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Mubarak desafia manifestantes e diz que fica até setembro

10 fev 2011
18h47
atualizado às 21h11

O presidente do Egito, Hosni Mubarak, disse nesta quinta-feira, em um aguardado pronunciamento na TV estatal, que não irá renunciar e que irá "trabalhar para uma transição pacífica de poder" de agora até setembro. "Eu estou determinado a cumprir todas as promessas feitas a vocês", disse o líder egípcio, que está há 30 anos no poder.

"Vou me concentrar a proteger a Constituição e os interesses do povo até que o poder e a responsabilidade sejam entregues a quem os eleitores elegerem em setembro", afirmou. Mubarak se limitou a entregar alguns poderes ao vice presidente, Omar Suleiman. "Isso é o que eu jurei", afirmou o líder de 82 anos em seu pronunciamento.

O presidente da Câmara Baixa do Parlamento, Fathi Sorour, esclareceu que Mubarak transferiu algumas prerrogativas ao vice-presidente, de acordo com as limitações constitucionais, mas mantém outras. Entre as que ele conserva, está a reforma da Constituição, a dissolução do Parlamento e a dissolução do governo.

Ele também disse que não aceitará interferências estrangeiras no processo político em andamento no Egito. Em suas palavras, Mubarak disse que não aceitará ordens vindas do exterior. "Eu nunca vou aceitar ouvir ordens estrangeiras, qualquer que seja a fonte ou qualquer que seja o contexto", afirmou Mubarak. Assim como em seu discurso anterior, ele insistiu que não concorrerá às próximas eleições.

"Meus filhos e filhas, juventude do Egito, caros cidadãos, eu anunciei, sem nenhuma dúvida, de que não iria concorrer às próximas eleições presidenciais e tenho que dizer que eu servi durante 60 anos ao serviço público do país, durante os tempos de guerra e durante os tempos de paz", afirmou, dizendo ainda que está determinado continuar "protegendo a Constituição e os direitos do povo".

Mubarak também fez referência às pessoas que morreram nos protestos. "Antes de dizer qualquer coisa, digo que o sangue dos mártires e dos feridos não foi derramado em vão. Eu gostaria de afirmar que não hesitarei em punir os responsáveis", disse. "Eu digo às famílias dos inocentes que a sua dor também é a minha dor", acrescentou.

Tahrir: da euforia à raiva
O discurso foi pronunciado em meio a rumores - difundidos durante o dia inteiro - de que ele renunciaria. Depois de um atraso de mais de uma hora, Mubarak se dirigiu à nação. Dezenas de milhares de pessoas acompanharam suas palavras em um telão instalado na praça Tahrir, o coração dos protestos que tomam conta das ruas do Cairo desde o dia 25 de janeiro. Durante maior parte do tempo, o silêncio reinou no local.

Mas ainda durante a fala do presidente, ao perceberem que seu discurso era muito parecido com o seu último pronunciamento, os egípcios começaram a expressar sua raiva contra a figura de Mubarak. Lágrimas correram nos rostos de algus e gritos de "saia, saia" podiam ser ouvidos em coro na praça Tahrir. Mubarak, no entanto, disse em seu discurso que "não sairá no Egito até morrer".

Imediatamente após o discurso, muitos manifestantes pediram uma greve geral imediata e se dirigiram ao exército, que mobilizou um grande número de tropas e tanques em torno do protesto: "Exército egípcio, a escolha é agora, o regime ou o povo!". Mais tarde, enquanto começavam a deixar pacificamente a praça Tahrir, os gritos de aumentavam. "Estamos indo para o palácio, mártires aos milhões!".

A multidão gritava "Nem Mubarak, nem Suleiman!", enquanto uma mulher idosa dizia: "O homem velho não vai deixar o poder". O funcionário de um supermercado Rahman Gamal, de 30 anos, disse: "Omar Suleiman e Mubarak são o mesmo. Eles são os dois lados da mesma moeda. Nossa primeira exigência é que ele deixe o poder. Se ele não sair, eu também não saio". "Ele ainda fala conosco como se fôssemos tolos", disse Ali Hassan, outro manifestante. "Ele é um general derrotado no campo de batalha que não vai recuar antes de causar o maior número de vítimas que puder".

Obama
O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, afirmou que o mundo estava assistindo ao "desenrolar da História" e disse que a América fará tudo o que puder para garantir uma transição verdadeira para a democracia. Obama, discursando no Estado de Michigan, dirigiu-se diretamente aos jovens do Egito que integraram os protestos massivos no Cairo. "O que está absolutamente claro é que estamos testemunhando o desenrolar da história. Este é um momento em transformação que está ocorrendo porque as pessoas do Egito pedem mudanças", acrescentou.

Protestos convulsionam o Egito
Desde o último dia 25 de janeiro - data que ganhou um caráter histórico, principalmente na internet, principalmente pelo uso da hashtag #Jan25 no Twitter -, os egípcios protestam pela saída do presidente Hosni Mubarak, que está há 30 anos no poder. No dia 28 as manifestações ganharam uma nova dimensão, fazendo o governo cortar o acesso à rede e declarar toque de recolher. As medidas foram ignoradas pela população, mas Mubarak disse que não sairia. Limitou-se a dizer que buscaria "reformas democráticas" para responder aos anseios da população a partir da formação de um novo governo.

A partir do dia 29, um sábado, a nova administração foi anunciada. A medida, mais uma vez, não surtiu efeito, e os protestos continuaram. O presidente egípcio se reuniu com militares e anunciou o retorno da polícia antimotins. Enquanto isso, a oposição seguiu se organizando. O líder opositor Mohamad ElBaradei garantiu que "a mudança chegará" para o Egito. Na terça, dia 1º de fevereiro, dezenas de milhares de pessoas se reuniram na praça Tahrir para exigir a renúncia de Mubarak. A grandeza dos protestos levou o líder egípcio a anunciar que não participaria das próximas eleições, para delírio da massa reunida no centro do Cairo.

O dia seguinte, 2 de fevereiro, no entanto, foi novamente de caos. Manifestantes pró e contra Mubarak travaram uma batalha campal na praça Tahrir com pedras, paus, facas e barras de ferro. Nos dias subsequentes os conflitos cessaram e, após um período de terror para os jornalistas, uma manifestação que reuniu milhares na praça Tahrir e impasses entre o governo e oposição, a Irmandade Muçulmana começou a dialogar com o governo. Até hoje, havia sinais de que Mubarak deve permaneceria no cargo durante o processo de transição.



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Fonte: Terra
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