atualizado às 14h50

Abou Zeid, jihadista 'freelancer' a serviço da rebelião na Síria

 

Um combatente rebelde chega do front em Aleppo, no norte da Síria, aumenta o volume da televisão, acende um cigarro, sem esquecer de verificar seu penteado em um velho espelho quebrado. Abou Zeid é tunisiano, atirador de elite e jihadista "freelancer".

O conflito sírio impulsionou dezenas de estrangeiros como ele, com motivações diversas e interpretações às vezes muito pessoais da jihad (guerra santa), a aderir ao conflito.

Abou Zeid, que disse ter combatido no ano passado ao lado dos rebeldes líbios para derrubar o regime de Muanmar Kadhafi, se descreve como um jihadista "freelancer", sem nenhuma filiação.

"Bashar al-Assad e essas pessoas são xiitas, e é meu dever ajudar a restaurar o verdadeiro Islã, o Islã sunita", explica, em referência ao presidente sírio, que faz parte da comunidade alauíta, um ramo dissidente do xiismo.

"Eu deixo o meu país quando é preciso, para fazer a jihad, e, em seguida, eu volto. É uma decisão pessoal, não preciso de bandeira para o meu combate, eu carrego apenas a minha experiência para qualquer um que precise", explica, bebendo suco de laranja antes do pôr-do-sol.

Dada a sua observância relativa em relação ao jejum do Ramadã, corre o risco de não se integrar em outros grupos islâmicos radicais que recebem a maioria dos combatentes estrangeiros.

O Exército Sírio Livre (ESL), composto de desertores e opositores civis armados, é uma aliança de brigadas teoricamente sob o comando de oficiais refugiados na Turquia, que condenam o surgimento de grupos jihadistas.

Mas em terra muitos combatentes do ESL argumentam que precisam de ajuda, não importa de onde vier. Estes grupos têm "combatentes experientes que são como tropas de elite da revolução", explica Abu Haidar, um coordenador sírio do ESL no distrito de Seif al-Dawla, em Aleppo.

"O resto do mundo não nos ajuda, eles sim", insiste este combatente acendendo cigarro após cigarro. "Nem todos pertencem à Al-Qaeda, muitos são apenas voluntários que querem que a Síria seja libertada".

No grupo, Abu Zeid é conhecido por suas interpretações de canções islâmicas. "Em casa, procuro na internet os últimos lançamentos. Copio as palavras e aprendo as melodias que ouço", diz. De repente, um rebelde ferido é levado ao hospital de campanha instalado em um porão de Seif al-Dawla. Uma vez que o atendimento inicial é feito com sucesso, Abou Zeid canta uma canção, enquanto é seguido por um monte de crianças felizes.

Então, depois de um rápido agradecimento em meio aos aplausos, pega seu fuzil e desaparece, com um sorriso largo, para retornar ao front."Essas pequenas sessões de música são boas para o moral", acredita Abu Khaled, um voluntário da equipe médica. Logo depois, um jovem levemente ferido em uma mão se apresenta. Ninguém o conhece. Ele vem do Azerbaijão, fala turco, mas não árabe, e foi separado de sua unidade durante o combate.

"Eu vi imagens de guerra na televisão, e decidi vir aqui para ajudar os sírios a combater Assad. Esta é a primeira vez que faço isso", diz ele.Pouco depois, um combatente turco chega com um pequeno ferimento. Os dois homens passam a noite juntos discutindo a partida na manhã seguinte.Às vezes, as razões que levaram alguns à Síria são ainda mais obscuras. Ninguém entende, por exemplo, por que Abu Mohamed, um holandês de origem iraquiana, deixou sua mulher e dois filhos na Holanda há algumas semanas para vir lutar em Aleppo.

Vestido com o manto tradicional árabe, ele disse não pertencer a nenhum grupo, permanece sozinho a maior parte do tempo e não fala com ninguém. Ele só vai ao centro médico para desfrutar do ar condicionado, para descansar e ler o Alcorão. "Eu gosto de trabalhar sozinho, isso é tudo. Às vezes eu me canso, por isso venho aqui. Eu não tenho vontade de falar", diz, antes de pegar sua Kalashnikov e subir as escadas do porão.Ahmad, um jovem opositor do bairro que geralmente monta guarda na clínica, o observa caminhando sozinho na direção dos bombardeios."Ele não quer ajuda, mas ele nos ajuda. Nós não sabemos realmente o que acontece em sua cabeça, mas deixamos pra lá", explica.

AFP AFP - Todos os direitos reservados. Está proibido todo tipo de reprodução sem autorização.