volta à rede estatal para defender seu governo
Foto: Al Jazeera / Reprodução

"Eu permanecerei aqui desafiador", disse, falando do lado de fora de uma de suas residências, bastante danificada num bombardeio dos Estados Unidos de 1986 durante uma tentativa de assassiná-lo. Diante do edifício havia um monumento de um punho gigante esmagando um caça norte-americano. Ele afirmou ainda que os responsáveis pelos distúrbios são os jovens e chamou os manifestantes de "ratos e mercenários" que querem transformar a Líbia em um Estado islâmico.

Kadafi afirmou ainda que vai "limpar casa a casa da Líbia" se os manifestantes não se renderem. Apesar das informações de testemunhas e entidades de defesa dos direitos humanos sobre a violência indiscriminada pelo país, o ditador disse que ainda não usou a força contra os manifestantes, mas que o fará se for necessário. "Protestos pacíficos são uma coisa, mas rebelião armada é outra", disse. "Eu sequer dei a ordem para usar balas de verdade!".

"Que vergonha. Vocês são uma gangue? Liberem (a cidade de) Benghazi. Larguem as armas ou haverá um massacre", disse, enfatizando como os manifestantes estão destruindo o país. "Não destruam o seu próprio país por nenhuma razão - qual o problema de vocês? Nós temos nossa água, nosso petróleo." Ele ameaçou os rebeldes com uma resposta similar à de Tiananmen (na China) e de Fallujah (no Iraque) - dois históricos massacres.

"Se esses vermes continuarem, a Líbia vai retornar à escuridão dos anos 50", disse, exaltado. "Vocês querem Benghazi destruída, sem eletricidade nem água?", ameaçou, dizendo que vai lutar até a sua "última gota de sangue". Para Kadafi, a Líbia pode se transformar em um novo Afeganistão ou em uma nova Somália, em caso de guerra civil. "Vocês querem que os americanos venham e ocupem a Líbia como fizeram no Afeganistão?"

O líder líbio, 68 anos, fez várias referências ao valor do país e não poupou as nações ocidentais. "Este é o meu país. É o país dos meus bisavós e dos seus. Nós valemos muito mais do que os ratos pagos por agências internacionais", brandou, enquanto agitava os braços e apontava o dedo para o alto. Vestindo sua clássica túnica marrom, ele chamou os manifestantes de "traficantes" e disse que um pequeno grupo de "doentes" está estimulando os jovens a imitar o que aconteceu na Tunísia e no Egito.

"O povo líbio está comigo", afirmou Kadafi, convocando seus partidários para uma manifestação na quarta-feira. "Capturem os ratos! Saiam de suas casas e ataquem!", gritou o ditador. "Se vocês amam Kadafi, saiam às ruas da Líbia para protegê-las", disse, acrescentando que os oposicionistas devem ser executados.

Para Kadafi, cujo regime vem enfrentando protestos sem precedentes em várias cidades do país, o Ocidente quer apenas controlar o petróleo da Líbia. Segundo ele, o povo líbio pode decidir para onde vai o lucro do petróleo do país. Apesar da postura inflexível, ele demonstrou aceitar fazer concessões aos protestos, dizendo que "uma nova adminstração será formada" e que "conselhos municipais" serão criados.

Mais cedo, testemunhas que atravessaram a fronteira da Líbia com o Egito disseram que kadafi estava usando tanques, caças e mercenários no esforço de sufocar a rebelião que crescia cada vez mais. Na cidade de Tobruk, no leste do país, um correspondente da Reuters afirmou que podiam ser ouvidas explosões esporádicas, no sinal mais recente de diminuição do poder de Kadafi. "Todas as regiões do leste estão fora do controle de Kadafi agora...O povo e o Exército estão juntos ali", afirmou o ex-major do Exército Hany Saad Marjaa.

Mundo árabe em convulsão
A onda de protestos que desbancou em poucas semanas os longevos governos da Tunísia e do Egito segue se irradiando por diversos Estados do mundo árabe. Depois da queda do tunisiano Ben Alie do egípcio Hosni Mubarak, os protestos mantêm-se quase que diariamente e começam a delinear um momento histórico para a região. Há elementos comuns em todos os conflitos: em maior ou menor medida, a insatisfação com a situação político-econômica e o clamor por liberdade e democracia; no entanto, a onda contestatória vai, aos poucos, ganhando contornos próprios em cada país e ressaltando suas diferenças políticas, culturais e sociais.

No norte da África, a Argélia vive - desde o começo do ano - protestos contra o presidente Abdelaziz Bouteflika, que ocupa o cargo desde que venceu as eleições, pela primeira vez, em 1999; mais recentemente, a população do Marrocos também aderiu aos protestos, questionando o reinado de Mohammed VI. A onda também chegou à península arábica: na Jordânia, foi rápida a erupção de protestos contra o rei Abdullah, no posto desde 1999; já ao sul da península, massas têm saído às ruas para pedir mudanças no Iêmen, presidido por Ali Abdullah Saleh desde 1978, bem como em Omã, no qual o sultão Al Said reina desde 1970.

Além destes, os protestos vêm sendo particularmente intensos em dois países. Na Líbia, país fortemente controlado pelo revolucionário líder Muamar Kadafi, a população entra em sangrento confronto com as forças de segurança; em meio à onda de violência, um filho de Kadafifoi à TV estatal do país para tirar a legitimidade dos protestos, acusando um "complô" para dividir o país e suas riquezas. Na península arábica, o pequeno reino do Bahrein - estratégico aliado dos Estados Unidos - vem sendo contestado pela população, que quer mudanças no governo do rei Hamad Bin Isa Al Khalifa, no poder desde 1999.

Além destes países árabes, um foco latente de tensão é a república islâmica do Irã. O país persa (não árabe, embora falante desta língua) é o protagonista contemporâneo da tensão entre Islã/Ocidente e também tem registrado protestos populares que contestam a presidência de Mahmoud Ahmadinejad, no cargo desde 2005. Enquanto isso, a Tunísia e o Egito vivem os lento e trabalhoso processo pós-revolucionário, no qual novos governos vão sendo formados para tentar dar resposta aos anseios da população.

Fonte: Terra

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