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Após Tunísia, clamor por democracia derruba Mubarak no Egito

11 fev 2011
21h57
atualizado em 12/2/2011 às 12h50

Em janeiro, o mundo acompanhava com atenção e curiosidade o desenrolar de uma crise sem precedentes na Tunísia. O país, uma república árabe instalada no norte da África, era abalado por uma série de manifestações que gradualmente tomaram corpo depois que um jovem desempregado ateou fogo ao corpo em protesto contra a situação social, política e econômica do país. Multidões tomavam as ruas de Túnis, a capital do país, até que, com a pressão dos militares, os eventos culminaram na queda do presidente Zine El Abidine Ben Ali, no dia 14 de janeiro. Ben Ali estava no poder desde 1987.

O momento, que já era histórico para o país e para a região, começou a dar novos passos no dia 25 de janeiro, quando a onda tunisiana de protestos foi tomada por uma correnteza em direção ao oriente, entrando pelo Rio Nilo e chegando até o coração do Cairo. Inspirados pelos vizinhos árabes, os egípcios iniciaram protestos na capital do país, que cedo irradiaram para cidades importantes, como Alexandria, Al Minya, Suez e Port Said. O que de início aparentava ser uma onda fortuita de protestos impulsivamente impulsionados pelo sucesso sem precedentes da queda do governo na Tunísia, todavia, aos poucos começou a dar provas de persistência. Dia após dia crescia o contingente de egípcios que, de modo extremamente similar aos tunisianos, saíam às ruas para pedir a renúncia de seu presidente.

O Egito é uma país maior, mais populoso, mais rico e geopoliticamente mais importante que a Tunísia. E o desfio que os egípcios assumiam era ainda mais volumoso que aquele que seus vizinhos haviam acabado de transpor. Mais antigo e mais bem estruturado, Hosni Mubarak presidia a democracia egípcia havia quase 30 anos. Desde 1981 que ele, presidente eleito (sem vice) comandava o país - uma república constituicional - com mão forte, com seu Partido Nacional Democrata dominando os assentos do parlamento egípcio.

O obstáculo, que parecia instransponível, foi, aos poucos, sendo cercado por fora e consumido por dentro. Os protestos dos egípcios - que gradualmente tomaram a Praça Tahrir, no coração do Egito, como palco central - começaram violentos, com um número ainda incerto de algumas poucas centenas de mortos e alguns milhares de feridos. Polícia e exército entraram em cena; mas enquanto aquela se mostrou ineficiente, este começava a dar ares de que não iria reprimir à base da força a pressão popular por mudanças.

A onda de protestos tomou novo rumo quando o Exército optou pela não-repressão. A comunidade internacional, embora titubeante, defendia o direito dos egípcios de se manifestar, colocando o governo de Mubarak - histórico aliado de Israel e Estados Unidos, ou, em outras palavras, um 'parceiro do Ocidente' - em posição de xeque. A pressão externa das ruas, que agora contava com a organização da oposição egípcia, provocou eco político interno. Membros do governo pediram renúncia, e Mubarak escolheu um novo premiê e recriou o cargo de vice-presidente, dando-o para Omar Suleiman.

Mubarak tentou, de todos os modos, manter-se no poder. Tentou iniciar um diálogo com a Irmandade Muçulmana, principal grupo oposicionista organizado, que no entanto não se satisfez. A pressão internacional também aumentou com a presença do muito prestigiado Mohamad ElBaradei, prêmio Nobel da Paz, que saiu de seu auxílio austríaco para apoiar a mudança em curso. Nas ruas, o toque de recolher mais parecia um sinal para que mais e mais pessoas, jovens e velhos, homens e mulheres, viessem a Tahrir para tentar mudar a história.

No dia 1º de fevereiro, Mubarak anunciou faria um pronunciamento à nação. Milhares afluíram a Tahrir para ouvir o anúncio de que o presidente não disputaria a reeleição em setembro, mas que ficaria até o fim do mandato. Não bastou. Na última quinta-feira, 10 de fevereiro, Mubarak convocou a nação para um novo pronunciamento transmitido na Praça, quando decepcionou os manifestantes ao anunciar que meramente passava poderes ao seu vice, Omar Suleiman. Também não bastou. E, no mesmo dia, o vice pediu que os manifestantes voltassem para suas casas. Piorou. Até que nesta sexta-feira, 11 de fevereiro, 18 dias após o início dos protestos, Suleiman foi à TV estatal para, em parcos 30 segundos, anunciar que o governo de 30 anos de Hosni Mubarak havia chegado ao fim.

O governo do Egito passa agora a um Conselho Militar, que deve ficar encarregado de coordenar a transição do país. A comunidade internacional ocidental, embora ainda confusa sobre o que esperar do novo Egito que começa hoje a se ensaior, acolheu com louvores o processo concretizado e a postura pacífica, paciente e persistente do povo egípcio. A Praça Tahrir - cujo nome significa Libertação - foi o palco de um acontecimento já unanimemente saudado como histórico. Mas agora deve-se esperar para ver o que será feito com essa liberdade, com esse futuro sem Mubarak.

Fonte: Terra
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