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Mubarak dissolve governo e defende repressão aos protestos

28 jan 2011
20h59
atualizado às 21h44
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Tariq Saleh
da BBC Brasil

Em seu primeiro pronunciamento desde o início da onda de manifestações no Egito, o presidente do país, Hosni Mubarak, anunciou nesta sexta-feira a dissolução do governo e afirmou que um novo gabinete seria nomeado no sábado. Em discurso transmitido pela TV estatal, Mubarak, que está no poder desde 1981, disse ainda que os protestos não estariam ocorrendo caso seu governo não tivesse introduzido liberdades civis e de imprensa no país.

Ele defendeu a atuação das forças de segurança na repressão das manifestações e afirmou que não permitiria que o Egito, país tão importante para o norte da África e o Oriente Médio, seja desestabilizado. A fala de Mubarak ocorreu enquanto milhares de manifestantes desafiavam um toque de recolher imposto no país nesta sexta-feira, apesar da presença de militares nas ruas.

Inicialmente aplicado em três cidades (Cairo, Suez e Alexandria), a medida foi estendida a todo o território egípcio no início da noite (hora local, à tarde no Brasil), refletindo uma intensificação nos protestos durante o dia. Segundo fontes médicas, ao menos 13 pessoas morreram em Suez e cinco morreram no Cairo em confrontos nesta sexta-feira, o que eleva para 26 o total de mortes ocorridas desde que os protestos se iniciaram, na terça-feira.

Mais cedo, ainda nesta sexta, serviços de internet e telefonia celular foram aparentemente bloqueados no país. No Cairo, manifestantes atearam fogo na sede do Partido Nacional Democrático, mesma agremiação de Mubarak, e cercaram os prédios do Ministério das Relações Exteriores e da TV estatal.

A emissora anunciou que o toque de recolher vigoraria entre as 18h desta sexta-feira e as 7h do sábado e que militares trabalhariam em conjunto com os policiais para reforçar a ordem.

Militares
A TV egípcia transmitiu a chegada ao Cairo de tropas militares e de blindados. Ao passar pelos manifestantes, muitos soldados acenavam para a multidão. As manifestações desta sexta-feira - de proporção sem precedentes na história do Egito - se seguem a três dias de protestos e foram inspiradas em uma onda de protestos populares que culminou com a queda do presidente da Tunísia, Zine Al-Abidine Ben Ali, há duas semanas.

Também nesta sexta, policiais tunisianos evacuaram um acampamento de manifestantes diante do escritório do primeiro-ministro Mohamed Ghannouchi, em Túnis. Eles exigiam a renúncia do governo interino e a saída de todos os aliados de Ben Ali. O premiê voltou a pedir calma aos manifestantes e disse que seu governo continuaria no poder até a instauração da democracia no país.

No Cairo, policiais entraram em confronto com milhares de manifestantes nas ruas, usando bombas de gás lacrimogêneo e canhões d'água para dispersar a multidão, que respondeu atirando pedras, queimando pneus e montando barricadas.

A BBC Brasil acompanhou alguns embates e viu policiais à paisana baterem em mulheres que caminhavam perto da multidão. Conforme a noite avançava, helicópteros sobrevoavam a capital e tiros eram ouvidos. Ao menos mil pessoas foram presas nos protestos.

Estados Unidos
Nesta sexta-feira, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, exortou as autoridades egípcias a permitir protestos pacíficos. "Estamos profundamente preocupados com o uso da violência pela polícia e força de seguranças egípcias contra manifestantes", disse Hillary. O porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, disse que os Estados Unidos poderão revisar sua ajuda ao Egito com base no desenrolar dos eventos nos próximos dias.

"Obviamente nós vamos revisar nossa postura de assistência baseados nos eventos agora e nos próximos dias", afirmou Gibbs. O Egito é o quarto principal destinatário de ajuda americana, atrás apenas do Afeganistão, do Paquistão e de Israel. Nesta sexta-feira, o governo americano lançou um alerta para seus cidadãos, desaconselhando qualquer viagem não-essencial ao Egito.

Outras cidades
Em Suez, um grupo invadiu uma delegacia de polícia, roubou armas e ateou fogo ao prédio. Choques também foram registrados nas cidades de Alexandria, Mansoura e Assuã, assim como Minya, Assiut, Al-Arish e na Península do Sinai. Há relatos de que centenas de líderes da oposição foram presos durante a madrugada. Ao menos dez pertenceriam à organização Irmandade Islâmica, banida pelo governo.

Outros relatos dão conta de que o líder da oposição e Nobel da Paz Mohamed ElBaradei estaria sendo mantido em prisão domiciliar, mas a versão não foi confirmada oficialmente. ElBaradei, ex-diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), chegou ao Cairo na quinta-feira para se juntar às manifestações.

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