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Em meio a protestos violentos, Egito emite toque de recolher

28 jan 2011
13h36
atualizado às 19h49
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Tariq Saleh
Da BBC Brasil

O governo do Egito impôs nesta sexta-feira um toque de recolher e enviou militares às ruas para conter as manifestações que se alastram pelo país.

Manifestantes entram em confronto com a polícia de choque nas ruas do Cairo
Manifestantes entram em confronto com a polícia de choque nas ruas do Cairo
Foto: AFP

A TV estatal egípcia anunciou que o toque de recolher entraria em vigor entre as 18h desta sexta e as 7h do sábado na capital, Cairo, em Alexandria e em Suez. Segundo o comunicado, os militares trabalharão em conjunto com os policiais para reforçar a ordem.

Espera-se que o presidente Hosni Mubarak, que está no poder desde 1981 e não foi visto em público desde o início das manifestações, faça um pronunciamento nas próximas horas.

As manifestações desta sexta-feira - de proporção sem precedentes na história do Egito - se seguem a três dias de protestos pela saída de Mubarak, em que ao menos oito pessoas morreram e mais de mil foram presas.

As ações foram inspiradas em uma onda de protestos populares que culminou com a queda do presidente da Tunísia Zine al-Abidine Ben Ali, há duas semanas.

No Cairo, policiais entraram em confronto com milhares de manifestantes nas ruas, usando bombas de gás lacrimogêneo e canhões d'água para dispersar a multidão, que respondeu atirando pedras, queimando pneus e montando barricadas.

Oposição
Nesta sexta-feira, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, exortou as autoridades egípcias a permitir protestos pacíficos. "Estamos profundamente preocupados com o uso da violência pela polícia e força de seguranças egípcias contra manifestantes", disse Hillary.

"Ao mesmo tempo, os manifestantes devem evitar a violência e se expressar de forma pacífica", afirmou. Pontes e estradas foram tomadas por manifestantes. Em Suez, um grupo invadiu uma delegacia de polícia, roubou armas e ateou fogo ao prédio. Choques também foram registrados na cidade de Alexandria.

Há relatos de que centenas de líderes da oposição foram presos durante a madrugada. Ao menos dez pertenceriam à organização Irmandade Islâmica, banida pelo governo.

Outros relatos dão conta de que o líder da oposição e Nobel da Paz Mohamed ElBaradei estaria sendo mantido em prisão domiciliar, mas a versão não foi confirmada oficialmente.

ElBaradei, ex-diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), chegou ao Cairo na última quinta-feira para se juntar às manifestações. Nesta sexta, segundo a imprensa local, alguns de seus partidários foram espancados pela polícia em uma praça no bairro de Gizé ao tentar protegê-lo.

Confrontos
Após as rezas de sexta-feira, milhares de pessoas atenderam a um chamado da oposição e se juntaram a protestos no centro do Cairo e de outras cidades egípcias para pedir o fim dos 30 anos do governo Mubarak, aos gritos de "abaixo Mubarak" e "o povo quer que o regime caia".

Manifestantes também se reuniram em frente à mesquita Al-Azhar e perto de uma das residências do presidente na capital. O governo francês citou relatos de que quatro jornalistas franceses foram presos em meio aos protestos.

Os protestos paralisaram parte do Cairo, especialmente no centro e arredores. No comércio local, poucas lojas abriram as portas, e as ruas estavam praticamente desertas ainda antes das manifestações começarem.

Em Suez, um dos principais focos dos protestos nos últimos dias, o repórter da BBC Rupert Wingfield-Hayes afirmou que havia choques de grandes proporções entre forças de segurança e milhares de manifestantes, que se reuniram no centro da cidade, também após as preces de sexta-feira.

Havia relatos também de choques em Alexandria, Mansoura e Assuã, assim como Minya, Assiut, Al-Arish e na Península do Sinai. Na noite de quinta-feira, sites como Facebook ou Twitter começaram a apresentar problemas no país, assim como o envio de mensagens por celular.

Um internauta do Cairo, que pediu para não ter o nome revelado, disse à BBC que as mensagens de celular não estavam sendo recebidas. A operadora de celulares Vodafone Egypt disse em nota: "Todas as operadores de celular no Egito foram instruídas a suspender seus serviços em áreas selecionadas. De acordo com a legislação egípcia, as autoridades têm o direito de emitir tal ordem e nós somos obrigados a cumpri-la".

Diálogo
O governo do Egito quase não dá espaço a posições contrárias, e manifestações da oposição são frequentemente proibidas. Na quinta-feira, Safwat el-Sherif, secretário-geral do Partido Nacional Democrático, mesma agremiação de Mubarak, disse: "O PND está pronto para o diálogo com o público, a juventude e os partidos legais. Mas a democracia tem suas regras e seus processos. A minoria não pode forçar seu desejo sobre a maioria".

O presidente americano, Barack Obama, descreveu os protestos como o resultado de "frustrações reprimidas" e disse que várias vezes sugeriu a Mubarak realizar reformas. O Egito é um dos mais importantes aliados dos Estados Unidos no mundo árabe.

Em nota sobre as manifestações em curso no Egito, na Tunísia e no Iêmen, outro país árabe que tem vivenciado turbulências, o governo brasileiro expressou sua "expectativa de que as nações amigas encontrarão o caminho de uma evolução política capaz de atender às aspirações da população em ambiente pacífico e sem interferências externas, de modo a dar suporte ao desenvolvimento econômico e social em curso".



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