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Ativistas sírios relatam perseguição e medo na fronteira turca

6 jul 2011
17h03
atualizado em 9/5/2013 às 17h18
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Em um apartamento no centro da cidade turca de Antakia, o sírio Jamil Saeb, 35 anos, atende incessantemente o telefone celular com olhar nervoso e preocupado. Do outro lado da linha, um amigo avisa que refugiados sírios na fronteira precisam de comida e água. "Não se preocupe, diga a eles que daremos um jeito", respondeu Saeb.

O amigo desliga após avisá-lo para também cuidar de sua segurança pessoal. "Há pessoas procurando por você, se cuide", falou a voz do outro lado da linha.

O semblante de Saeb deixou seu irmão, Salam Saeb, e outro amigo extremamente nervosos. Ambos são uma espécie de "seguranças", protegendo-o contra uma possível tentativa de espiões do governo sírio de capturá-lo ou assassiná-lo. "Mas eles não têm armas, apenas tentam ficar atentos a qualquer pessoa suspeita. Não é segredo que há pessoas ligadas ao governo sírio andando pela cidade e ao redor dos campos", disse ele ao Terra.

O ativista se refere ao Mukhabarat, palavra árabe para polícia secreta, uma das instituições mais temidas pelo governo de Bashar al-Assad, e frequentemente acusada de tortura e prisões arbitrárias pelos sírios e organizações internacionais de direitos humanos.

Há quatro meses, al-Assad enfrenta protestos populares que exigem sua saída do poder, reformas democráticas e o fim do regime sírio. O presidente sírio chegou ao poder no ano 2000 após a morte de seu pai, Hafez al-Assad, que liderou a Síria com mão de ferro por 30 anos.

Saeb revela que foi um dos primeiros a ir às ruas protestar contra o governo na cidade de Jisr al-Shoughour, no norte do país, e que ao todo eram apenas 15 pessoas receosos de que "não durariam cinco minutos nas ruas".

"Estávamos assustados, pessoas paravam para nos observar com olhares de perplexidade vendo um grupo de jovens ousando protestar contra o governo. Policiais também estavam presentes mas não fizeram nada".

Segundo o ativista, no segundo protesto apenas uma pessoa se juntou ao grupo depois que os manifestantes pediram ao povo em volta que tomassem a coragem de protestar. Mas a população só se juntou em massa aos protestos depois que forças de segurança supostamente mataram dois moradores da cidade. "Os dois foram abordados um uma barreira policial e foram espancados até a morte. Aquilo revoltou a população, que foi às ruas furiosa e exigindo a derrubada do regime", contou Jamil.

Gangues armadas
O governo sírio respondeu com violência ao levante popular. Várias cidades foram cercadas por tropas e tanques do Exército sírio. Ativistas relataram cenas de destruição de casas e outras propriedades.

Desde o início do levante popular pró-democracia, o governo sírio vem acusando os líderes dos protestos de serem apoiados por governos estrangeiros e que "gangues armadas e sabotadores" estão infiltrados entre os manifestantes. Segundo as autoridades sírias, mais de 300 policiais e membros das forças de segurança morreram enfrentando tais elementos armados.

Os ativistas e organizações de direitos humanos acusam a Síria de propagar mentiras e manipular a mídia do país, ignorando que as manifestações são pacíficas. De acordo com eles, mais de 2 mil pessoas já morreram desde o início das manifestações, em março.

Saeb ironiza a desculpa do governo de "gangues armadas". "Se eles consideram telefones celulares como armas, então estamos armados sim". Muitos manifestantes vêm usando celulares para filmar e fotografar os protestos e a repressão das forças de segurança sírias para divulgar ao mundo. A mídia estrangeira está proibida de entrar no país, dificultando a verificação independente dos fatos.

"Dois de meus amigos nos protestos foram mortos a tiros pelas tropas do governo. Toda vez eu me lembro deles, de seus sonhos e de como diziam que queriam um futuro diferente para a Síria, e um futuro diferente para seus filhos".

infográfico aba mapa tariq saleh
infográfico aba mapa tariq saleh
Foto: Arte / Terra

Fuga e medo
No vilarejo turco de Guvaçi, localizado em uma colina a menos de 1 km da fronteira, os sírios que fugiram da perseguição e violência estão vivendo em tendas. Nesta pequena cidade está Mohamed Fezzo, 32 anos, um homem de fala calma e hábitos simples. Ele olha em direção ao vale onde fica sua cidade natal Kherbert al-Loz, também no norte da Síria.

Fezzo descreve sua cidade e a casa que deixou para trás. "É um vilarejo de pessoas simples e com pouco estudo, a maioria são agricultores. As terras ao redor são verdes, e no verão os campos ficam cobertos de todo tipo de flores".

Fezzo foi às ruas protestar por reformas democráticas em Jisr al-Shoghour, quando enfrentaram uma forte repressão policial. "Vi pessoas sendo presas, outras espancadas. Eles sabiam os nomes de vários líderes dos protestos e queriam ir atrás de mim".

Assim como Jamil Saeb, Fezzo teve que fugir às pressas, apenas com as roupas do corpo. "Não houve tempo. Quando as notícias chegaram de que o exército estava na região, as pessoas correram para deixar a Síria pela fronteira. O medo era generalizado", revelou ele ao Terra.

Ele não quis deixar a cidade, mas amigos avisaram-no que a polícia secreta estava procurando por ele. Com medo de ser preso, ele atravessou a fronteira com a família, juntamente com outras 100 pessoas de sua região.

Esperança
Tanto Fezzo quanto Saeb trabalham intensamente para divulgar os movimentos populares contra o regime de Bashar al-Assad. Eles não se conhecem, mas ambos vivem fora dos campos de refugiados para que possam ter liberdade de movimentos.

Saeb liga para conhecidos na Turquia que possam ajudar com roupas, comida e medicamentos para os refugiados que não estão registrados em campos oficiais mantidos pela Cruz e Crescente Vermelho.

"É importante mantermos a moral alta destas pessoas. Elas querem a queda do regime, mas precisam de cuidados básicos", falou.

Já Fezzo cuida da informação e os meios para atravessar a fronteira de forma clandestina e buscar os cartões de memória dos jovens ativistas que gravam vídeos e fotos mostrando os protestos. "Bashar chama a gente de terroristas, as imagens que buscamos mostram que ele está enganado. Com a repressão, temos que divulgar o que está acontecendo ao resto do mundo", salientou ele.

Os dois filhos de Fezzao, Mustafa e Maria, 4 e 5 anos, respectivamente, perguntam ao pai quando eles poderão voltar para casa. Ele fica pensativo, com olhar triste e por fim responde. "Quando eu vejo meus dois filhos pequenos querendo sua casa, seu país, eu me encho de esperança, e tenho certeza que mudaremos a nossa História, para que eles tenham um país que nós não tivemos".

Saeb confessa que não sabe se os levantes populares poderão mudar o destino do povo sírio. Mas revela que sua motivação é sua namorada Alia, que ficou na Síria, na cidade costeira de Latakia.

"Penso nela todos os dias, e sinto falta de seu carinho. Já pensei em desistir só para poder voltar para ela. Mas aí me lembro de suas palavras dirigidas a mim. Ela disse que sentia orgulho de mim, por eu estar entre as pessoas que ousaram gritar por liberdade e um futuro melhor. Isso me motiva e me dá forças para derrubar esse regime não com armas, mas com nossas vozes", desabafou o ativista.

Fonte: Especial para Terra

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