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Expectativa toma conta do Egito em meio a rumores de renúncia

10 fev 2011
17h13
atualizado às 17h43
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Uma possível renúncia do presidente egípcio, Hosni Mubarak, está sendo discutida pelas lideranças do país, revelou o premiê do Egito, Ahmed Shafiq, nesta quinta-feira.

Praça Tahrir permanece tomada por milhares no 17º dia de protestos ininterruptos contra Mubarak
Praça Tahrir permanece tomada por milhares no 17º dia de protestos ininterruptos contra Mubarak
Foto: AFP

Em entrevista exclusiva ao serviço árabe da BBC, Shafiq disse que a decisão quanto a se Mubarak deixará ou não o poder será tomada em breve.O secretário-geral do partido do presidente (Partido Nacional Democrático), Hossan Badrawi, também disse à BBC que "espera" que Mubarak transfira o poder a seu vice, Omar Suleiman.

"Nos dois últimos dias, pude falar diretamente com o presidente. Acredito que ele responderá aos pedidos dos manifestantes. Ele está mais preocupado com a estabilidade do país. Não liga mais para o seu posto".A televisão estatal egípcia confirmou que Mubarak fará um pronunciamento à nação na noite desta quinta-feira.

E o Exército egípcio, que vem se mantendo neutro em meio aos protestos, comunicou em pronunciamento na TV que está pronto para "responder às demandas legítimas do povo".

EUA
Ao longo do dia, surgiram relatos contraditórios quanto à eventual saída de Mubarak do poder. Mas o diretor da agência de Inteligência americana (CIA), Leon Panetta, disse em audiência no Congresso em Washington que recebeu informações que indicam que o presidente poderá deixar o poder ainda nesta quinta-feira.

"Eu recebi relatos de que, possivelmente, Mubarak poderá fazer isso (renunciar)", disse ele, ressaltando não ter recebido "nenhum relato específico de que, de fato, ele fará isso".

Falando à BBC Árabe, o ativista da oposição Ayman Nour disse ter sido informado de que o presidente já teria gravado o seu discurso e saído do país.

"A situação ainda é incerta, mas a informação que temos até agora é que o presidente Mubarak gravou um discurso que está sendo avaliado por alguém do alto conselho militar. Eles teriam pedido que a transmissão do discurso fosse adiada".

"Também temos informações não confirmadas de que Mubarak já deixou o país. Alguns dizem que ele viajou para Dubai, outros para Paris e outros para Sharm El-Sheikh. Não sabemos onde ele está, mas seu avião foi visto deixando o país."

Milhares de pessoas seguem concentradas no centro do Cairo para pedir a renúncia de Mubarak. Grupos de médicos e outros trabalhadores em greve também aderiram aos protestos.

Grevistas
Vestidos de branco, grupos de médicos tomaram a Praça Tahrir, onde se concentram há 17 dias os protestos contra Mubarak no Cairo, ao lado de outros manifestantes.

Um importante hospital do Cairo teria sido obrigado a fechar nesta quinta-feira após cerca de 3 mil de seus funcionários cruzarem os braços.Motoristas de ônibus, advogados e trabalhadores do setor têxtil também anunciaram paralisações nesta quinta-feira na capital, além de outros setores espalhados por todo o país.

Milhares de pessoas vêm participando de protestos diários contra Mubarak desde o dia 25 de janeiro. Muitos manifestantes acampam à noite no local.

Apoio
Num indicativo de que o apoio a Mubarak vem caindo, o jornal pró-governo Al Ahram publicou nesta quinta-feira um suplemento em apoio aos protestos populares.

Organizações de defesa dos direitos humanos acusam o governo de intensificar a repressão aos protestos, aumentando número de detenções de ativistas de oposição.

Um representante da organização Human Rights Watch disse à BBC que a polícia militar egípcia já prendeu dezenas de jornalistas e manifestantes.O vice-presidente do Egito, Omar Suleiman, indicado para o cargo por Mubarak após o início da crise, advertiu os manifestantes contra greves e atos de desobediência civil, afirmando que poderia haver ¿caos¿ se o Exército e as forças de segurança forem obrigados a agir contra os protestos.

Emergência
Na noite desta quarta-feira, o ministro do Exterior do Egito, Ahmed Aboul Gheit, rejeitou o que chamou de tentativas do governo americano de impor sua vontade sobre o governo egípcio.

Em entrevista à rede de TV americana PBS, Gheit disse ter ficado "atônito" ao saber das declarações do vice-presidente americano Joe Biden, que na noite de terça-feira havia pedido que o governo egípcio suspendesse imediatamente o estado de emergência em vigor há 30 anos no país.

"Eu fiquei realmente atônito, porque neste momento, enquanto falamos, há 17 mil prisioneiros soltos nas ruas após escapar de prisões que foram destruídas. Como vocês podem me pedir para dissolver o estado de emergência enquanto estou em dificuldades?", disse o ministro.

Também na quarta-feira, o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, disse que o governo do Egito deve "fazer mais" para atender às exigências da população e que as medidas tomadas até agora não atingem nem mesmo o limite mínimo exigido pelos manifestantes.

"Nossa prioridade permanece sendo a transição ordenada para eleições livres e justas. O que os egípcios e nós queremos ver são mudanças irreversíveis", disse Gibbs.

Protestos convulsionam o Egito
Desde o último dia 25 de janeiro - data que ganhou um caráter histórico, principalmente na internet, principalmente pelo uso da hashtag #Jan25 no Twitter -, os egípcios protestam pela saída do presidente Hosni Mubarak, que está há 30 anos no poder. No dia 28 as manifestações ganharam uma nova dimensão, fazendo o governo cortar o acesso à rede e declarar toque de recolher. As medidas foram ignoradas pela população, mas Mubarak disse que não sairia. Limitou-se a dizer que buscaria "reformas democráticas" para responder aos anseios da população a partir da formação de um novo governo.

A partir do dia 29, um sábado, a nova administração foi anunciada. A medida, mais uma vez, não surtiu efeito, e os protestos continuaram. O presidente egípcio se reuniu com militares e anunciou o retorno da polícia antimotins. Enquanto isso, a oposição seguiu se organizando. O líder opositor Mohamad ElBaradei garantiu que "a mudança chegará" para o Egito. Na terça, dia 1º de fevereiro, dezenas de milhares de pessoas se reuniram na praça Tahrir para exigir a renúncia de Mubarak. A grandeza dos protestos levou o líder egípcio a anunciar que não participaria das próximas eleições, para delírio da massa reunida no centro do Cairo.

O dia seguinte, 2 de fevereiro, no entanto, foi novamente de caos. Manifestantes pró e contra Mubarak travaram uma batalha campal na praça Tahrir com pedras, paus, facas e barras de ferro. Nos dias subsequentes os conflitos cessaram e, após um período de terror para os jornalistas, uma manifestação que reuniu milhares na praça Tahrir e impasses entre o governo e oposição, a Irmandade Muçulmana começou a dialogar com o governo. Até hoje, havia sinais de que Mubarak deve permaneceria no cargo durante o processo de transição.



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